Leticia Dáquer

em boa companhia

Tempo de leitura: 2 minutos

 

Ao que parece, 2019 vai ser o ano do podc… Não, péra.

Pra gente esse tá sendo o ano da leitura. Estamos tentando participar o máximo que podemos do desafio de leitura de autoras mulheres que as meninas do As Desqualificadas estão fazendo, e eu pessoalmente venho fazendo resenhas dos livros que estou lendo, que façam ou não parte do desafio, como maneira de me estimular a ler mais. Netflix e redes sociais sugam a gente; quando a gente olha já passamos uma semana inteira sem ler nada.

Not today, Satan! Esse ano estamos atacados, duas máquinas de ler devorando um monte de gêneros diferentes. Por isso veio muito a calhar a parceria que fizemos com a Companhia das Letras.

(Por falar em Companhia das Letras, ouçam o podcast deles, que a gente já ouvia muito antes dessa parceria rolar. As entrevistas são sempre muito boas.)

Eles tavam atrás de produtores de conteúdo pra falar dos livros deles; tivemos sorte de entrar no grupo dos parceiros pra esse projeto e todo mês recebemos um e-mail com um catálogo do qual podemos escolher um livro, sobre o qual depois falamos no podcast. O livro de fevereiro eu escolhi junto com o Thiago e o episódio que fala dele, ou melhor, que vai partir do livro pra expandir o assunto central da história, vai ser gravado antes do final do mês, com convidados que cês não vão acreditar, cês não tão entendendo. O livro de março está sendo votado na Pistolândia, o grupo dos nossos catárticos no Telegram, enquanto digito esse post.

(Falando em catárticos, estamos muito precisados de mais apoio, principalmente depois do assalto desse fim de semana. Thiago precisa de um celular novo e de uma escrivaninha pra poder editar de casa, em vez de ficar no trabalho até onze da noite pra aproveitar os móveis ergonômicos da empresa.)

O legal é que os títulos disponíveis são sempre muito variados e temos que nos virar pra encaixá-los no nosso formato, no nosso estilo. É um ótimo exercício de criatividade e um desafio pra gente (leia-se “sarna pra se coçar”, mas a gente gosta). É também a oportunidade de fazer algo diferente, pois se por um lado ideias pra pauta não nos faltam, por outro é bom ter um ponto inicial concreto a partir do qual podemos ir pra várias direções diferentes na hora do debate, já que o tema central do livro pode ser explorado de ângulos variados que muitas vezes não teríamos levado em consideração se não fosse o livro.

Nem gravamos o primeiro ainda e já estamos mega animados 😀

Então fica aí a mensagem: leiam mais, ajudem a gente no Catarse, divulguem pros amigos, sigam a gente no Twitter e no Instagram e fiquem de olho no feed, porque vem coisa aí que cês não tão esperando não 😉

qual é o seu feminismo?

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Eu moro na internet, vocês sabem. Estou em vários grupos diferentes, alguns só de mulheres. São safe places pra nós, principalmente pras mais sensíveis de nós – não me incluo nessa categoria, mas sempre me sinto honrada de ser convidada pra participar deles.

Em um desses grupos passamos um bom tempo semana passada nos indignando com ômis fazendo omices em outro grupo do qual todas participamos, e onde somos minoria de gênero. Nada de altamente ofensivo, mas aquelas coisinhas de sempre: piadinhas de duplo sentido, menosprezo pelas nossas dúvidas e perplexidades, manterrupting, mansplaining, ômi ignorando solenemente as nossas contribuições. Passamos alguns dias indignadas e reclamando deles no nosso grupo. Até que umas três ou quatro delas, todas mulheres que admiro muito e cuja trajetória acompanho há tempos, vieram dizer que estavam cansadas do clima pesado que tava rolando no grupo e perguntar se não era o caso de dar uma acalmada e tentar chamar os caras no pvt, dialogar, explicar, lançar mão de comunicação não-violenta.

Não é uma estratégia na qual estou disposta a insistir.

Quem me conhece tá careca de saber que eu sou impaciente pra cacete, mas talvez vocês não saibam que a única coisa que eu adoro mais do que me irritar é explicar, ensinar. Eu já respirei fundo inúmeras vezes pra explicar o óbvio pra quem está láaaa no comecinho da desconstrução.

E vou dizer uma coisa:

CANSEI.

Sabe, essa virou mais uma função que jogam nos nossos ombros: explicar, ensinar. Ser babá intelectual de homem-menino que nem a responsabilidade de se educar quer assumir. Eu não quero mais isso. A única pessoa por cuja educação eu sou diretamente responsável é a minha filha. Estamos em 2018; a desculpa “desinformação e desconhecimento” não cola mais pra justificar machismo, racismo, homofobia e escrotidão generalizada.

Entendam: não estou de maneira alguma dizendo como você, mulher, deve se comportar, obviamente, mas eu, EU, Leticia Dáquer, JAMAIS serei aquela que sai do grupo porque os machos são escrotos. Jamais. Esperem sentados, porque não vai acontecer. Esse não é o meu feminismo. Eu sou aquela que vai começar questionando de leve, e depois vai distribuir voadoras nucleares, cadeiradas na gengiva, traulitadas na fuça, em quem insistir no comportamento imbecil. Eu não tenho mais saco pra discutir o óbvio com homem cretino. Não tenho mais paciência nem energia pra ensinar macho a não ser escroto. Não quero mais esse fardo. NÃO SOU OBRIGADA.

Pensem em quantas coisas a gente (nós, mulheres) não poderia estar debatendo, descobrindo, discutindo, aprendendo, ensinando, se não tivesse que perder tempo rebatendo argumentos idiotas e nos defendendo de ataques machistas. Quanta coisa mais produtiva poderíamos estar fazendo! Mas não, estamos aqui gastando saliva explicando pra gente escrota que ser escroto é ruim. Na boa, não. Não vou ser eu a encarnar mais esse papel. Tô fora. São pouquíssimos os homens que merecem esse esforço. Se você conhece algum, vai na fé, eu também já conheci e fui na fé e não me arrependo (inserir o gif da galinha rodando na discoteca com os dizeres I REGRET NOTHING). Mas a imensa maioria simplesmente não quer saber. A imensa maioria é comentarista de portal, e com comentarista de portal não existe CNV suficiente na Via Láctea. A gente fica perdendo tempo e energia com esses cretinos e deixando de fazer outras coisas mais produtivas, mais maneiras, mais enriquecedoras.

Vou citar aqui o livro que estou lendo, que foi a minha dica cultural do último episódio (que por sinal ficou tchutchuco e se você não ouviu ainda, tá perdendo):

Minha tradução livre: O tipo de compaixão que é útil para homens e meninos que estão tentando escapar de um mundo de violência, misoginia e constipação emocional não é a compaixão de um padre que perdoa os pecados, mas a de um médico que olha para um idiota que esperou demais antes de procurar ajuda para uma ferida purulenta e diz, com firmeza e precisão: sinto muito, mas vai doer.

Não existe maneira indolor de sair do machismo. Não vai ser saindo de grupos povoados de homens escrotos, nem chamando no pvt pra uma conversa longa e cansativa que não vai dar em nada e que só ele vai ler – se é que vai ler, nem fingindo que não é com a gente, que as coisas vão mudar. É isso o que eles querem: que a gente recue, deixe de ocupar espaços, evite o confronto. Existe esse feminismo de bastidores também, que faz esse trabalho de formiguinha, e admiro quem tem esse tipo de paciência, mas não é o meu.

Eu acho que tem que expor. Tem que jogar na cara. Tá sendo escroto no grupo? Mostra ao grupo o quão escroto ele tá sendo. Faz ele passar vergonha com os amiguinhos. Não importa se os amiguinhos o apoiarem, num exemplo de broderagem idiota; COM CERTEZA alguma moita no grupo (todo grupo tem moita) vai ler e vai pensar sobre o assunto, se bobear vai rolar até a proverbial botada de mão na cabeça, a reboladinha e o exame de consciência. Depois de mil mulheres reclamando da mesma coisa, de repente – de repente, talvez, quem sabe – eles entendam que trata-se de um problema real, e não de mimimi de feminazi.

Eu tô amando esse livro. Não sou uma estudiosa do feminismo, mas muitas coisas que ela diz eu já li antes; não há grandes insights até agora (ainda estou na metade). Só que, ao contrário de outras autoras pacatas que eu já li, ela tá putaça, e eu não consigo tirar a razão dela. Eu não entendo por que diabos não estamos todas tão putaças a ponto de parar o mundo inteiro. Qualquer jornal de qualquer país do mundo conta histórias de arrepiar os cabelos envolvendo mulheres se fodendo, porque vocês sabem, Sócrates já dizia, mulher só se fode. É todo dia, o tempo todo, no mundo todo. Por que diabos não tacamos fogo em tudo ainda? Não sei. Acho que nos falta raiva, de verdade.

NÃO VAI SER COM PALAVRINHAS DE AMOR E FLORES NO CABELO QUE VAMOS MUDAR O MUNDO. Infelizmente não vai, sinto muito. Concordo plenamente com a Laurie Penny, autora do livro acima: vai ter que espremer o furúnculo pra sair o carnegão, vai doer pra cacete, vai todo mundo ver estrelas de dor. Mas ficar passando pomadinha homeopática e dizendo que vai passar não vai resolver o problema.

E como a nossa descrição já diz, acreditamos que há pontes que precisam ser queimadas, e não construídas. “Ain mas é a minha opinião” – não. Ser escroto não é opinião. Interromper mulheres o tempo todo não é opinião. Menosprezar o sofrimento das mulheres não é opinião. Chamar a sua ex de maluca quando o idiota da relação foi você não é uma opinião.

O Ivan do Anticast comentou em um programa que ele só foi ter uma vaga ideia do que realmente uma mulher experimenta quando anda sozinha na rua quando a mulher dele, na época namorada ainda, disse “então faz assim, eu vou andando sozinha na frente e você vai me seguindo a uma certa distância, só observando”. Ele ficou horrorizado com o tanto de comentários que ela ouviu de homem que acha que chamar mulher de gostosa na rua super vai fazer ela se apaixonar por ele e tirar a calcinha na hora. Doeu assistir àquilo (sim, é crase)? Doeu. Ficou incomodadíssimo. Ela já tinha explicado a ele várias vezes, e ele não tinha entendido. Precisou ver com os próprios olhos e sentir o desconforto, o incômodo de assistir à cena pra começar a mudar de ideia. E isso porque o Ivan é gente boa. Se com homem gente boa só a gente falar não adianta, por que vocês acham que vai funcionar com o macho escroto?

Bora espremer o carnegão então. Sem anestesia.

P.S.: Muitos beijos pra mulherada do Vários Assuntos Ovariados e pra Julie do Bora Marcar?

 

#ativismonaweb

Tempo de leitura: 9 minutos

 

Um dos muitos problemas recorrentes fora da minha bolha da podosfera esquerdopata gayzista marxista miçangueira é a dificuldade de conversar seriamente sobre temas que os coxinhas classificam sob o termo guarda-chuva “mimimi”. Um desses temas é a cultura do estupro. Já tentei introduzir o assunto muitas vezes no grupo dos médicos, por exemplo, mas um deles, um ser execrável de quem tenho vergonha de ter sido muito amiga por muitos anos, rebate com os clássicos não-argumentos da direita quando se toca nesse tópico. Ele é o clássico macho escroto que ficou pra trás quando o mundo andou: era aquele politicamente incorreto que todo mundo achava engraçado, a maior parte das pessoas entendeu que ele não tem mais graça, foi largado lindamente pela mulher e ainda levou um divórcio-relâmpago na fuça, e desde então foi só ladeira abaixo. Hoje é aquele homem-criança ridículo com senso de humor estilo Trapalhões, que baba quase que literalmente quando qualquer mulher passa ao lado dele e chama de feminazi qualquer uma que tenha dignidade e não dê trela pra sua figura patética. Como eu não tenho paciência pra discutir com macho escroto intelectualmente desonesto, acabo largando de mão.

Mas a gente PRECISA falar sobre cultura do estupro. O termo não é novo e nem brasileiro; foi cunhado pelas feministas da segunda onda nos EUA, o que já demonstra uma certa universalidade do patriarcado, onipresente quando se trata da nossa espécie.

O mundo é machista. Como já dizia Confúcio, mulher só se fode. Sempre estivemos na berlinda, sempre sofremos caladas, sempre fomos consideradas seres inferiores, objetos a serem possuídos, bibelôs/trophy wives, úteros ambulantes, a lista é longa e muito, muito triste. Nunca fomos ouvidas. Nossos anseios, nossas dificuldades, nossos desejos nunca foram levados a sério – nunca. Somos interrompidas O TEMPO TODO – outro dia mesmo estava assistindo à live da votação daquele abomínio do Escola Sem Partido e as deputadas mulheres eram interrompidas muito mais do que os homens. Quem não se lembra da entrevista da Manuela D’Ávila no Roda Viva, em que ela foi interrompida 12.394 vezes?

Mulheres dificilmente são criticadas (ou elogiadas) pelo que dizem ou fazem; as ofensas inevitavelmente caem pro nível pessoal, e SEMPRE acabam em sexismo. Até o vocabulário usado pra homens e mulheres é radicalmente diferente: mulher é vaca, piranha, cachorra, cadela, vadia, baranga, mal comida. Homem é garanhão, pegador, comedor. Não venham me dizer que nunca repararam nisso, pois ficarei decepcionada.

Não acertamos nunca: se não quisermos filhos, somos egoístas. Se quisermos filhos e deixarmos de trabalhar pra ficar com eles, somos preguiçosas. Se quisermos filhos e formos trabalhar fora, somos acusadas de negligenciar os filhos (me cobrem mais sobre esse assunto no futuro, por favor). Se quisermos um filho só, é triste porque filho único, né, ninguém merece; se quisermos muitos filhos, somos loucas, quem vai tomar conta, como vamos pagar as contas etc etc. Se dedicamos tempo pra ir pra academia, somos chamadas de superficiais, alá, se trabalhasse mais não teria tempo pra malhar. Se formos sedentárias, alá, toda largada, sem um pingo de vaidade. Se nos arrumamos muito, somos fúteis; se não nos arrumamos, somos molambas. Botem a mão na cabecinha e pensem em quantos homens vocês conhecem que estão sujeitos a essas mesmas críticas da mesma maneira.

Nunca somos levadas a sério: mulher bonita não é levada a sério porque se é bonita, é burra; mulher feia não é levada a sério porque deve ser mal comida e portanto rancorosa e fala as coisas por raiva e não de maneira racional.

Essa ausência de voz, essa dificuldade imensa em nos fazermos escutar, nos deixa numa posição extremamente vulnerável. Um número imenso de mulheres que sofrem abuso e violência de todo tipo – sexual, psicológico, verbal, financeiro – nem se dá ao trabalho de denunciar o agressor. Sabem que não acreditarão nelas, sabem que vão perguntar que roupa estavam usando quando aconteceu, sabem que a culpa, no final das contas, vai ser dada à vítima. Há MUITOS relatos na internet de mulheres contando como foi a tentativa de BO em delegacias, inclusive em delegacias da mulher. Contando como foi terrível ter que entrar em detalhes, ter que aguentar os olhares que as culpabilizavam pelo ocorrido, ter que responder a perguntas cretinas, ter que quase que pedir desculpas por terem-se deixado estuprar. O resultado é que o número de casos de feminicídio é, compreensivelmente, subnotificado. Vejam bem, não é só no Brasil – como já estamos carecas de saber, o mundo inteiro é machista.

Não é só no Brasil, mas aqui o bicho pega de maneira bem escancarada. Nossos números são absolutamente escandalosos, e o Grandíssimo Saco de Merda recém-eleito certamente não vai ajudar a melhorá-los. Quando um desgraçado machista lidera o seu país, você se sente autorizado a ser machista também. A tendência é piorar.

Esse meu ex-amigo desprezível é daqueles que acham que o termo feminicídio é desnecessário porque já existe homicídio, que contempla qualquer ser humano vítima de assassinato (o interessante é que ninguém contesta a existência do termo latrocínio, que é matar pra roubar – a motivação é diferente, logo o termo é diferente). Você que tá lendo isso aqui provavelmente entende o motivo da necessidade de um termo específico pro assassinato de mulheres, mas pro caso de não entender, ou de ter que explicar pra alguém, vamos lá: enquanto que sim, é verdade que morrem assassinados mais homens do que mulheres, também é verdade que homens que matam outros homens o fazem por mil outros motivos – roubo, tráfico de drogas, brigas idiotas em bar – que não o simples fato do outro ser um homem. Mulheres mortas pelas mãos de homens morrem por serem mulheres – e portanto por serem consideradas objetos descartáveis, seres cuja vida não tem valor, não-pessoas que servem para serem violentadas, exploradas, e depois eliminadas (ou trocadas por outras mais jovens, como nosso atual presidente e como o Grandíssimo Saco de Merda ilustram perfeitamente). Quando uma mulher é morta pela sua condição de ser mulher – o ex-namorado que não aceita o fim do relacionamento, o marido que não aceita uma nova gravidez, o pai que não aceita que a filha saia à noite com os amigos – isso requer uma nomenclatura diferente. Feminicídio, portanto. Vejam bem: o ex-namorado não aceita o fim do relacionamento porque ele, homem, não pode ser descartado por ela, mulher; afinal de contas, quem manda é ele. O marido que não aceita uma nova gravidez está primeiramente tirando o dele da reta, como se ela tivesse engravidado sozinha; além disso só quem tem útero engravida, logo a “desculpa” “matei porque ela engravidou” só funciona pra mulheres (e outras pessoas com útero, mas vocês entenderam). O pai que mata a filha porque ela saía de minissaia com os amigos à noite se justifica dizendo que isso não é comportamento de mulher séria – se fosse o filho homem esse tipo de comportamento não seria um problema, ou seja, ela só morreu porque era mulher.

Se vocês acham que isso é frescura, me digam quantos casos conhecem de pais que mataram seus próprios filhos homens pois esses engravidaram a namorada ou porque querem sair à noite com os amigos ou porque usam short curto demais. E não, não estou falando de pais que matam filhos gays; a homofobia tem uma ligação muito estreita com o machismo porque o maior defeito do homem gay é ser visto como “mulherzinha”, e ser mulherzinha é errado e feio. Ser mulher é visto como uma coisa ruim, ponto.

Mulheres apanham de seus companheiros rotineiramente e muitas não têm condições financeiras e/ou psicológicas pra sair de um relacionamento abusivo. É fácil pra gente olhar de fora e se perguntar “mas por que ela ainda tá com esse cara?”, convenientemente esquecendo que se ela não tem como se bancar sozinha, não tem como sair de casa; se ela tem filhos, isso complica imensamente uma fuga; se ela sabe que vai ser perseguida e assassinada, ela não vai fugir. Eu e você que estamos lendo somos, provavelmente, brancos, estudados, com família relativamente estável. Temos pra onde fugir. E mesmo assim quantas de nós mulheres brancas de classe média não desistimos de sair de  relacionamentos abusivos ou simplesmente ruins porque é TÃO complicado e doloroso e logisticamente difícil sair deles que nos parece menos terrível permanecer numa situação desagradável, porém conhecida?

Cultura do estupro é isso tudo. Objetificar mulheres faz parte da cultura do estupro, pois um ser humano tratado como objeto, desumanizado, é mais facilmente oprimido e eliminado. Culpabilizar a vítima faz parte da cultura do estupro, pois livra de responsabilidade quem realmente cometeu o crime, o que significa que provavelmente vai cometer de novo. Desprezar o sofrimento alheio faz parte da cultura do estupro – a partir do momento em que você deixa claro que acha frescura se incomodar com pequenos atos diários de machismo, está limpando a sua barra pra continuar cometendo esses atos, afinal de contas a culpa é de quem se ofende por qualquer coisa. Aquela broderagem maneira, sabe, ver o colega mostrando foto da amante pelada na cama que ele tirou escondido e não repreendê-lo, não tomar o lado da colega de trabalho que foi ofendida pessoalmente por outro colega usando termos machistas, dar penas leves pra quem cometeu crimes hediondos contra mulheres (leia-se passar pano pra macho) contribui pra cultura do estupro.

Sabe o que mais faz parte da cultura do estupro? Esses nossos pequenos machismos cotidianos, o uso de termos machistas no nosso vocabulário corrente, falar coisas aparentemente inocentes como “olha só o Robertinho, 1 aninho e já gosta de mulher, vai ser um garanhão”, “essa Renatinha vai dar trabalho, hein, é bonita demais”, a hipersexualização de crianças (e uma ramificação disso é a tara por mulheres totalmente depiladas, vamo combinar).

O fato de termos que criar leis específicas pra proteger mulheres não é mais do que um reflexo dessa cultura que normaliza o assédio e a violência. Há uns meses estive com a Ana Cardoso num evento da Defensoria Pública do Paraná em que foi criado um projeto pra proteger mulheres vítimas de abuso, e a Maria da Penha contou a sua história, que é sempre muito dolorosa de ouvir. A lei com o nome dela é admirada em todo o mundo, mas o fato de que tenha sido preciso criar uma lei desse tipo é incrivelmente triste. Foi preciso criar uma lei que torna crime ejacular em público (leia-se ejacular em cima de mulheres no ônibus, uma coisa que acontece com uma frequência BIZARRA no Brasil). Os vagões rosa (CHER DO CÉU, COMO EU ODEIO ESSA MANIA IDIOTA DE SEM-PRE USAR ROSA PRA REPRESENTAR MULHERES. Em tempo: “rosa” usado como adjetivo não vai pro plural, tá? Então é “vagões rosa” mesmo, assim como seria “vagões cinza” e “vagões laranja”, porque esses adjetivos são derivados de substantivos. Obrigada, de nada) no metrô do Rio e em outras cidades no mundo inteiro são um exemplo. Em vez de ensinar os homens a não encoxarem as mulheres no transporte público, cria-se um vagão só pra elas, coitadas. E pensar que ainda criticamos os muçulmanos por todas as atitudes que tomam pra “proteger” as mulheres, pois os pobres homens de merda não conseguem se controlar, são regidos pelos seus pênis, ó vida, ó céus.

 

Não somos tão diferentes deles não, na real. Homens não querem perder seus privilégios – leia-se não querem perder o direito de assediar mulheres – e por isso no fim das contas quem tem que esperar o vagão rosa (porque se sofrer assédio em outro vagão certamente irão perguntar MAS POR QUE VOCÊ NÃO ESTAVA NO VAGÃO ROSA? SE ESTIVESSE NO VAGÃO ROSA ISSO NÃO TERIA ACONTECIDOZZZZZZZZZZZ), tem que cobrir a cabeça, tem que usar vestido até o pé, somos nós mulheres.

Espero estar deixando claro que o fenômeno é mundial, embora no Brasil as coisas sejam particularmente ruins. Dar nome aos bois e usar a terminologia correta – feminicídio, estupro, abuso – ajuda. Parar de interromper mulheres ajuda. Educar seu filho homem não pra ser pegador, mas pra respeitar todo mundo, ajuda. FALAR SOBRE GÊNERO NA ESCOLA AJUDA, mas nem isso teremos, com o governo do Grandíssimo Saco de Merda vetando qualquer tipo de conversa útil nas escolas.

Pra chegar ao macro, precisamos partir do micro. Pra conseguir grandes mudanças na sociedade, é preciso que a gente mude também. É importante prestar mais atenção ao que dizemos, a como nos comportamos – principalmente se você, leitor, for homem. Não seja o macho escroto. Não interrompa quando uma mulher estiver falando. Não explique a uma mulher uma coisa que ela sabe melhor que você. Não use termos como “aquela vaca”, “aquela piranha”. Não deixe de denunciar o amigo que fez revenge porn. Não seja esse macho escroto.

Micro também significa ativismo online. Por isso gravamos um episódio com a Aline Hack do podcast Olhares, falando sobre justiça reprodutiva. O episódio saiu antes da campanha #ativismonaweb começar e vocês já devem ter ouvido, mas isso não faz a menor diferença, porque esse assunto é atual sempre e deveria ser discutido todo fucking dia. Segundo o site oficial da Câmara, “A campanha, realizada em escala mundial de 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, a 10 de dezembro, data em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, também tem o objetivo de propor medidas de prevenção e combate à violência, além de ampliar os espaços de debate com a sociedade.” Não é mimimi de feminazi brasileira. É uma campanha mundial, porque o problema da violência contra as mulheres é mundial. No Brasil a campanha começa dia 20 pra pegar a onda do Dia da Consciência Negra, hoje, 20 de novembro. Nossa campanha aqui é mais longa porque no Brasil as mulheres negras sofrem muito mais violência do que as brancas.

Pra participar da campanha, usem seus canais de comunicação pra discutir o assunto e usem as hashtags da campanha nas mídias sociais. Quando forem divulgar esse texto e o nosso episódio de justiça reprodutiva (e eu sei que vocês vão divulgar, porque vocês são gente boa), usem as hashtags da campanha.

Leiam mulheres. Ouçam mulheres. ESCUTEM O QUE TEMOS A DIZER. Nós precisamos ser ouvidas, ser levadas em consideração. Não existe outro caminho pra acabar com a cultura do estupro e com a violência contra as mulheres.

Castração química não resolve, armar mulheres não resolve, nem penas mais pesadas resolvem, pois sabemos que nada disso detém quem realmente quer agredir, e num país normal o objetivo principal nem deveria ser prender estupradores, na boa, né. O objetivo principal deveria ser que HOMENS PARASSEM DE ESTUPRAR, ponto final.

Beijo.

 

 

Guia de sobrevivência ao almoço de domingo – Parte 7:  Saúde

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Falou em saúde e educação, eu entro em campo! Então lá vamos nós:

SAÚDE E EDUCAÇÃO

A SAÚDE DEVERIA SER MUITO MELHOR
Com o valor que o Brasil já gasta!
Abandonando qualquer questão ideológica,
chega-se facilmente à conclusão que a
população brasileira deveria ter um
atendimento melhor, tendo em vista o
montante de recursos destinados à Saúde.
Quando analisamos os números em termos
relativos, o Brasil apresenta gastos
compatíveis com a média da OCDE, grupo
composto pelos países mais desenvolvidos.
Mesmo quando observamos apenas os
gastos do setor público, os números ainda
seriam compatíveis com um nível de bem
estar muito superior ao que vemos na rede
pública.
É possível fazer MUITO mais com os
atuais recursos!
ESSE É NOSSO COMPROMISSO!

A saúde é uma bosta blá blá blá poderia ser melhor blá blá blá Whiskas sachê.  Gastaram um parágrafo inteiro pra falar o óbvio. Todo mundo sabe que a saúde pública fica muito aquém do que deveria, apesar do SUS ser um projeto MARAVILHOSO elogiado no mundo inteiro. Quantos outros países no mundo oferecem serviços de saúde totalmente gratuitos? Lembrando que em muitos outros ele é pago E ruim ao mesmo tempo. O SUS deve ser defendido com unhas e dentes, mas isso requer investimento. Coisa que o programa do Bozo já disse que não vai fazer (veja aqui e aqui). Eles dizem que é possível fazer muito mais com os atuais recursos (mais uma vez mostrando que não pretendem aumentar os investimentos no SUS). Como vão fazer isso?

SAÚDE NA BASE

O Prontuário Eletrônico Nacional Interligado será o pilar de uma saúde na base informatizada e perto de casa. Os postos, ambulatórios e hospitais devem ser informatizados com todos os
dados do atendimento, além de registrar o grau de satisfação do paciente ou do responsável. O cadastro do paciente reduz custos ao facilitar o atendimento futuro por outros médicos, em outros
postos ou hospitais. Além disso, torna possível cobrar maior desempenho dos gestores locais.

Ótima ideia informatizar tudo, super maneiro, fica bonitão, o computador lá, o médico cutucando a tela do tablet, todo disruptivo, pipipi popopó. Mas vem cá… O Brasil tem internet confiável, estável, difusa em todo o seu território? O posto de saúde lá nos cafundós do Amazonas vai ter prontuário digital?

E essa deveria mesmo ser a prioridade pra melhorar o SUS?

Credenciamento Universal dos Médicos: Toda força de trabalho da saúde poderá ser utilizada pelo SUS, garantindo acesso e evitando a judicialização. Isso permitirá às pessoas maior poder de escolha,
compartilhando esforços da área pública com o setor privado. Todo médico brasileiro poderá atender a qualquer plano de saúde.

“Todo médico brasileiro poderá atender a qualquer plano de saúde” na verdade quer dizer “todo médico brasileiro vai ter que ceder às compensações risíveis que os planos de saúde pagam aos profissionais, porque senão não conseguem trabalhar”. Poder de escolha coisa nenhuma – médico forçado a trabalhar por migalhas vai atender igual à cara dele, e não tiro a razão dele não.

 

PREVENIR É MELHOR E MAIS BARATO

Mais Médicos: Nossos irmãos cubanos serão libertados. Suas famílias poderão imigrar para o Brasil. Caso sejam aprovados no REVALIDA, passarão a receber integralmente o valor que lhes é
roubado pelos ditadores de Cuba!

Além da Revalida, sugiro apertar mais o Provão e a fiscalização das faculdades, porque o que tem de faculdade de medicina formando médicos péssimos no Brasil não tá no gibi. Temos uma legião de médicos que na verdade são técnicos em medicina incapazes de tratar os pacientes com gentileza, de dar atenção às queixas, de aceitar críticas, de ouvir outras opiniões, de trabalhar em harmonia com a equipe de enfermagem e com outros profissionais de saúde, que eles consideram inferiores. Uma legião de médicos que escrevem tudo errado, cometem erros inacreditáveis, são negligentes e jamais deveriam estar exercendo, mas estão, pois têm um diploma de uma faculdade vagabunda nas mãos. Prepara um Provão bem difícil, enche as faculdades de fiscais, faz avaliações severas e você vai ver quantas faculdades de bosta vão fechar. Vão sobrar bem poucas particulares, digo com tranquilidade.

 

Médicos de Estado: Será criada a carreira de Médico de Estado, para atender as áreas remotas e carentes do Brasil

Já existem programas pra mandar médicos pra regiões remotas do país; tenho colegas que trabalharam em cidades microscópicas em áreas de floresta e tal. Ninguém quer ir, porque ninguém em sã consciência quer morar num lugar remoto, sem infra nenhuma, sem conforto, sem nada pra fazer. Além de médicos, esses lugares remotos precisam de infraestrutura, que não está prevista no programa. Obviamente, o programa não especifica como será essa carreira, quem vai fazer parte dela, de onde virão os fundos pra custeá-la, como serão definidos os locais pra onde serão mandados esses profissionais. Mais uma frase absolutamente vazia, desprovida de significado.

 

Os agentes comunitários de saúde serão treinados para se tornarem técnicos de saúde preventiva para auxiliar o controle de doenças frequentes como diabetes, hipertensão, etc.

Legal, medicina preventiva. Já existem agentes comunitários treinados (também) pra saúde preventiva. São poucos, ganham pouco e contam com pouca infraestrutura. Quais são os planos pra mudar esse quadro? Nenhum, ao que parece, pois o plano não especifica.

 

UM EXEMPLO DE PREVENÇÃO

Saúde bucal e o bem estar da gestante. Estabelecer nos programas neonatais em todo o país a visita ao dentista pelas gestantes. Onde isso foi implementado , houve significativa redução de prematuros.

Saúde bucal é importante pacas, eu sei. Boa saúde bucal reduz o tempo de internação em UTI, por exemplo. Mas e aí? Do que mais precisamos, além de reduzir a incidência de bebês prematuros? Por que essa obsessão com a saúde bucal? Ele deve ter lido algo sobre isso em algum lugar, achou chique e agora enfia isso em tudo o que é debate e conversa.

 

Outro exemplo será a inclusão dos profissionais de educação física no programa de Saúde da Família, com o objetivo de ativar as academias ao ar livre como meio de combater o sedentarismo e a obesidade e suas graves consequências à população como AVC e infarto do miocárdio.

Interessante. Onde serão essas academias ao ar livre? Nas muitíssimas (cof cof) áreas verdes das nossas cidades, visto que somos um país que preza muitíssimo pelos seus parques (cof cof)? Que horas as pessoas irão fazer atividade física?  Antes ou depois de pegar a primeira de três conduções pra ir pro trabalho ou pra voltar pra casa? Quem vai ficar com os filhos dessas pessoas enquanto elas malham? Vai haver educação alimentar pra esses cidadãos? Porque todo mundo tá careca de saber que alimentação, estresse, fumo, consumo de álcool são fatores tão importantes quanto o sedentarismo pra manutenção da saúde. O que será feito pra reduzir o estresse das pessoas? Dica: cortar o décimo-terceiro salário NÃO reduz o estresse.

Mais um bloco do programa que não diz absolutamente nada. Nada, nada, nada. Um grande vazio de ideias habitado por frases feitas desprovidas de significado, que um macaco mais espertinho seria capaz de formar usando aqueles kits de palavras magnéticas pra colar na porta da geladeira.

 

Esse texto é parte de uma série. Não deixe de ver os nossos outros textos sobre o tema:

Introdução
Parte 1: “O Brasil livre”
Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília
Parte 3: Estrutura e gestão
Parte 4: Linhas de ação
Parte 5: Mentiras da esquerda
Parte 6: Defesa nacional
Parte 7:  Saúde
Parte 8: Educação (EM BREVE)
Parte 9: Inovação, ciência e tecnologia (EM BREVE)
Parte 10: Economia (EM BREVE)
Parte 11: Economia 2 (EM BREVE)
Parte 12: Economia 3 (EM BREVE)
Parte 13: Economia 4 (EM BREVE)
Parte 14: Economia 5 (EM BREVE)
Parte 15: Agricultura e Infraestrutura (EM BREVE)
Parte 16: Energia, petróleo e gás (EM BREVE)
Parte 17: Tranportes, portos e aviação (EM BREVE)
Parte 18: O novo Itamaraty (EM BREVE)

Extra: Museu Nacional #01

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O maior acervo da América Latina pega fogo. Enquanto um prefeito cretino fala imbecilidades condizentes com a outra metade da sua vida dupla e um presidente safado finge que lamenta muito, a gente que é mais normalzinho chora pela perda irreparável desse museu. Mas por que mesmo o Museu Nacional era importante? Falamos com Nathalie Vlcek, especialista em línguas indígenas, e Adriana Ornellas, bibliotecária.

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pequenos machismos, grandes vitórias

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Vamos falar hoje de pequenos machismos terrivelmente entranhados na nossa sociedade, que muitas vezes passam batido e a gente nem nota.

Há algumas semanas um dos meus amigos médicos publicou esse meme no grupo de WhatsApp da faculdade:

Deixei quieto um tempo pra ver se alguém dizia alguma coisa. Alguns riram; a maioria nem respondeu. Depois de um tempinho fui no grupo das meninas mais chegadas e perguntei: quantos homens vocês conhecem que gastam mais que as suas mulheres? Só uma respondeu que isso era maluquice, pois sabe-se que mulheres gastam mais. As outras concordaram que seus maridos gastam mais – e eu me incluo nesse grupo. Não só porque ganho muito menos do que o meu marido, mas porque não tenho paixão por compras idiotas que nem ele (fora alguns muitos Funko Pops, não costumo comprar coisas inúteis e caras).

Como eu vi que ninguém notou o quão machista e idiota é esse meme, deixei o assunto morrer, apesar da vontade ter sido de apontar por que ele é machista. Esse tipo de piada cretina parte do pressuposto que mulheres são fúteis e interesseiras, gastando o dinheiro do marido, o pobre coitado que rala e bota comida na mesa, obrigado a dar dinheiro pra cobrir despesas como manicure, depilação, coleções infinitas de sapatos e bolsas e outros custos tipicamente femininos.

O que eu queria ter dito era isso:

1) Se é verdade que muitas mulheres são sustentadas pelos maridos, também é verdade que:

a) Em muitíssimos casos isso se dá por falta de incentivo a subir na carreira tanto quanto os homens;

b) Em muitíssimos casos isso se dá porque o ambiente no trabalho é tão machista que impede que mulheres avancem na carreira;

c) Frequentemente mulheres abandonam suas carreiras pra ficar com os filhos, pois todo mundo sabe que cuidar de filho é coisa só de mulher;

d) Frequentemente mulheres abandonam suas carreiras pra seguir o marido, que se muda por causa do emprego. Eu conheço uma dentista que parou de trabalhar porque o marido se muda periodicamente a trabalho e pra ela é impossível montar um consultório e formar clientela fixa sabendo que dali a dois anos vai se mudar novamente;

d) MULHERES GANHAM MENOS QUE HOMENS COM CAPACIDADES SEMELHANTES;

e) O mundo espera que as mulheres sejam sustentadas por seus maridos e muitas delas jamais se questionam sobre isso, jamais pensam em ter sua independência financeira. Certamente não somos educadas desde pequenas pra sermos independentes em termos econômicos.

 

2) Mesmo se fosse verdade que toda mulher gasta rios de dinheiro com manicure, cabelos, maquiagem, sapatos, bolsas, depilação, POR QUE DIABOS ISSO ACONTECE? Cês acham mesmo que a gente acorda um dia e decide depilar a virilha assim do nada? Acham mesmo que a gente nasceu amando tirar cutícula? Acham mesmo que desde pequenas sonhamos com peitos de silicone? Ou será, SERÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, que tem um tiquinho de pressão social aí, hmmmmm?

Você que acha que eu estou exagerando, que esse autocuidado é uma coisa típica de mulher, uma coisa natural, uma coisa genética, uma coisa com a qual nascemos: quantas vezes você já criticou o aspecto físico de outra mulher? Quantas vezes você falou ou pensou que feminista não raspa o sovaco? Quantas vezes você não pensou “nossa, que desleixada” quando viu uma mulher com as unhas sem fazer, com as raízes dos cabelos sem pintar, com buço, sem maquiagem, com uma roupa menos arrumada? Bote a mãozinha na consciência e admita pra você mesma que você faz isso todo dia. Eu faço isso todo dia – a diferença é que parei de falar em voz alta, e meu objetivo é parar totalmente de pensar essas coisas. Talvez consiga um dia, mas não garanto; esse condicionamento mental é foda de superar.

Enfim, tudo isso eu queria ter dito, mas não disse porque estava com preguiça de discutir o óbvio.

Hoje em um subgrupo da faculdade (grupo de zap é igual gremlin, se você molhar, ele vira vários outros) alguém postou tuítes do Mr Catra, que não irei reproduzir aqui por preguiça mesmo. Eram vários, um pacote de tuítes, e a maioria tinha conteúdo machista. Bem machista mesmo, escroto, sabe. Eu estava almoçando quando a mensagem chegou; revirei os olhos e voltei ao meu filé de frango na chapa. Qual não foi a minha surpresa quando uma das meninas, anestesista, disse:

“Só achei engraçada a x e a y. As outras são tão machistas que agridem. Desculpa, mas nem consegui achar graça”

Engasguei com a couve de tanta emoção. Logo depois uma das outras meninas, radiologista, deu um reply com o emoji de mulher com a mão levantada, tipo “idem”. Fiz o mesmo. Fui seguida por um dos meninos, proctologista, que disse “também achei. Achei rude e grosseiro”.

MEU

ZEUS

DO

CÉU

Levei a conversa ao grupo das meninas, onde agradeci à anestesista por ter feito a observação, pois estou cansada de ser a única chata do rolé (no Rio é rolé; sorry not sorry). Seguiu-se uma breve mas linda conversa sobre o que é machismo e o que não é, sobre o que é engraçado e o que não é.

A conclusão foi, obviamente, que o humor Trapalhões, que caçoa de mulheres, negros, gordos e gays, tem que ser deixado lá nos anos 80, dos quais jamais deveria ter saído. Uma coisa só é engraçada quando ninguém se ofende. E que o fato de VOCÊ não se ofender com x ou y (eu sou uma que dificilmente me ofendo, por exemplo) não significa que a coisa não é ofensiva pra um outro grupo inteiro de pessoas. Colocar-se no lugar dos outros é um exercício difícil mas que deveríamos fazer sempre. Se alguém tá dizendo que tá sendo ofendido pela piada, pare e pense. É provável que esteja mesmo e que você não tenha pensado sobre isso porque não é o seu calo que está sendo pisado.

NÃO É MIMIMI. NÃO É O MUNDO FICANDO CHATO. É o mundo aprendendo a reclamar quando alguém escroto ri de algo ofensivo pra outras pessoas. Ou seja, é grande a probabilidade que você seja só uma pessoa horrível mesmo que até agora não entendeu que certas piadas são ofensivas e não devem mais ser reproduzidas. 2018, zente. Já deu, né?

Em caso de dúvida, pergunte a alguém que pertence à minoria que está sendo sacaneada. Siga os ensinamentos de Buda: NÃO SEJA CUZÃO.

Um beijo especial pras meninas – Hallynne, Djésmin, Pinho, Sassá – e pro Queiroz. Que mais e mais fichas caiam, todos os dias.

metralhadora de fúria hoje; aguentem.

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Quando minha filha entrou na cozinha hoje pra tomar café, viu minha cara inchada de choro e perguntou se eu tava me sentindo mal. Respondi que sim, porque era um dia muito, muito triste, e expliquei a ela, aos prantos, o que significa perder um museu como o Nacional. Ela me abraçou; tomamos café em silêncio. Ela me perguntou se eu já a tinha levado a esse museu; respondi que não, porque o Rio é uma cidade complicada. Não dá pra simplesmente pensar num lugar e decidir ir – tem a dificuldade de chegar, tem a logística imposta pelo mapa da violência urbana, você precisa se planejar muito, muito bem pra não ser pego no bairro tal em tal hora e não precisar atravessar o túnel tal à noite porque sabe que pode morrer se errar os cálculos. Então nós nunca fomos.

Quando a notícia do incêndio chegou ontem, a Carol tinha acabado de ir pra cama e eu estava sentada na minha poltrona dando a última olhada no Facebook antes de pegar no livro que estou lendo. Alguém postou sobre o incêndio e eu fui procurar no Twitter. Logo depois o Thiago me mandou um áudio totalmente atônito perguntando se eu tinha visto a notícia. Ficamos os dois assim, catatônicos, acompanhando as notícias, até que a raiva chegou e passamos a nos alternar no comando do PistolandoPod, furiosos, vomitando palavrões, consternados e putaços ao mesmo tempo.

Sabemos muito bem que o descaso com a cultura e com a educação não é exclusividade desse governo golpista de merda do caralho. Isso vem desde sempre – a verdade é que o Brasil começou a morrer em 1500, vamos combinar. O que esse vampiro maldito, colocado ali primeiro por um sistema político que impede a governabilidade se não forem feitos pactos com o diabo, e segundo por gente cheia de desonestidade intelectual que sacaneia os petistas pelo sanduíche de mortadela mas foi lá encher o cu de filé mignon pago pela FUCKING FIESP – A FUCKING FIESP, CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOO – fez com o corte de gastos por 20 anos foi oficializar o horror. Um governo – uma série de governos, um povo inteiro – que caga e anda pra educação e pra cultura merece só um meteoro mesmo. Por sinal, um meteorito foi a única peça que resistiu ao incêndio do museu. Acho significativo.

O brasileiro é todo errado. Nossas prioridades são as piores possíveis, nosso senso de coletivo é inexistente, nosso interesse pelo passado como modo de trabalhar o futuro é nulo, nossa capacidade de nos preocuparmos e nos programarmos a longo prazo é nenhuma. E além de tudo isso ainda temos a ameaça da moral e dos bons costumes. A treta do Queer Museum foi uma das tantas que ilustram claramente o retrocesso mental desse país. A simples existência de uma fucking bancada fucking evangélica, uma aberração em qualquer país minimamente normal, é um sinal claro do atraso que nos toma e que ainda é somente a ponta do iceberg. Quem me conhece sabe: se eu fosse funcionária pública e fosse obrigada a REZAR (‘ORAR’ TEU CU) no trabalho, cara, não haveria coquetel molotov que bastasse no bairro pra apaziguar a minha fúria. Só de pensar que no Rio temos o Crivella como prefeito – UM FUCKING PASTOR DA FUCKING IGREJA UNIVERSAL, PORRAAAAAAAAAAAA, O QUE CARALHOS VOCÊS TÊM NA CABEÇA, SEUS MERDAS, PRA ELEGER UM TRASTE DESSES – eu tenho vontade de chorar. A invasão desses energúmenos filhos da puta na nossa política, seu entranhamento na nossa sociedade, são sinais de que ainda tem MUITO espaço pra piorar. Mas o pior nem é a bancada evangélica propriamente dita, pois são só mais um grupo de pessoas escrotas cuidando dos próprios interesses; o problema maior, a meu ver, é a nossa elite de merda, nossa classe média, a mais escrota que já pisou na face da terra, que prefere apoiar esses merdas a votar “em comunista maconheiro”. Você deixou de votar no Freixo pra votar no Crivella? Você é um merda e não tenho a mínima hesitação em afirmar isso. É um merda, ponto. Agora senta aí e chafurda bem chafurdado na merda que você ajudou a piorar.

Observando isso tudo acontecendo, a gente entende que Darcy Ribeiro tinha mesmo razão e tudo isso que tá acontecendo é um projeto. As mentes da nossa classe média foram moldadas desde sempre pra desprezar o que é nosso e louvar o hemisfério norte; os grandíssimos sacos de merda que diziam que as ciclovias do Haddad em São Paulo eram coisa de comunista pagam pau pra Amsterdã; os mesmos grandíssimos sacos de merda que estão usando esse incêndio como justificativa pra pedir a privatização de tudo são os que ficam babando no Louvre, convenientemente ignorando que os maiores museus do mundo são administrados pelos governos. Trata-se de patrimônio nacional, porra, como é possível uma pessoa ser tão filha da puta a ponto de querer vender seus próprios museus??? Suas próprias indústrias de base, sua infraestrutura? Como é possível alguém defender a venda pra estrangeiros de empresas que são necessárias pra você TER ELETRICIDADE EM CASA, BOTAR GASOLINA NO CARRO, TER ÁGUA ENCANADA?

Eu queria saber por que não queimamos Brasília ainda. Eu sei os motivos, mas queria mesmo entender por que não estamos mais revoltados. Também sei os motivos; somos realmente um povo pouco afeito a guerras, e além disso depois de tantos séculos de ignorância voluntariamente incentivada pela elite dominante, não somos capazes de entender a dimensão da importância de um museu, de uma pesquisa científica, de uma filarmônica, de projetos culturais pras periferias. O importante é que a Lei Rouanet não dê dinheiro à obra Os Macaquinhos. O importante é não ter kit gay nas escolas – e não me dêem espaço pra começar a xingar o Bolsomerda e os merdas que nele votam, porque vocês tão carecas de saber minha opinião a respeito. Foda-se que o museu mais importante da América Latina pegou fogo por falta de verba pra ajeitar a fiação elétrica do prédio (ou por alguma causa dolosa que ainda não conhecemos); o importante é fiscalizar o que cada um faz com seus próprios orifícios corporais. Foda-se que perdemos VINTE FUCKING MILHÕES DE ITENS, décadas de pesquisas, espécimes raríssimos, documentos históricos, espécies ainda não identificadas; o importante é fazer operação militar nas favelas, sabendo muito bem que não serve pra nada além de matar negros e pobres – e aqui incluo os militares mortos durante a intervenção e os PMs que morrem no Rio, e no país inteiro, todos os dias. AIN MAS UMA COISA NÃO EXCLUI A OUTRA – nesse caso, exclui sim, porque a hierarquia das nossas prioridades diz muito sobre o que somos e que valores temos. Os valores da classe média brasileira são, não necessariamente nessa ordem: prefiro eu estar na merda mas ter gente mais na merda do que eu a estar não na merda mas na companhia da classe C no avião; farinha pouca, meu pirão primeiro; a família acima de tudo, mas quero poder jogar minha mulher da janela e depois dizer que não me lembro de nada; privatiza tudo, que se der errado eu vou morar em Miami; bicicleta é coisa de comunista, mas ai como eu amo Amsterdã; socialista é tudo filho da puta, mas aqui tá feia a coisa, vou pra Portugal ajudar a criar um novo nicho mercado de apartamentos com dependência de empregada porque não sei viver sem mucama e meu braço cai se eu tiver que limpar a minha própria privada; tem que matar traficante mesmo, mas a culpa não é minha pois eu votei no Aécio. Pra mim, nada resume e ilustra tão perfeitamente a classe média brasileira quanto os adesivos da Dilma de pernas abertas pra colar no carro. Em tempo: se você já usou esse adesivo e não se arrepende, não entende a magnitude disso, você é um merda também.

Sempre que visito museus fora do Brasil fico pensando que se eu morasse lá teria o passe anual e viveria lá dentro. Fiquei pensando nisso hoje, depois do incêndio. Há algumas semanas uma amiga querida, a Ana Cardoso, me chamou pra darmos uma volta no Museu Oscar Niemeyer aqui em Curitiba. Eu não gosto de arte moderna e abomino a arquitetura dele, mas SEMPRE tem alguma mostra interessante pra ver e eu não vou com a frequência com que deveria. Por preguiça mesmo; a Ana vai sempre, mas ela vai a pé, mora pertinho. Eu moro relativamente perto, mas fico com preguiça de ir mais porque nem todo o acervo deles me interessa. Se houvesse um museu de história natural ou de arte nos moldes da National Gallery de Londres aqui eu certamente moraria lá dentro.

Minha mãe sempre encheu a boca pra falar da Quinta da Boa Vista, porque era realmente uma coisa deslumbrante, pra além da importância histórica da estrutura e do museu. Uma área de lazer invejável numa cidade ridiculamente quente, mas com ridiculamente poucas áreas verdes. Eu fui ao museu várias vezes quando pequena, com meu pai, com excursões da escola. Nunca fui depois de adulta. Me arrependo de não ter levado a Carol. Agora nada daquilo existe mais.

Esse texto tá completamente sem sentido, sem fio condutor, sem lógica entre os parágrafos. Não tenho condições emocionais de escrever nada direito. Ontem fui dormir chorando e xingando, minha cabeça tava uma zona, mil coisas ao mesmo tempo, vários textos misturados. Perdoem a minha confusão mental, por favor.

Eu vou trabalhar na biblioteca hoje à tarde. Quarta-feira o ingresso no Niemeyer é grátis; vou pegar a Carol mais cedo na escola e levá-la ao museu.

Leiam a Eliane Brum sobre o assunto. Nunca houve pessoa que escrevesse tão bem sobre qualquer coisa quanto essa mulher.

Por favor, não seja essa pessoa

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O sempre ótimo André Dahmer descrevendo com precisão o nosso tempo atual.

Meu marido tem um amigo absolutamente odioso. Quando nos conhecemos, ao saber que eu era brasileira ele pediu que eu apresentasse uma amiga piranha a ele; sente o nível. Já bateu na ex-mulher, perde dinheiro no jogo naquelas maquininhas de bar, não quer carteira assinada pra poder pagar menos pensão alimentícia à ex-mulher, dá Coca-Cola pro filho desde que ele tava aprendendo a andar, não usa cinto de segurança. Uma pessoa absolutamente odiosa.

Uma vez comentei com meu sogro como eu acho esse cara péssimo. A resposta dele: mas ele é um “gran lavoratore” – ele trabalha duro, não é preguiçoso.

Na minha cabeça só vem aquele desespero – COMO ASSIMMMMMMMMM – porque um cara que bateu na ex-mulher e encontra meios de pagar menos pensão pode trabalhar duro (trabalha), ser lindo e maravilhoso (não é), cheiroso (não é), dirigir super bem (não), ser super inteligente (marromeno), ser culto (não é), não ter chulé (não sei), não roncar (também não sei), cozinhar bem (cozinha), falar várias línguas (não fala), ajudar velhinha a atravessar a rua (não ajuda) – cara, NADA DISSO (NA-DA-DIS-SO) compensa o fato dele ser uma pessoa merda. Absolutamente nada.

Anos atrás o Berlusconi ganhou eleições depois de prometer ao povo que cortaria o IPTU. Ganhou. Cortou o IPTU. Prefeituras se viram do dia pra noite sem receita pra asfaltar ruas, trocar lâmpadas de postes, consertar sinais de trânsito quebrados, pintar as paredes das escolas.

Hoje um amigo médico postou um vídeo do Bolsomerda falando sobre a Revalida e coisa e tal. Uma querida amiga médica, que admitiu estar mal informada em termos de política, disse que pelo menos isso era uma coisa boa, não?

Então. O negócio é o seguinte: votar num fulano que promete coisas somente pra sua classe ESTÁ ERRADO. A gente tem que votar em quem tem propostas pra TODO MUNDO, caralho. Adianta você estar super bem e todo mundo ao seu redor estar na merda?

MERDA RESPINGA

MERDA RESPINGA

MERDA RESPINGA

Quando todo mundo em volta de você está na merda, essa merda em algum momento vai chegar em você. Não tenha a menor dúvida disso. Pode ser sob forma de um trânsito escroto – você não tá apertado no ônibus passando calor e levando encoxada do grandíssimo saco de merda que sabe que pode abusar porque nada vai lhe acontecer por motivos de: patriarcado do caralho, mas por outro lado tá perdendo horas da sua vida parado no trânsito ouvindo música de qualidade duvidosa – dica: se ouvisse podcast já seria menos pior. Pode ser sob forma de uma epidemia qualquer porque o governo não tem mais dinheiro pra distribuir vacinas – você e seus filhos estão vacinados, mas a Carol também tava vacinada e quase certamente teve sarampo quando era pequena. Forma branda, mas né? Desnecessauro. Pode ser sob forma de pivete que vai te assaltar na esquina porque ele não tá na escola, na escola não tem comida, não tem ventilador, os professores faltam, não tem material, então ele não vai. Pode ser sob forma de não poder ir pro churrasco na casa do amigo do outro lado da cidade porque você não vai passar em frente à favela no seu carrão importado sozinha com seu filho na cadeirinha no banco de trás, né? Não esquece de abaixar o pino da porta e de fechar os vidros, por sinal. Pode ser sob forma de sair do carro e receber na cara aquele fedor de uma cidade imunda, ou de torcer o pé na calçada cujas pedras portuguesas nunca foram consertadas, pode ser de inúmeras maneiras. A merda VAI CHEGAR EM VOCÊ, acredita na tia. Detalhe que todos esses argumentos que eu tô dando partem do pressuposto que você não se incomoda com a merda maior, que é saber que tem gente passando fome, morando na rua, pegando 3 conduções pra ir trabalhar, dormindo na frente da escola pra garantir vaga pro filho. Parto do pressuposto que essas coisas não te incomodam tanto quanto ficar preso no trânsito no ar condicionado do seu carro, porque infelizmente a classe média raciocina assim.

Não seja essa pessoa. Não seja a pessoa que cogita a possibilidade de votar em um cara que, além de ser totalmente despreparado e claramente incompetente, está sendo acusado de apologia ao estupro. E sim, foi apologia ao estupro; para e pensa, caralho. Um cara que saudou um torturador. Bicho, não importa o quanto você odeie a Dilma: se você acha que ela mereceu ser torturada, se você acha que um cara que enfiava canos e por ele enfiava ratos na vagina de mulheres merece qualquer coisa além da boa e velha guilhotina, por favor para de falar comigo, porque você é um merda. Se você acha que um cara que disse – porque tem gravado, não é fake news, não é distorção dos fatos – que fez três filhos homens, na quarta fraquejou e saiu menina (FRAQUEJOU E SAIU MENINA, CARALHOS FLAMEJANTES, CÊS NUM TÊM IDEIA DO ÓDIO QUE EU SINTO DESSE MERDA CADA VEZ QUE EU PENSO NOVAMENTE NESSA FALA DELE) merece seu voto, das duas, uma: ou você é conivente, e portanto um merda, ou você não parou pra pensar direito na coisa. Nem vou apelar pro argumento genérico de que todas as mulheres precisam ser respeitadas; vamos pro pessoal, que é a única coisa que costuma resolver com brasileiro: você gostaria que alguém falasse assim da sua mãe, da sua filha, da sua irmã, da sua esposa? Que ela nasceu porque o pai dela fraquejou? Você concorda que ela tem que ganhar menos do que um homem com iguais qualificações porque um dia ela pode engravidar? Você concorda que se ela for feia não merece ser estuprada (o que, do ponto de vista da lógica, significa que se ela for bonita, merece ser estuprada)? Você acha MESMO que essa pessoa merece o seu voto?

Eu não votaria nessa pessoa desprezível e asquerosa, nesse grandíssimo saco de merda, nem que ele fosse o melhor administrador do mundo – coisa que por sinal ele obviamente não é. É um bosta, um incompetente, um imbecil que mama nas tetas do governo há VINTE E FUCKING SETE ANOS sem aprovar uma caceta de um projeto decente, sem realizar nada, sem fazer absolutamente nada de útil, um grandíssimo saco de merda (doravante abreviado como GSM) que botou os filhos pra mamar nas tetas públicas também e tá metido em uma porção de falcatruas de vários tipos que seus eleitores ruminantes insistem em desmerecer.

Quando você vota numa pessoa desprezível do ponto de vista moral, você é conivente com essa falta de moralidade. Você ajuda a dar legitimidade a uma série de comportamentos absolutamente execráveis, porque afinal de contas se o seu líder faz, por que todos não deveriam se sentir no direito de fazer também? Quando você vota num GSM que acha que armar a população é uma boa ideia, o sangue de todo mundo que vai morrer, além do número já absurdo de homicídios totalmente idiotas que já temos, como gente atirando nos outros no trânsito, na boate, no caralho a quatro, vai estar nas suas mãos. Quando você vota num GSM que escolheu um FUCKING GENERAL como vice, um bosta que diz que índios são indolentes e negros são malandros, você tá contribuindo pra aumentar ainda mais o preconceito, o racismo, o sofrimento das minorias. (Depois não reclame se eles se rebelarem. Não confunda a reação do oprimido com a violência do agressor, tá?)

Não seja essa pessoa. Não vote no GSM 1, o Bozo. Não vote no GSM 2, o ladrão de merenda que vai vender o país a preço de banana, o que vai transformar isso aqui numa verdadeira república das bananas estilo América Central. Um dia vocês vão acordar e achar que estão na Nicarágua. Dica: a Nicarágua não é legal.

Não seja a pessoa que a semanas das eleições não tem a menor ideia do que está acontecendo. Informe-se. O momento é crítico e não podemos nos dar ao luxo de estar com a cabeça nas nuvens e desperdiçar nossos votos. Nunca o futuro do país esteve tão em jogo quanto nessas eleições.

Não seja essa pessoa.

Aborto

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Sempre fui a favor da descriminalização do aborto, por princípio, mas a coisa nunca tinha me tocado de perto. Minha filha foi muito muito muito desejada e planejada, e embora eu franza demais a testa pra mulheres bem informadas que em pleno século XXI ainda confiam na tabelinha como método contraceptivo, a realidade é que NÃO IMPORTA se você usou tabelinha (e portanto digamos que deu um certo mole) ou se a camisinha furou ou a se a pílula era de farinha ou se o DIU saiu do lugar e você engravidou sem querer. Precisamos ter o direito ao aborto e ponto final.

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