incêndio

Extra: Museu Nacional #01

O maior acervo da América Latina pega fogo. Enquanto um prefeito cretino fala imbecilidades condizentes com a outra metade da sua vida dupla e um presidente safado finge que lamenta muito, a gente que é mais normalzinho chora pela perda irreparável desse museu. Mas por que mesmo o Museu Nacional era importante? Falamos com Nathalie Vlcek, especialista em línguas indígenas, e Adriana Ornellas, bibliotecária.

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metralhadora de fúria hoje; aguentem.

Quando minha filha entrou na cozinha hoje pra tomar café, viu minha cara inchada de choro e perguntou se eu tava me sentindo mal. Respondi que sim, porque era um dia muito, muito triste, e expliquei a ela, aos prantos, o que significa perder um museu como o Nacional. Ela me abraçou; tomamos café em silêncio. Ela me perguntou se eu já a tinha levado a esse museu; respondi que não, porque o Rio é uma cidade complicada. Não dá pra simplesmente pensar num lugar e decidir ir – tem a dificuldade de chegar, tem a logística imposta pelo mapa da violência urbana, você precisa se planejar muito, muito bem pra não ser pego no bairro tal em tal hora e não precisar atravessar o túnel tal à noite porque sabe que pode morrer se errar os cálculos. Então nós nunca fomos.

Quando a notícia do incêndio chegou ontem, a Carol tinha acabado de ir pra cama e eu estava sentada na minha poltrona dando a última olhada no Facebook antes de pegar no livro que estou lendo. Alguém postou sobre o incêndio e eu fui procurar no Twitter. Logo depois o Thiago me mandou um áudio totalmente atônito perguntando se eu tinha visto a notícia. Ficamos os dois assim, catatônicos, acompanhando as notícias, até que a raiva chegou e passamos a nos alternar no comando do PistolandoPod, furiosos, vomitando palavrões, consternados e putaços ao mesmo tempo.

Sabemos muito bem que o descaso com a cultura e com a educação não é exclusividade desse governo golpista de merda do caralho. Isso vem desde sempre – a verdade é que o Brasil começou a morrer em 1500, vamos combinar. O que esse vampiro maldito, colocado ali primeiro por um sistema político que impede a governabilidade se não forem feitos pactos com o diabo, e segundo por gente cheia de desonestidade intelectual que sacaneia os petistas pelo sanduíche de mortadela mas foi lá encher o cu de filé mignon pago pela FUCKING FIESP – A FUCKING FIESP, CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOO – fez com o corte de gastos por 20 anos foi oficializar o horror. Um governo – uma série de governos, um povo inteiro – que caga e anda pra educação e pra cultura merece só um meteoro mesmo. Por sinal, um meteorito foi a única peça que resistiu ao incêndio do museu. Acho significativo.

O brasileiro é todo errado. Nossas prioridades são as piores possíveis, nosso senso de coletivo é inexistente, nosso interesse pelo passado como modo de trabalhar o futuro é nulo, nossa capacidade de nos preocuparmos e nos programarmos a longo prazo é nenhuma. E além de tudo isso ainda temos a ameaça da moral e dos bons costumes. A treta do Queer Museum foi uma das tantas que ilustram claramente o retrocesso mental desse país. A simples existência de uma fucking bancada fucking evangélica, uma aberração em qualquer país minimamente normal, é um sinal claro do atraso que nos toma e que ainda é somente a ponta do iceberg. Quem me conhece sabe: se eu fosse funcionária pública e fosse obrigada a REZAR (‘ORAR’ TEU CU) no trabalho, cara, não haveria coquetel molotov que bastasse no bairro pra apaziguar a minha fúria. Só de pensar que no Rio temos o Crivella como prefeito – UM FUCKING PASTOR DA FUCKING IGREJA UNIVERSAL, PORRAAAAAAAAAAAA, O QUE CARALHOS VOCÊS TÊM NA CABEÇA, SEUS MERDAS, PRA ELEGER UM TRASTE DESSES – eu tenho vontade de chorar. A invasão desses energúmenos filhos da puta na nossa política, seu entranhamento na nossa sociedade, são sinais de que ainda tem MUITO espaço pra piorar. Mas o pior nem é a bancada evangélica propriamente dita, pois são só mais um grupo de pessoas escrotas cuidando dos próprios interesses; o problema maior, a meu ver, é a nossa elite de merda, nossa classe média, a mais escrota que já pisou na face da terra, que prefere apoiar esses merdas a votar “em comunista maconheiro”. Você deixou de votar no Freixo pra votar no Crivella? Você é um merda e não tenho a mínima hesitação em afirmar isso. É um merda, ponto. Agora senta aí e chafurda bem chafurdado na merda que você ajudou a piorar.

Observando isso tudo acontecendo, a gente entende que Darcy Ribeiro tinha mesmo razão e tudo isso que tá acontecendo é um projeto. As mentes da nossa classe média foram moldadas desde sempre pra desprezar o que é nosso e louvar o hemisfério norte; os grandíssimos sacos de merda que diziam que as ciclovias do Haddad em São Paulo eram coisa de comunista pagam pau pra Amsterdã; os mesmos grandíssimos sacos de merda que estão usando esse incêndio como justificativa pra pedir a privatização de tudo são os que ficam babando no Louvre, convenientemente ignorando que os maiores museus do mundo são administrados pelos governos. Trata-se de patrimônio nacional, porra, como é possível uma pessoa ser tão filha da puta a ponto de querer vender seus próprios museus??? Suas próprias indústrias de base, sua infraestrutura? Como é possível alguém defender a venda pra estrangeiros de empresas que são necessárias pra você TER ELETRICIDADE EM CASA, BOTAR GASOLINA NO CARRO, TER ÁGUA ENCANADA?

Eu queria saber por que não queimamos Brasília ainda. Eu sei os motivos, mas queria mesmo entender por que não estamos mais revoltados. Também sei os motivos; somos realmente um povo pouco afeito a guerras, e além disso depois de tantos séculos de ignorância voluntariamente incentivada pela elite dominante, não somos capazes de entender a dimensão da importância de um museu, de uma pesquisa científica, de uma filarmônica, de projetos culturais pras periferias. O importante é que a Lei Rouanet não dê dinheiro à obra Os Macaquinhos. O importante é não ter kit gay nas escolas – e não me dêem espaço pra começar a xingar o Bolsomerda e os merdas que nele votam, porque vocês tão carecas de saber minha opinião a respeito. Foda-se que o museu mais importante da América Latina pegou fogo por falta de verba pra ajeitar a fiação elétrica do prédio (ou por alguma causa dolosa que ainda não conhecemos); o importante é fiscalizar o que cada um faz com seus próprios orifícios corporais. Foda-se que perdemos VINTE FUCKING MILHÕES DE ITENS, décadas de pesquisas, espécimes raríssimos, documentos históricos, espécies ainda não identificadas; o importante é fazer operação militar nas favelas, sabendo muito bem que não serve pra nada além de matar negros e pobres – e aqui incluo os militares mortos durante a intervenção e os PMs que morrem no Rio, e no país inteiro, todos os dias. AIN MAS UMA COISA NÃO EXCLUI A OUTRA – nesse caso, exclui sim, porque a hierarquia das nossas prioridades diz muito sobre o que somos e que valores temos. Os valores da classe média brasileira são, não necessariamente nessa ordem: prefiro eu estar na merda mas ter gente mais na merda do que eu a estar não na merda mas na companhia da classe C no avião; farinha pouca, meu pirão primeiro; a família acima de tudo, mas quero poder jogar minha mulher da janela e depois dizer que não me lembro de nada; privatiza tudo, que se der errado eu vou morar em Miami; bicicleta é coisa de comunista, mas ai como eu amo Amsterdã; socialista é tudo filho da puta, mas aqui tá feia a coisa, vou pra Portugal ajudar a criar um novo nicho mercado de apartamentos com dependência de empregada porque não sei viver sem mucama e meu braço cai se eu tiver que limpar a minha própria privada; tem que matar traficante mesmo, mas a culpa não é minha pois eu votei no Aécio. Pra mim, nada resume e ilustra tão perfeitamente a classe média brasileira quanto os adesivos da Dilma de pernas abertas pra colar no carro. Em tempo: se você já usou esse adesivo e não se arrepende, não entende a magnitude disso, você é um merda também.

Sempre que visito museus fora do Brasil fico pensando que se eu morasse lá teria o passe anual e viveria lá dentro. Fiquei pensando nisso hoje, depois do incêndio. Há algumas semanas uma amiga querida, a Ana Cardoso, me chamou pra darmos uma volta no Museu Oscar Niemeyer aqui em Curitiba. Eu não gosto de arte moderna e abomino a arquitetura dele, mas SEMPRE tem alguma mostra interessante pra ver e eu não vou com a frequência com que deveria. Por preguiça mesmo; a Ana vai sempre, mas ela vai a pé, mora pertinho. Eu moro relativamente perto, mas fico com preguiça de ir mais porque nem todo o acervo deles me interessa. Se houvesse um museu de história natural ou de arte nos moldes da National Gallery de Londres aqui eu certamente moraria lá dentro.

Minha mãe sempre encheu a boca pra falar da Quinta da Boa Vista, porque era realmente uma coisa deslumbrante, pra além da importância histórica da estrutura e do museu. Uma área de lazer invejável numa cidade ridiculamente quente, mas com ridiculamente poucas áreas verdes. Eu fui ao museu várias vezes quando pequena, com meu pai, com excursões da escola. Nunca fui depois de adulta. Me arrependo de não ter levado a Carol. Agora nada daquilo existe mais.

Esse texto tá completamente sem sentido, sem fio condutor, sem lógica entre os parágrafos. Não tenho condições emocionais de escrever nada direito. Ontem fui dormir chorando e xingando, minha cabeça tava uma zona, mil coisas ao mesmo tempo, vários textos misturados. Perdoem a minha confusão mental, por favor.

Eu vou trabalhar na biblioteca hoje à tarde. Quarta-feira o ingresso no Niemeyer é grátis; vou pegar a Carol mais cedo na escola e levá-la ao museu.

Leiam a Eliane Brum sobre o assunto. Nunca houve pessoa que escrevesse tão bem sobre qualquer coisa quanto essa mulher.