Textos

Transcrição em Português do episódio 051 EXTRA – Entrevista com Patrizia Dragoni, professora da Universidade de Macerata, Itália

Tempo de leitura: 19 minutos

Para a transcrição original em italiano, clique  aqui.

 

[Leticia] Então, antes de qualquer coisa normalmente a gente começa pedindo ao convidado que se apresente, assim a gente sabe, quer dizer, quem ouve entende por que a gente convidou vocês. O que você faz, onde está, como foi parar lá, qual é a sua especialidade, coisas assim. Uma apresentação breve.

 

[Patrizia] Bom, sim, eu ensino Museologia na Universidade de Macerata, onde trabalho tanto com História dos Museus quanto de gestão de museus.

 

[Leticia] Ah, entendi. O que você estudou, enfim, pra depois trabalhar com isso?

 

[Patrizia] Eu sou formada em Letras, com orientação Histórica-Artística… 

 

[Leticia] Oh!

 

[Patrizia] Depois fiz especialização em didática geral e museal, e é isso, fui parar na universidade antes como “fellow researcher”, depois como pesquisadora, e agora sou professora associada, mas também já trabalhei dentro de museus, porque trabalhei muitos anos em colaboração com a Região Úmbria e ali eu fazia todo o trabalho de back office.

 

[Leticia] Ah, ok, então você conhece bem o trabalho ali das coxias…

 

[Patrizia] Escrevi catálogos, organizei mostras, escrevi guias curtos, folhetos etc.

 

[Leticia] Fantástico. Com a outra convidada a gente falou de um lado totalmente diferente da coisa, então falamos de histórias, de fofocas, histórias no sentido de causos, coisas assim. Mas como essa outra pessoa não trabalha diretamente com isso, é uma pesquisadora mas a formação dela é totalmente diferente, a gente ficou meio curioso com relação à parte de como funciona um museu, sabe. Falamos de furtos de quadros, de coisas assim, de falsificações… E antes de qualquer coisa, já que quem tá nos escutando provavelmente não tem ideia de como funciona um museu: como funciona a coisa? Tipo, quem escolhe quais são as obras que vão ficar expostas, quais ficam, sei lá, no depósito, as obras emprestadas de um museu pra outro, quem decide que exposição fazer, que obras selecionar, como funciona isso?

 

[Patrizia] Bom, vamos falar em geral, porque os museus são diferentes…

 

[Leticia] Sim, sim.

 

[Patrizia] Normalmente quem decide o que vai ficar exposto e o que não vai ficar exposto é o responsável, digamos assim, do museu. Um curador, onde houver um, porque sabe, na Itália as pessoas ligadas às profissões museais são um pouco diferentes, nem sempre existem. Quer dizer, depende se for museu estatal, ou cívico, mas enfim, vamos falar de um museu grande que tem um diretor, um conservador. Nesse caso a escolha é feita por eles, quando é modificado o acervo. Então se decide o que vai ficar exposto e o que pode ficar nos depósitos, em base à história que se deseja contar através do museu. Então é uma escolha crítica muito precisa, porque decidir o que você quer expor e o que você NÃO quer expor certamente muda um pouco a percepção da história das obras que você quer contar.

 

[Leticia] Hmmm. Sim, sim.

 

[Patrizia] E é isso, depois com relação aos empréstimos, é outra coisa, porque aí tem a ver com as mostras. Então uma mostra, que normalmente tem um tema específico, o museu que pede emprestado, dependendo da mostra, já tem um plano das obras que quer exibir, faz um pedido através de formulários específicos pro museu de quem ele quer pegar emprestado, e esse museu pode ou não emprestar, dependendo de vários fatores.

 

[Leticia] Hm.

 

[Patrizia] Ele decide, por exemplo, que vai emprestar porque essa mostra tem uma importância científica que merece o empréstimo.

 

[Leticia] Tá.

 

[Patrizia] Ou porque os curadores são prestigiosos, porque o museu pra onde vai a obra tem muito prestígio, porque assim a obra adquire maior visibilidade, ou então pode decidir o contrário, não emprestar, porque não considera a mostra importante, ou porque a obra é frágil e não pode viajar. Por exemplo, existem inserções em pastilha, um tipo particular de stucco dourado que é muito frágil, e pode se soltar com a movimentação. OU então a obra precisa ser exposta com critérios específicos de umidade, de temperatura, então são necessários parâmetros que devem ser mantidos iguais…

 

[Leticia] Entendi.

 

[Patrizia] …no seu local de partida e no local de chegada, então o museu pode decidir não emprestar, mas essas são todas operações que dependem obviamente dos responsáveis do museu.

 

[Leticia] Entendi. Tô ouvindo um barulho, é o microfone, tá batendo contra alguma coisa, não sei… 

 

[Patrizia] Ah, aqui. Tá ouvindo ainda?

 

[Leticia] Uhum. Ok. E uma coisa, já que a gente falou de furtos, e… rolam muitos, né, e de repente a gente pensa que é coisa de filme, mas na real a gente vê o jornal na televisão e vê que não é uma coisa tão incomum. Acontece, aconteceu esse ano, né, eu tava vendo as notícias na televisão enquanto esperava o avião pra vir pro Bras… pra Itália, e vi a notícia de um quadro que foi roubado, o fulano saiu na porta principal, pela porta principal.. Como é possível que estas coisas ainda aconteçam, quer dizer, o que deu errado quando acontece algo assim? Porque tá, nesse caso específico era alguém que trabalhava no museu, então eu entendo que obviamente quem trabalha ali sabe como fazer, né, se precisar fugir roubando alguma coisa ele faz porque sabe como. Mas pra quem não… Pros casos nos quais não é isso, é outra pessoa de fora que rouba, pega um quadro e leva embora, o que acontece?

 

[Patrizia] É, bom, isso também é difícil, porque normalmente os furtos acontecem quando o museu tá fechado. É um pouco mais fácil nesses casos, porque mesmo se os sistemas de alarme estiverem ativados, frequentemente os ladrões conhecem os alarmes e conseguem entrar por vias de acesso diferentes, por exemplo, a entrada do pessoal da limpeza…

 

[Leticia] Ok.

 

[Patrizia] Entradas de serviço… Frequentemente também acontece, por assim dizer, um apoio de alguém que trabalha dentro dos museus, que de repente deu informações e tal.

 

[Leticia] E essas coisas, essas obras roubadas, vão pra onde? Quer dizer, são furtos feitos a pedido de alguém, as obras têm um destino, uma destinação certa quando são roubadas, sei lá, onde vão parar normalmente essas obras?

 

[Patrizia] No caso do museu, frequentemente podem ser furtos a pedidos, porque as obras são tão famosas, tão conhecidas e catalogadas que dificilmente podem ser revendidas no mercado de antiguidades.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Normalmente os antiquários precisam ter, pelo menos na Itália, precisam ter listas das obras roubadas, que são publicadas todo ano pelos Carabinieri, pra Tutela dos Bens Culturais. Tem um núcleo especial dos Carabinieri que toma conta da tutela dos bens culturais, um núcleo que nasceu em 1969, é um dos mais antigos que existem sob esse aspecto, e que publica todo ano a lista das obras roubadas. Todos os antiquários precisam ter essa lista, porque se eles vierem a vender uma dessas obras, obviamente são passíveis de sanções penais.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Então quando as obras são roubadas, especialmente obras que se encontram em museus, digamos que tem um pedido por trás, então normalmente são furtos encomendados. Seria difícil revender, sei lá, um Rafael…

 

[Leticia] Sim. Então seria um colecionador, alguém que realmente tem esse sonho de possuir uma obra assim, enfim.

 

[Patrizia] Sim, normalmente, mas também acontece da pessoa desequilibrada, né, acontece, mas é bem difícil, isso acontece mais no caso de destruição, de danos…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …feitos às obras de arte, pode ser que apareça alguém que é meio perturbado, aí, como já aconteceu algumas vezes…

 

[Leticia] Ai, sim, sim…

 

[Patrizia] … esfaqueiam a obra ou atacam de alguma forma, mas no caso do roubo, normalmente é por esses motivos. Se são obras importantes, se são obras pequenas, tipo pequenas paisagens, essas podem ser mais interessantes pro mercado, porque é mais difícil encontrar elas depois, ou então… Mas são coisas que acontecem mais frequentemente nas igrejas.

 

[Leticia] Aaaaah ok.

 

[Patrizia] Nas igrejas pode acontecer que haja esses furtos, porque as igrejas obviamente são abertas ao público…

 

[Leticia] Aaaah sim, sim, e também todo o esquema de segurança que tem num museu normalmente não tem numa igreja, né, a não ser que seja uma igreja famosa e tal…

 

[Patrizia] Exato, a obra pode ser roubada, pode ser cortada…

 

[Leticia] Ah!

 

[Patrizia] …em pedaços, porque depois os falsários usam esses pedaços pra inserir em outras telas.

 

[Leticia] Oh!

 

[Patrizia] E a partir da obra grande eles criam outras obras diferentes. Aí você não encontra mais nada do original, porque é muito difícil, a obra já foi tão modificada que fica muito difícil encontrar novamente.

 

[Leticia] Caramba, não sabia disso. Que bosta! 

 

[Patrizia] Pois é, normalmente fazem assim pra não serem descobertos, e frequentemente usam também telas que são antigas, pra que a prova do carbono 14 diga que elas são antigas, mesmo com instrumentos técnicos…

 

[Leticia] Caraca, nunca tinha ouvido falar disso!

 

[Patrizia] Os falsificadores são talentosos, viu…

 

[Leticia] Caramba! E quando, entrando no lance das falsificações, já que você entrou no assunto, como, como se faz, porque a gente viu, eu tinha coloc… Tinha botado uns links também na… Na nossa pauta, no script que a gente usa pra fazer a gravação principal, a gente tinha botado algumas notícias de quadros que estão em um museu na França, não me lembro qual, que descobriu que tipo a metade das suas obras eram falsas. E como, como se faz algo assim? Porque eu entendo, e a outra convidada disse a mesma coisa, que são muitos especialistas envolvidos, é uma coisa meio subjetiva, porque não existe uma maneira de provar, especialmente se o falsificador consegue inserir um pedaço de obra antiga pra conseguir enganar até o carbono 14. Mas quem decide o que é um falso ou não é, com que frequência se fazem essas análises, porque de repente é um quadro que tá ali há muitos anos e ninguém teve a ideia de ir lá ver se é daquele pintor mesmo, e de repente alguém vai lá, olha e fala ‘olha só, esse aqui não é dele’, ‘nem esse’, ‘a metade dos seus quadros não foram pintados pelo pintor que vocês falaram’. Como acontece isso tudo?

 

[Patrizia] Como acontece, bom, normalmente pode acontecer quando há uma exposição…

 

[Leticia] Ih, tô ouvindo o barulho de novo.

 

[Patrizia] Ah, pode ser eu mexendo o dedo, viu…

 

[Leticia] Pode ser.

 

[Patrizia] Pode ser quando há uma exposição, quando as obras de arte são submetidas a exames. Talvez por precisar fazer alguma restauração, porque precisa fazer alguma ação em particular, e aí pode acontecer de descobrirem que a tinta ou algum elemento da tinta não é do mesmo período da tela.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Ou então não é… Não é… Tipo… Ligado também às restaurações, ou seja, foram usados materiais que naquela época não existiam.

 

[Leticia] Ah, entendi. Caraca…

 

[Patrizia] E isso pode ser um motivo, ou então se faz alguma comparação com outras obras, mas determinar o que é falso realmente não é fácil.

 

[Leticia] Imagino! Principalmente se eles chegam a essa sofisticação, a esse nível de esforço, enfim, pra fazer com que o quadro passe por verdadeiro, não deve ser nada fácil…

 

[Patrizia] Existem falsificadores na história que venderam muitas obras a colecionadores e depois essas obras foram parar em museus, exatamente porque eles eram artesãos, eram artistas mesmo, e sabiam fazer obras com as mesmas técnicas, com as mesmas modalidades, realmente não é fácil. E aí a essa altura do campeonato essas obras também já viraram obras antigas que fazem parte dos museus, né?

 

[Leticia] Eu acho que sim, né, porque tem uma história interessante por trás…

 

[Patrizia] Elas têm uma história por trás…

 

[Leticia] Pois é… E quando é o contrário que acontece, tipo, encontram um quadro que ninguém esperava, como aconteceu essa semana, saiu dias atrás a notícia de um, o que era, um Magritte? Não lembro mais. Um quadro que foi encontrado durante uma faxina, sei lá, era um…

 

[Patrizia] Então, eu lembro que saiu há pouco tempo a notícia de um Cimabue que foi encontrado na cozinha…

 

[Leticia] Não, essa eu não… Essa eu não tinha visto, tô mais chocada ainda! (risos) Oooh um Cimabue!!!

 

[Patrizia] Na França, na casa de um senhor, na roça, foi encontrado esse pequeno, essa pequena pintura de Cimabue, que ele guardava na cozinha, e depois foi avaliada em tipo 24 milhões de euros, uma coisa inacreditável…

 

[Leticia] E quando acontece algo assim, como se faz? Tipo, essa, esse quadro, essa obra, é desse senhor, ou tem, eu imagino que mude de país pra país, de repente tem uma lei que obriga quem encontra certas obras a ceder pros museus ou pro governo ou sei lá, não sei. Como funciona?

 

[Patrizia] Bom, depende, nesse caso também depende do país. Cada país tem regras diferentes. Na Itália, por exemplo, pode acontecer muito frequentemente com achados arqueológicos…

 

[Leticia] Ah sim.

 

[Patrizia] Porque de repente, sei lá, um camponês vai arar o seu terreno e do nada acha uma necrópolis. Pode acontecer. Aí se chama “encontro fortuito”, ele deve chamar a superintendência, ou seja, o órgão de tutela, e aqueles objetos, como tudo o que é encontrado na Itália embaixo da terra pertence ao Estado…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …aqueles objetos devem passar pra propriedade do Estado. Mas o Estado reembolsa em parte…

 

[Leticia] Ah ok.

 

[Patrizia] o valor do objeto ao proprietário. Se uma pessoa dá a sorte de encontrar, sei lá, um Cimabue em casa, ela não é obrigada a comunicar nada. Vai poder escolher entre ficar com ele ou vender.

 

[Leticia] Aaaah entendi…

 

[Patrizia] Mas na hora em que você tenta vender, aí o Estado pode intervir, pedindo o direito de prelação. Isso também aconteceu com o Cimabue da França, porque a França decidiu que o Cimabue não vai mais sair de lá, vai virar patrimônio nacional, então o Estado vai comprar a um preço mais baixo, obviamente. Mas o senhorzinho que encontrou o quadro tá com a aposentadoria mais que garantida.

 

[Leticia] Caramba! Eu sempre me pergunto que histórias têm essas coisas, sabe, como o quadro foi parar ali, que percurso estranho ele deve ter feito pra acabar na cozinha de um camponês que não sabe o que era e de repente até ia jogar fora se tivesse que se mudar, sei lá…

 

[Patrizia] Aí é realmente muito difícil imaginar como aquele Cimabue chegou ali. Dificilmente ele tá ali desde o século XIV.

 

[Risos]

 

[Patrizia] Esse… No caso de obras assim pequenas, que com certeza fazem parte de uma obra maior, as possibilidades são numerosíssimas, muitas obras também foram confiscadas durante a Guerra…

 

[Leticia] Aaaaah sim, putz, também tem isso…

 

[Patrizia] Também tem isso, e não tem como saber se de repente um soldado… Pegou partes da pintura naquela confusão absoluta que rolava naquele momento, e botou na mochila…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …e levou embora pra outro lugar. Não sei. Esse é um trabalho que tá sendo feito agora, principalmente com relação às coleções hebraicas…

 

[Leticia] Ah, interessante, devem aparecer umas histórias fantásticas, não?

 

[Patrizia] Pois é, porque muitas famílias denunciaram ao longo dos anos a perda ou o furto das suas próprias coleções, que foram ou confiscadas por causa das leis raciais, ou perdidas porque as famílias precisaram abandonar suas casas e tudo o que tinha dentro sumiu, e agora estão tentando trabalhar pra recuperar essas, essas obras. Não só as coleções alemãs.

 

[Leticia] Ah, saquei.

 

[Patrizia] Nas americanas e nas europeias também, tem advogados que estão trabalhando com essas famílias pra recuperar os objetos, se for descoberto que os bens deles foram parar em museus.

 

[Leticia] Caramba… Imagina quanto tempo já passou e quantas coisas ainda precisamos entender, descobrir… Cacete, que trabalho infinito que vai dar…

 

[Patrizia] Porque muitas vezes essas famílias no início não falaram nada. Precisaram elaborar muito o trauma…

 

[Leticia] Compreensivelmente.

 

[Patrizia] Então são coisas que quem falou foram os netos, sabe. 

 

[Leticia] Saquei.

 

[Patrizia] …mais do que eles mesmos. Em muitos casos atrás das pinturas tinham etiquetas ou carimbos, e graças a eles podem ser recuperadas. Mas não é fácil, sabe, recentemente foram feitas exposições de obras confiscadas, principalmente em países da área germânica…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] E se está trabalhando nesse momento nesse temas..

 

[Leticia] Hm. Essa dificuldade de rastrear a origem das obras, eu lembro… Eu fiz dois anos de Comunicação Internacional aqui em Perugia muitos anos atrás, antes que… Antes da minha filha nascer, e eu fiz História da Máfia, que era uma das matérias. E a professora dizia que essa dificuldade de determinar a origem dos objetos e das obras torna muito apetitoso como forma de investimento, sabe, essa coisa da arte. Porque é muito fácil, você, sei lá, tem, compra um móvel antigo, pra lavar seu dinheiro ganho ilegalmente, e compra esse móvel antigo, muito, de muito valor, qualquer um pode chegar e dizer ‘olha, herdei esse móvel do meu bisavô’, porque ninguém nunca vai conseguir provar o contrário, né.

 

[Patrizia] Isso.

 

[Leticia] Então tem todo esse lance da dificuldade e tal que no fim das contas torna possível esse tipo de coisa. Isso ainda acontece muito? Quer dizer, a máfia, e eu tô falando da máfia porque pensei nisso agora, mas ainda se faz esse tipo de investimento porque é fácil de, tipo, enganar o governo e tudo o mais?

 

[Patrizia] A máfia… Sim, sim e não, eu não tô muito bem informada do lance da máfia, não, digamos que o furto mais famoso ligado à máfia é o caso do Caravaggio de Palermo.

 

[Leticia] Ai, sim, sim! A gente botou o link pra essa notícia na… Na pauta, porque é uma história sensacional.

 

[Patrizia] Essa é uma história sensacional, mas digamos que aqui a gente sabe que a máfia estava envolvida. Em termos de aquisição de bens, sim, é provável que eles também sejam considerados interessantes, e quanto mais desaparece, digamos, o local de origem, mais valor eles têm. Por exemplo, agora tão sendo muito procurados no mercado tudo o que possa vir de Palmira.

 

[Leticia] Aaaaaaaah sim, faz sentido…

 

[Patrizia] Porque muito provavelmente, parece que sim, tá, mas nada certo, mas por exemplo, parece que todos os alto-relevos dos templos que depois foram destruídos não foram destruídos junto com os templos, mas foram tirados pra revender…

 

[Leticia] O quê!

 

[Patrizia] …pra financiar a compra de armas.

 

[Leticia] WHAT!!! 

 

[Patrizia] Então o templo teria sido destruído pra encobrir isso.

 

[Leticia] Que plot twist!

 

[Patrizia] Exato! Pra não deixar ver os buracos que ficaram, o templo foi destruído. Parece que mais por isso do que por vontade de destruir o patrimônio.

 

[Leticia] Cara…

 

[Patrizia] O que na verdade é uma coisa que atinge muito a gente no Ocidente…

 

[Leticia] Caramba, sim, é doloridíssimo de ver. Tô ouvindo o barulho de novo, Patrizia.

 

[Patrizia] Com certeza sou eu com o dedo segurando o computador.

 

[Leticia] Sim, é doloridíssimo de ver, né, como os Budas no Afeganistão, que são coisas que dão um aperto no coração.

 

[Patrizia] Mas os Budas foram destruídos por outros motivos, né. Aqui parece que pra encobrir esse tráfico. Esse tráfico ilegal, que é uma das principais fontes de financiamento do terrorismo.

 

[Leticia] Olha só, não sabia disso… Caramba, tô aprendendo um monte de coisas, essas são as entrevistas que eu amo, aprendo um monte de coisas que eu não conhecia. Vou fazer duas perguntas no nome do meu colega e depois te libero. Ele tinha falado da morte do Roger Scruton, não sei como se pronuncia esse sobrenome, na verdade. Que era um estudioso de estética…

 

[Patrizia] Filósofo também.

 

[Leticia] Sim, filósofo, apreciava a estética mais clássica…

 

[Patrizia] Um conservador…

 

[Leticia] Sim, um conservador, enfim, um chatonildo que achava feio tudo o que não era clássico, né. Como são esses, esses padrões de beleza ao longo do tempo, essas mudanças? É uma coisa espontânea, orgânica, ou tem uma determinação das camadas mais… Das elites, ou dos especialistas… Como funciona?

 

[Patrizia] A crítica certamente condicionou o gosto na arte, em alguns momentos certos artistas foram apreciados e outros não. Vou usar como exemplo o próprio Caravaggio. No século XVIII ele já não era mais considerado um artista importante, não era um artista apreciado, porque os padrões estéticos que eram impostos eram os do neoclassicismo…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Então uma pintura que se inspira no ideal estético clássico naturalmente não pode apreciar um naturalismo tão real quanto o das obras do Caravaggio. Então o Caravaggio começou a não ser tão apreciado, tanto que mesmo quando foram feitas as campanhas napoleônicas confiscando obras de arte, que são consideradas um dos furtos mais famosos, embora furto seja a palavra errada…

 

[Leticia] Sim, hehehe…

 

[Patrizia] …campanhas feitas na Itália, o Caravaggio não era tãaao levado em consideração. As obras de arte que eram confiscadas eram as do Renascimento e do período Clássico.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Então Guido Reni, Carracci, sei lá, esses artistas, e não o naturalismo, era o que agradava. O fenômeno da redescoberta começou no século XX, principalmente com Roberto Longhi, depois uma mostra em 1951, quando o Caravaggio foi redescoberto e se tornou o que é hoje.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Porque senão ele não era considerado, enfim, não agradava, são padrões de… de gosto. Imagina quando foram feitos… Quando começou a aventura da arte dos impressionistas, nos Salões de 1863, por exemplo, O Almoço na Relva foi reprovado.

 

[Leticia] Imagino, uma ruptura assim…

 

[Patrizia] Foi redescoberto depois. Há uma crítica, digamos, uma corrente crítica, que aprecia um tipo de arte em vez de outra, e assim determina a sorte ou não. Pensa no ideal estético clássico que Hitler tinha.

 

[Leticia] Sim.

 

[Patrizia] E depois na Mostra de Arte Degenerada de 1937. Que ele opôs à Mostra de Arte Alemã…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …mostrando como a arte alemã que se inspirava nos ideais clássicos era aquela que devia ser levada em consideração, enquanto que a outra deveria ser destruída, porque os pintores usavam um padrão estético, um modo de pintar…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …que não era apreciado por aquele tipo de estética que ele queria promover, isso sem contar o fato de que também tinha todo o lance racial e tudo o que era ligado ao povo judeu, mas ele não gostava mesmo daqueles tipos de obras, elas não eram incluídas no ideal que queria refletir o classicismo, o estilo grego, a pureza, a perfeição das formas, que era propagandeado naquele momento.

 

[Leticia] Entendi.

 

[Patrizia] Então em nome desse ideal clássico é possível fazer abominações, enfim.

 

[Leticia] Sim, putz, sim, sim. E isso tá de acordo com o que a gente ouviu entre ontem e hoje aqui no Brasil, quer dizer, lá no Brasil, não sei se você viu, eu sei que apareceu, começou a aparecer nos jornais estrangeiros, do secretário da cultura que fez um, um discurso absolutamente abominável, falando exatamente, usando frases inteiras de Goebbels, falando exatamente…

 

[Patrizia] Não acredito…

 

[Leticia] Sim, uma coisa inacreditável, ‘arte pura, verdadeira, ou então não haverá nada’, coisas desse tipo, com uma estética muito nazista, uma cruz em cima da mesa e Wagner tocando no fundo, então ele defende a brasileira como se ela, como se a cultura brasileira fosse uma coisa europeia, o que obviamente é uma idiotice, e desprezando toda, tudo o que os africanos e povos originários trouxeram ao Brasil, e ao mesmo tempo ele se declara muito patriota, muito nacionalista, mas bota esse Wagner no fundo, que não tem porra nenhuma a ver. Então é toda uma imbecilidade que por acaso tem tudo a ver com essa pergunta que o meu colega tinha feito dias atrás. No fim das contas, tamos aqui.

 

[Patrizia] Assustador, porque tudo o que fala do belo, ou seja, o belo como ideal, como estética,

 

[Leticia] Sim.

 

[Patrizia] Aquilo que não é belo se torna feio, e o que é feio pode ser destruído, e isso é uma coisa realmente horrível!

 

[Leticia] Sim.

 

[Patrizia] Enquanto que aqui, por exemplo, estamos tentando ler com outros olhos, nos esforçar pra ler com outros olhos um tipo de cultura que não é a nossa, exatamente pra encontrar a função natural de certos objetos, eu tô pensando no que você disse sobre a arte africana, ou seja, obras que vieram de museus dedicados à arte colonial, ou à arte africana, estamos tentando restituir esse valor cultural, simbólico, religioso, dos objetos, pra além da estética…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Me parece que o discurso do presidente do Brasil é o oposto…

 

[Leticia] Nem me fala, só tem idiota no governo dele, começando por ele mesmo, que é um imbecil. O cara já foi mandado embora, acho, depois de uma manifestação da embaixada alemã em Brasília porque né, cê não pode deixar uma coisa assim passar, né? Houve houve manifestações várias contra essa coisa inacreditável e o cara foi mandado embora, mas certamente vai entrar alguém pior ainda no lugar dele, porque é isso que vem acontecendo nesse último ano, infelizmente.

 

[Patrizia] Poxa, espero que não!

 

[Leticia] Um negócio pavoroso. Mas ainda falando de governos péssimos, vou fazer a última pergunta, do meu colega também: vamos falar desse desconforto que a arte causa. Por que tem um tipo de arte que incomoda tanto certos governos, ou certas correntes de pensamento político? Por que existe esse… Esse ódio aparentemente gratuito, embora a gente saiba que gratuito não é, mas por que esse ódio contra certos modos de fazer arte, esse considerar arte o que você gosta e não-arte o que você não gosta? E existe nos museus que você conhece, ou com os quais você tem mais contato, onde você conhece gente que trabalha, sei lá, existe alguma obra que você goste que quando foi feita ou exibida causou polêmica e virou O assunto?

 

[Patrizia] Sim, mas depende da polêmica, vou te dar um exemplo famoso da Itália. Quando a diretora da Galeria Nacional de Arte Moderna de Roma, a Palma Bucarelli, comprou obras de Burri…

 

[Leticia] Ah sim…

 

[Patrizia] Foram feitas críticas inclusive pelo próprio governo, porque foram usados fundos públicos…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …naquele caso, porque era um museu nacional, pra adquirir obras de arte que não eram bonitas. Que não eram consideradas bonitas. Ou imagina o caso do Manzoni, o famoso… a lata com merda de artista…

 

[Leticia] Sim, sim!

 

[Patrizia] Porque continha excrementos, e por sinal nem se sabia se realmente…

 

[Leticia] Exato, exatamente, o mistério faz parte da coisa…

 

[Patrizia] Naquele caso sim, em termos de obras politicamente, digamos, perigosas, eu não tenho grandes exemplos na Itália. Mas artistas podem ser perigosos.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Então tem o exemplo do Ai Wei Wei na China…

 

[Leticia] Sim, sim… Que a gente adora, vimos uma mostra em Belo Horizonte ano passado… Teve um evento de podcasts nesse outro estado… Eu moro em um estado do sul do Brasil, embora eu seja do Rio, e o meu colega moro em outro estado também no sul, e fomos a esse outro estado pra um evento de podcasts. Por sorte pegamos o último dia da mostra do Ai Wei Wei em um centro cultural que por sorte ficava pertinho do local onde rolava o evento, então a gente viu com pressa, mas viu. E são coisas fantásticas, a gente entende o motivo de toda a polêmica e por que ele foi preso, e tal.

 

[Patrizia] Exato. Exato. Ele como ativista dos direitos humanos, obviamente foi censurado, foi preso, sabe, por muitos anos ele ficou sem passaporte…

 

[Leticia] Sim.

 

[Patrizia] E aí nesse caso é mais ligado à figura dele que… que a outras coisas. Mas por exemplo existem leituras de histórias que são definidas controversas dentro dos museus, que por exemplo nos Estados Unidos estão dando muito o que falar.

 

[Leticia] Hm.

 

[Patrizia] Com relação, por exemplo, a alguns museus que expõem retratos de pessoas ligadas ao período no qual ainda havia escravidão.

 

[Leticia] Ah tá.

 

[Patrizia] Então ali eles dizem, bom, foi feito o retrato dessa mulher elegante, com essas roupas e tal, mas ela só podia viver assim porque tinha escravos…

 

[Leticia] Só porque tinha…

 

[Patrizia] Então tem legendas que tentam explicar esses aspectos. E o mesmo também aconteceu na Holanda, com exposições onde de repente junto de vasos preciosos também colocam correntes…

 

[Leticia] Aaaah ok…

 

[Patrizia] …usadas pelos escravos, dentro da mesma vitrine, pra mostrar que sim, tinha alguém com dinheiro pra comprar aquele vaso, mas esse alguém era servido por escravos.

 

[Leticia] Entendi.

 

[Patrizia] Ou nos Estados Unidos, agora existem objetos que se referem, por exemplo, à Ku Klux Klan, e de repente dentro do berço do bebê, branco, na mostra, colocam a clássica túnica da KKK, pra mostrar como a população, nesse caso a afro-americana, sofreu nos anos 60 esse tipo de afronta.  

 

[Leticia] Bom, aí você entra num lance de ética bem complexo, né? Porque cê faz o quê, finge que essas coisas nunca aconteceram, ou cancela completamente um artista porque ele participou disso ou daquilo, enfim, não é, não são escolhas simples, não, eu entendo…

 

[Patrizia] Não, não são escolhas fáceis, até porque em alguns casos a gente sabe, muitos artistas na época foram acusados… Gauguin, disseram dele que era pedófilo…

 

[Leticia] Uhum. Sim, sim.

 

[Patrizia] Então, você não leva mais a arte dele em consideração porque TALVEZ ele fosse pedófilo? E nesse caso nem temos provas… É realmente muito difícil falar desses temas, mas são assuntos dos quais a gente agora precisa falar, porque os museus tão cada vez mais envolvidos inclusive socialmente, e não só sob o perfil estético, mas são lugares que devem iniciar discussões. Devem levar a comunidade a refletir sobre os problemas contemporâneos, a se interrogar e também a fazer com que a sua própria voz seja ouvida.

 

[Leticia] Sim, sim, é verdade, são discussões que precisam ser feitas, principalmente nos tempos atuais; talvez a gente não tenha tido essas conversas antes, e agora tá tudo, tá tudo caindo nas nossas cabeças e estamos na merda. Talvez se esses debates tivessem sido um pouco mais frequentes no passado a gente não estaria na nossa situação atual, mas é impossível prever, então a gente faz o que pode.

 

[Patrizia] Agora no Hermitage em Amsterdã tem uma exposição linda sobre retratos do século de ouro da Holanda. E tem todos esses personagens, naturalmente usando roupas de gente de uma certa classe social, e são todos brancos. Então foi feita uma ação de ativismo pra redescobrir também as pessoas de cor que naquele período tinham dinheiro pra mandar fazer retratos. Mas que não eram retratadas. Então pegaram pessoas negras que posaram usando aquelas roupas, e foram pintados pra recriar as histórias dessas pessoas que foram…

 

[Leticia] Fantástico!

 

[Patrizia] E é muito interessante, porque começamos a ver que talvez não fosse tudo assim como a gente imaginava ou como contaram pra gente, a história não é branca ou preta, tem muitos outros tons intermediários que é preciso que a gente conheça porque as nossas sociedades tão cada vez mais, e eu tô falando da Europa, multiétnicas, precisamos conviver nelas e não pensar que seja um fenômeno atual, porque ele sempre ocorreu.

 

[Leticia] Sim, o ser humano nunca parou quieto, né?

 

[Patrizia] Exatamente, precisamos aprender que somos filhos dessas migrações, e então é necessário olhar pra elas com olhos mais abertos.

 

[Leticia] Ótimo.

 

[Patrizia] Isso pode ajudar a incluir esses novos cidadãos na vida cultural, serve pra gente também, enfim.

 

[Leticia] Sim sim. Perfeito. Ah, tô feliz, aprendi um monte de coisas. Agora vou transcrever tudo, traduzir tudo… Escuta, MUITO obrigada, eu sei que foi uma zona..

 

[Patrizia] Imagina!

 

[Leticia] É tudo culpa da Tim. Vamos tomar um café um dia desses?

 

[Patrizia] Claro!

 

[Leticia] Eu vou ficar na Úmbria, aqui na Itália, até 5 de fevereiro, depois volto pro Brasil e só apareço aqui de novo em julho…

 

Transcrição em italiano do episódio 051 EXTRA – Entrevista com Patrizia Dragoni, professora da Università di Macerata, Itália

Tempo de leitura: 20 minutos

Para a transcrição em Português clique aqui

 

[Leticia] Allora, innanzitutto noi di solito cominciamo chiedendo agli invitati di presentarsi, così sappiamo, insomma, chi ci ascolta capisce per quale motivo vi abbiamo invitati, insomma. Che cosa fai, dove ti trovi, come ci sei arrivata, qual’è la tua specialità, cose di questo tipo. Una presentazione veloce.

 

[Patrizia] Sì, niente, io insegno Museologia all’Università di Macerata, dove mi occupo appunto sia di Storia dei Musei che di gestione dei musei.

 

[Leticia] Ah, ho capito. Che cosa hai studiato, insomma, per arrivare lì a lavorare con questo?

 

[Patrizia] Allora, io sono laureata in Lettere con indirizzo Storico-Artistico…

 

[Leticia] Oh!

 

[Patrizia] Poi ho conseguito una specializzazione in didattica generale e museale, poi niente, praticamente mi sono trovata così all’università prima come assegnista di ricerca, poi come ricercatore, adesso sono professore associato, ma mi sono anche occupata di musei internamente, perché ho collaborato molti anni con la Regione dell’Umbria e quindi mi sono occupata proprio di tutto il lavoro di back office.

 

[Leticia] Ah, ok, quindi i dietro le quinte, insomma, lo conosci bene…

 

[Patrizia] Ho scritto cataloghi, organizzato mostre, scritto guide brevi, dépliant ecc.

 

[Leticia] Fantastico. Noi con l’altra invitata abbiamo parlato di tutta un’altra parte della cosa, quindi abbiamo parlato di storie, di gossip, di storie nel senso di aneddoti, cose di questo tipo. Però siccome quest’altra persona non lavora direttamente con questo, è una ricercatrice ma la formazione sua è tutta un’altra cosa, siamo rimasti un po’ curiosi per quanto riguarda la parte di come appunto funziona un museo, no. Abbiamo parlato di furti, di quadri, di cose di questo tipo, di falsi… E prima di tutto, visto che chi ci ascolta probabilmente non ha idea di come funzioni un museo: come funziona la cosa? Nel senso, chi è che sceglie quali sono le opere che vanno in esibizione, quali rimangono, insomma, in un caveau, i prestiti fra musei come vengono fatti, chi decide quale mostra fare, quali opere selezionare, come funziona questa cosa?

 

[Patrizia] Allora, parliamo in generale, un po’, perché poi i musei sono diversi…

 

[Leticia] Sì sì.

 

[Patrizia] Generalmente chi decide che cosa viene esposto e che cosa non viene esposto è il responsabile, diciamo così, del museo. Un curatore, laddove c’è, perché sai, in Italia le figure legate alla professione museale sono un po’ particolari, non sempre ci sono. Cioè, dipende dai musei statali, musei civici, però, parliamo di un grande museo dove diciamo che c’è un direttore, un conservatore. In quel caso la scelta viene fatta da loro, quando viene modificato un allestimento. Quindi si decide che cosa deve essere esposto e che cosa invece si può mantenere all’interno dei depositi sulla base della storia che si vuole raccontare attraverso il museo. Quindi è una scelta critica molto precisa, perché poi decidere che cosa vuoi esporre invece che cosa vuoi non esporre sicuramente cambia un po’ la percezione del racconto delle opere che tu vuoi dare.

 

[Leticia] Hmmm. Sì sì. 

 

[Patrizia] E niente, poi per quanto riguarda i prestiti, quelli sono diversi, perché riguarda le esposizioni. Quindi una mostra che generalmente ha un tema specifico, il museo che richiede il prestito a seconda della mostra ha fatto un suo piano di opere che vuole portare in mostra, fa una richiesta con delle apposite schede al museo al quale vuole richiedere l’opera, che poi può o meno prestargliela, a seconda di varie componenti. 

 

[Leticia] Hm.

 

[Patrizia] Cioè, decide, per esempio, che la presta perché quella mostra ha una importanza scientifica che merita il prestito della mostra.

 

[Leticia] Ok.

 

[Patrizia] Eh, perché i curatori sono prestigiosi, perché il museo in cui l’opera andrà è molto prestigioso, perché in quel modo l’opera acquista una visibilità maggiore, oppure può decidere al contrario di non prestarla perché non ritiene importante la mostra o perché l’opera è fragile e non può viaggiare. Per esempio, ci sono degli inserti in pastiglia, che è una tipologia particolare di stucco dorato che è molto fragile, e quindi potrebbe staccarsi con la movimentazione. Oppure l’opera ha bisogno di essere esposta con dei criteri particolari per quanto riguarda l’umidità, per quanto riguarda la temperatura, quindi c’è bisogno di parametri che devono essere mantenuti uguali…

 

[Leticia] Ho capito.

 

[Patrizia] …nel suo luogo di partenza e nel luogo di arrivo, allora può decidere di non prestarla, ma queste sono tutte operazioni che dipendono ovviamente dai responsabili del museo.

 

[Leticia] Ho capito. Sento un rumore, eh, cioè, il microfono, sta sbattendo contro qualcosa, non lo so…

 

[Patrizia] Ecco qua. Lo senti ancora?

 

[Leticia] Sì. Sì sì. Ok. Poi una cosa, no, che visto che abbiamo parlato dei furti, e ce ne… ce ne stanno svariati, no, e magari uno pensa che è una roba da film, e invece guardiamo in televisione e vediamo che non è una cosa così, eh, incomune; capita, è capitato quest’anno, no, guardavo la notizia in televisione mentre aspettavo l’aereo per venire in Bras… per venire in Italia, e ho visto appunto una notizia di questo quadro che è stato rubato, questo tizio è uscito proprio sulla porta principale, dalla porta principale… Com’è possibile che queste cose ancora succedano, cioè, cosa c’è che non va quando succede una cosa del genere? Magari va bene, questa storia in particolare era qualcuno che lavorava dentro il museo, e quindi mi rendo conto che ovviamente uno che ci lavora sa come fare, no, se deve scappare rubando qualcosa lo fa perché lo sa. Ma per chi non… Per i casi dove non è quello, è qualcun altro da fuori, e ha preso un quadro e l’ha portato via, che succede?

 

[Patrizia] Eh, beh, anche questo è difficile, perché generalmente i furti avvengono quando il museo è chiuso. E’ un po’ più facile in quel caso, perché anche se i sistemi d’allarme sono inseriti, molto spesso diciamo che i ladri conoscono i sistemi d’allarme e riescono a penetrare attraverso particolari vie d’accesso, che possono essere per esempio l’ingresso per il personale delle pulizie…

 

[Leticia] Ok.

 

[Patrizia] Ingressi di servizio… C’è spesso anche in alcuni casi, come dire, un po’ il supporto di qualcuno che lavora all’interno dei musei, che magari può avere fornito delle informazioni.

 

[Leticia] E queste cose, queste opere rubate dove vanno? Cioè chi, sono furti commissionati, qualcuno li ha ordinati, hanno un destino, una destinazione già precisa quando uno li ruba, che ne so, dove vanno a finire di solito questi?

 

[Patrizia] Nel caso del museo, spesso possono essere dei furti su commissione, perché le opere sono talmente note, talmente conosciute e catalogate che è difficile rivenderle sul mercato antiquario. 

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Generalmente gli antiquari devono avere, almeno in Italia, devono avere poi elenchi delle opere rubate che vengono pubblicati ogni anno dalla, dai Carabinieri, per la Tutela dei Beni Culturali. C’è un nucleo speciale dei Carabinieri che si occupa della tutela dei beni culturali, un nucleo che è nato nel 1969, è uno dei più antichi che esistono per questi aspetti, e che pubblica ogni anno l’elenco di opere rubate. Tutti gli antiquari devono averlo, perché se poi commercializzassero una di quelle opere, sarebbero naturalmente passibili di sanzioni penali.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Quindi quando le opere vengono rubate, specialmente le opere che si trovano nei musei, diciamo che c’è una committenza, quindi sono più che altro furti su commissioni. Sarebbe difficile rivendere, che so, Raffaello…

 

[Leticia] Sì. Quindi sarebbe un collezionista, qualcuno che veramente ha questo sogno di possedere un’opera così, insomma.

 

[Patrizia] Sì, generalmente, che poi ci sia il gesto della persona così pazza, ci può anche stare, però è abbastanza difficile, quello potrebbe accadere nel caso dello sfregio, del danno… 

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …che si fa all’opera d’arte, poi magari può arrivare la persona che è un po’ disturbata, allora come è già successo più volte

 

[Leticia] Sì, sì sì.

 

[Patrizia] Accoltella l’opera, oppure la colpisce, però nel caso del furto, diciamo, più che altro è per questi aspetti. Se sono opere importanti, se sono piccole opere tipo piccoli paesaggi, quelle potrebbero essere più appetibili sul mercato, perché è più difficile anche ritrovarle, oppure… Però sono cose che succedono di più magari nelle chiese.

 

[Leticia] Aaaaah ok.

 

[Patrizia] Nelle chiese potrebbe capitare che ci siano questi furti, perché le chiese sono aperte, naturalmente, ai fedeli…

 

[Leticia] Sì, sì sì, e insomma, tutto lo schema di sicurezza che ha un museo una chiesa naturalmente non ce l’ha, a meno che non sia una chiesa molto famosa, insomma no?

 

[Patrizia] Esatto, l’opera può essere rubata, può essere tagliata…

 

[Leticia] Ah!

 

[Patrizia] …e fatta a pezzi, perché poi i falsari riprendono questi pezzi e li inseriscono su altre tele.

 

[Leticia] Oh!

 

[Patrizia] E dall’opera grande, diciamo, ne creano altre opere diverse. A quel punto non le ritrovi, perché è molto più difficile, l’opera è stata talmente tanto modificata che poi diventa proprio difficile ritrovarla.

 

[Leticia] Questo non lo sapevo proprio. Che disastro! 

 

[Patrizia] Eh sì, generalmente fanno così per non essere scoperti e spesso utilizzano anche delle tele che sono magari antiche, in modo tale che alla prova del carbonio C14 risultano comunque antiche, anche sotto gli strumenti tecnici…

 

[Leticia] Ma porca pupazza! Io questo proprio sconoscevo totalmente!

 

[Patrizia] Eh, i falsari sono bravi, eh…

 

[Leticia] Mannaggia! E quando, per tutto il discorso dei falsari, visto che ci sei entrata tu, come, come si fa, perché abbiamo visto, io avevo colloca… messo un paio di link anche nella… Nella nostra… Insomma, nel diciamo nello script che seguiamo di solito per fare la registrazione principale, avevamo messo qualche notizia di quadri che sono di un museo in Francia, non mi ricordo esattamente quale, che ha scoperto che tipo la metà delle sue opera erano falsi. No? E come, come si fa una cosa del genere? Perché io capisco, e l’altra invitata ha detto la stessa cosa, che sono tanti esperti, è una cosa soggettiva in realtà, no, perché non hai il modo di provare, soprattutto se un falsario riesce a inserire un pezzo di opere antiche in modo da diciamo riuscire a truffare anche il carbonio 14. Però chi decide che è un falso o no, con quale frequenza si fanno queste analisi, perché magari è un quadro che è lì da tantissimi anni, a nessuno è venuto in mente di vedere, di controllare se è veramente di quel pittore, e poi a un certo punto uno va, la controlla e dice ‘guarda che questo non è suo’, ‘questo nemmeno’, ‘la metà dei tuoi quadri non sono stati dipinti da quello che dite’. Come succede tutto questo?

 

[Patrizia] Beh, come succede, generalmente potrebbe succedere nell’occasione di qualche mostra…

 

[Leticia] Guarda, sento il rumore un’altra volta.

 

[Patrizia] Ah ecco, può darsi che sono io con il dito, eh…

 

[Leticia] Può darsi.

 

[Patrizia] Potrebbe capitare proprio in occasione di qualche mostra, quando le opere d’arte sono sottoposte a delle indagini. Magari perché bisogna fare il restauro, perché bisogna fare qualche azione particolare, e allora potrebbe capitare che si scopre che magari la vernice o qualche elemento che c’è nelle vernici non è contemporaneo alle tele. 

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Eh, oppure non è… Non è proprio… Così … Legato anche ai restauri, cioè sono stati utilizzati dei materiali che a quei tempi non c’erano.

 

[Leticia] Ah, ho capito. Guarda…

 

[Patrizia] E questo potrebbe essere un motivo, oppure si fa qualche riscontro con altre opere, però determinare che cos’è un falso veramente non è facile.

 

[Leticia] Ci credo! Soprattutto se arrivano a questo raffinamento, a questo livello di sforzo, insomma, per farlo passare per vero, non sarà una cosa facile per niente…

 

[Patrizia] Ci sono stati dei falsari nella storia che hanno venduto moltissime opere ai collezionisti e poi sono finite all’interno dei musei, proprio perché erano degli artigiani, erano degli artisti veri e propri, e sapevano realizzare delle opere con le stesse tecniche, con le stesse modalità, effettivamente non è, non è facile. E poi a quel punto anche quelle sono ormai opere antiche entrate a far parte dei musei, no?

 

[Leticia] Eh, penso di sì, no, hanno una storia interessante dietro, quindi…

 

[Patrizia] Hanno una storia dietro anche quelle…

 

[Leticia] Sì, per forza… E quando invece è il contrario, nel senso che trovano un quadro che nessuno se l’aspettava, com’è uscito questa settimana adesso, giorni fa, questa notizia di un, che era, un Magritte? Non mi ricordo chi. Un quadro che è stato trovato mentre si puliva qualcosa e l’hanno trovato, era un…

 

[Patrizia] Allora, mi ricordo che è uscito da poco la notizia di un Cimabue che è stato trovato nella cucina…

 

[Leticia] No, questa l’ho… Questa non l’avevo sentita, sono ancora più scioccata (risate)! Oh! Un Cimabue!

 

[Patrizia] In Francia, in casa di un signore in campagna, è stato ritrovato questo piccolo, questa piccola tavola di Cimabue, che lui teneva in cucina, praticamente, e poi è stata quotata a tipo 24 milioni di euro, una cosa incredibile…

 

[Leticia] E quando succede così, che si fa? Cioè, questa, questo quadro, quest’opera, è del signore, c’è, immagino che cambi da paese a paese, che magari c’è una legge che obbliga chi trova certe opere a cederle ai musei o al governo o a quello che è, non lo so. Come funziona?

 

[Patrizia] Eh, dipende, anche il questo caso, sì, dipende dai paesi. Ci sono regole diverse a seconda dei paesi. In Italia, per esempio, può succedere molto spesso con i reperti archeologici…

 

[Leticia] Sì sì.

 

[Patrizia] Perché magari ecco, cioè, un contadino scava nel suo terreno e casualmente trova una necropoli. Può succedere. E lì si chiama proprio “rinvenimento fortuito”, dovrebbe chiamare la soprintendenza, quindi l’apposito ente di tutela, e quegli oggetti, siccome tutto quello che viene rinvenuto in Italia sotto il suolo appartiene allo Stato…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …quegli oggetti poi dovrebbero diventare di proprietà statale. Però lo Stato rimborsa in parte…

 

[Leticia] Ah ok.

 

[Patrizia] Nella quotazione dell’oggetto il proprietario. Se la persona che trova a casa sua fortunatamente un Cimabue, per dirti, non è tenuto a comunicarlo. Diciamo che troverà o a tenerlo oppure a venderlo.

 

[Leticia] Aaaah ho capito…

 

[Patrizia] Però nel momento in cui provi a venderlo, lì può intervenire lo Stato, che chiede il diritto di prelazione. Questo è successo anche con il Cimabue della Francia, perché la Francia ha deciso di non farlo più uscire, ma farlo diventare patrimonio nazionale, quindi lo comprerà sicuramente a un prezzo più basso. Però il signore che l’ha trovato diciamo che si è assicurato la pensione…

 

[Leticia] Embeh certo! Io mi chiedo sempre che storie hanno queste cose, no, com’è andato a finire di lì, che percorso strano avrà fatto per finire in una cucina di un contadino che non sa che cos’era e magari l’avrebbe anche buttato se si spostava o una cosa del genere, no…

 

[Patrizia] Lì veramente è tanto tanto difficile poter immaginare come sia arrivato quel pezzo di Cimabue lì. Difficile che sia rimasto lì dal Trecento. 

 

[Risate]

 

[Patrizia] Questo… Nel caso di opere così piccole che potrebbero fare parte sicuramente di un’opera più grande, le possibilità sono veramente tantissime, molte opere sono state anche requisite durante la Guerra…

 

[Leticia] Aaaaah sì, c’è anche quello, è vero…

 

[Patrizia] C’è anche questo, e non si sa se magari qualche soldato abbia… Ha preso parti di tavole nella confusione totale che c’era in quel momento, lo sia messo dentro… lo zaino…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …e l’ha portata da qualche altra parte. Non lo so. Questo è un lavoro che si sta facendo adesso, soprattutto per quanto riguarda le collezioni ebraiche…

 

[Leticia] Ah, interessante, verranno fuori delle storie fantastiche, immagino, no?

 

[Patrizia] Eh sì, perché ci sono tante famiglie che comunque hanno nel tempo denunciato la perdita oppure furto delle proprie collezioni, che sono state o requisite proprio per via delle leggi razziali, o perché loro hanno dovuto abbandonare le case, e quello che c’era dentro è andato disperso, e adesso proprio si sta cercando di lavorare proprio a recupero di queste, di queste opere. Non solo nelle collezioni tedesche.

 

[Leticia] Ah, ho capito.

 

[Patrizia] Anche in quelle americane, anche in quelle europee, ci sono proprio anche degli avvocati che si stanno occupando per conto di queste famiglie del recupero degli oggetti, nel caso in cui si scopra che qualcuno dei loro beni sia adesso dentro un museo.

 

[Leticia] Porca miseria… Pensa quanto tempo è passato e quanta roba ancora c’è da capire, da scoprire… Mamma mia, che lavoro infinito, praticamente…

 

[Patrizia] Perché poi spesso queste famiglie all’inizio non hanno parlato. Hanno dovuto elaborare molto il trauma…

 

[Leticia] Comprensibilmente.

 

[Patrizia] Quindi sono cose che sono uscite dai nipoti, magari… 

 

[Leticia] Ho capito.

 

[Patrizia] …più che da loro. In molti casi avevano dietro questi dipinti delle etichette, dei timbri, e quindi grazie a quello si riescono a recuperare. Ma non è facile, ecco, sono state fatte da poco anche delle mostre di opere requisite, prevalentemente in paesi di area germanica…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] E si sta lavorando un po’ proprio in questo momento a queste tematiche.

 

[Leticia] Hm. Questa difficoltà di rintracciare, no, l’origine delle opere, io mi ricordo… Io ho fatto due anni di Comunicazione Internazionale qui a Perugia, molti anni fa, prima di… che mia figlia nascesse, e avevo fatto anche Storia della Mafia, era una delle materie. E la professoressa ci diceva che appunto questa difficoltà in trovare l’origine degli oggetti e delle opere rende molto appetitoso come… Come forma di investimento, no? Questa cosa dell’arte. Perchè è molto facile uno, che ne so, ha un, si compra un mobile antico, appunto per ripulire i soldi, no, ottenuti in modo illegale, e si compra, si acquista questo mobile antico, molto, di molto valore, uno può perfettamente dire ‘guarda, questo l’ho ereditato da mio bisnonno’, perché nessuno sarà in grado do provare il contrario, no? 

 

[Patrizia] Sì.

 

[Leticia] E quindi c’ tutto un discorso di questa difficoltà che alla fine rende possibile anche questo tipo di cosa. Succede ancora parecchio? Cioè la mafia, e parlo della mafia in particolare perché questo mi è venuto in mente, ma ancora si fa questo tipo di investimento perché è facile diciamo di, di truffare il governo, insomma, chiunque?

 

[Patrizia] La mafia, sì, sì e no, adesso io non sono molto al dentro della questione della mafia, no, quello, il furto diciamo quello più famoso che è legato alla mafia è quello del Caravaggio di Palermo.

 

[Leticia] Sì, sì sì. Abbiamo messo a… Abbiamo messo il link per quello anche nella… Nello script perché è una storia meravigliosa.

 

[Patrizia] Questa è una storia meravigliosa, ma diciamo che qui sappiamo che la mafia è stata comunque implicata. Per quanto riguarda l’acquisto di beni, sì, è probabile che anche questi siano considerati appetibili, e più scompare, diciamo così, il luogo d’origine, più anche acquistano valore. Per esempio, adesso si sta ricercando molto sul mercato tutto quello che potrebbe provenire da Palmira.

 

[Leticia] Aaaaaaaah sì, comprensibile…

 

[Patrizia] Perché molto probabilmente, sembra, eh, niente è certo, che però, per esempio, tutti quelli che sono i rilievi dei tempi che poi sono stati distrutti non siano stati distrutti insieme al tempio, ma siano stati staccati per rivenderli…

 

[Leticia] Pensa!

 

[Patrizia] …per finanziare così l’acquisto di armi.

 

[Leticia] Pensa!!! 

 

[Patrizia] E quindi il tempio è stato stato distrutto per coprire questo.

 

[Leticia] Che plot twist!

 

[Patrizia] Esatto! Per non fare vedere il buco diciamo così della… è stato distrutto il tempo. Sembra più per questo che per volontà di distruggere il patrimonio. 

 

[Leticia] Guarda…

 

[Patrizia] Che poi è una cosa che più colpisce noi occidentali…

 

[Leticia] Sì, sì, è dolorosissimo da guardare. Sento il rumore un’altra volta, Patrizia.

 

[Patrizia] Sicuramente sono io col dito che tengo il computer.

 

[Leticia] Sì, è dolorosissimo da vedere, no, come i Buddha in Afghanistan, no, sono cose che ci fanno proprio uno strazio al cuore a vederle. 

 

[Patrizia] Però il Buddha magari è stato distrutto per altre motivazioni. Qui sembra per coprire questi traffici. Questi traffici illeciti che poi sono una delle principali fonti di finanziamento naturalmente del terrorismo.

 

[Leticia] Tu pensa, io questo non lo sapevo… Oh guarda, io sto imparando un sacco di cose, sono queste le interviste che mi piacciono, che imparo un sacco di cose che non conoscevo. Ti faccio due domande del mio collega e poi ti lascio andare. Lui aveva parlato in particolare della morte di Roger Scruton, non so come si pronuncia il suo cognome, a essere sincera. Che era uno studioso di estetica…

 

[Patrizia] Filosofo anche.

 

[Leticia] Sì, filosofo, amava l’estetica più classica…

 

[Patrizia] Un conservatore…

 

[Leticia] Sì, un conservatore, insomma, palloso, che trovava brutto tutto quello che non era classico, no? Come sono queste, questi standard di bellezza lungo il tempo, no, questi cambiamenti? E’ una cosa spontanea, organica, oppure c’è anche un dettame degli strati più… Magari l’élite, o degli esperti… Come funziona?

 

[Patrizia] La critica ha condizionato sicuramente l’apprezzamento dell’arte, per cui in certi momenti degli artisti sono stati apprezzati e in altri no. Ti faccio l’esempio proprio del solito Caravaggio. Già nel Settecento Caravaggio non viene più considerato un artista importante, o comunque un artista che piace, perché i canoni estetici che si impongono son quelli del neoclassicismo…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Quindi è una pittura che si rifà a un ideale estetico classico, naturalmente non può apprezzare un naturalismo così reale come quello delle opere di Caravaggio. Quindi Caravaggio comincia a non essere più di tanto apprezzato, tant’è che anche quando vengono compiute le campagne delle requisizioni napoleoniche in Italia, quelle che sono considerate come uno dei più famosi furti, poi furto è veramente la parola sbagliata…

 

[Leticia] Sì, hehh

 

[Patrizia] …compiuti in Italia, Caravaggio non è che viene così tanto preso in considerazione. Le opere d’arte che vengono prelevate son quelle del Rinascimento e quello del Classicismo.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Quindi Guido Reni, Carracci, che ne so, questi artisti, non il naturalismo, che non piace. E’ un fenomeno invece di riscoperta che comincia nel Novecento principalmente, con Roberto Longhi, poi una mostra nel 1951 quando Caravaggio viene assolutamente riscoperto e diventa quello che è oggi.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Altrimenti non era considerato, insomma, non piaceva, sono canoni di… di gusto. Pensa a quando per esempio vengono fatti… Comincia l’avventura dell’arte degli impressionisti, ai Salons del 1863 per esempio, Le déjeuner sur l’herbe, viene bocciato.

 

[Leticia] Eh, ci credo, una rottura così…

 

[Patrizia] Viene riscoperto dopo. C’è una critica, diciamo una corrente critica, che apprezza una tipologia d’arte più che un’altra, e quindi determina la fortuna o la sfortuna. Tu pensa solo all’ideale classico estetico che poteva avere Hitler.

 

[Leticia] Sì.

 

[Patrizia] E poi alla mostra di arte degenerata del 37. Che lui oppone alla mostra dell’arte tedesca…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …facendo vedere come appunto l’arte tedesca che si rifaceva a ideali classici fosse quella che andava presa in considerazione, mentre l’altra andava distrutta, perché i pittori utilizzavano un canone estetico, un modo di dipingere…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …che non era apprezzato appunto da quella tipologia di estetica che lui voleva promuovere, tralasciando poi il fatto che anche lì c’erano le implicazioni razziali e quindi tutto quello che veniva considerato legato al popolo ebraico, però proprio non gli piacevano quelle tipologie di opere, non venivano ricomprese in quell’ideale che voleva riflettere il classicismo, lo stile greco, la purezza, la perfezione delle forme, che appunto era quello che veniva propagandato in quel momento.

 

[Leticia] Ho capito.

 

[Patrizio] Quindi a parte di questo ideale classico si possono compiere degli abomini, ecco.

 

[Leticia] Sì, appunto, sì sì. E questo va molto d’accordo con quello che abbiamo sentito fra ieri e oggi qui in Brasile, cioè, giù in Brasile, non so se l’hai visto, so che è uscito, ha cominciato a uscire adesso nei giornali stranieri, del ministro della cultura che ha fatto una, un discorso assolutamente abominevole, parlando appunto, utilizzando proprio frasi intere di Goebbels, parlando appunto…

 

[Patrizia] Oh mamma…

 

[Leticia] Sì, una cosa tremenda dell’arte pura, vera, ‘oppure non ci sarà niente’, cose di questo tipo, con un’estetica tutta molto nazista, con una croce sopra il tavolo e con Wagner in fondo, quindi lui difendendo la cultura brasiliana come se questa, come se la cultura brasiliana fosse una cosa europea, il che ovviamente è una cazzata, e quindi disprezzando tutta, tutto ciò che ci hanno portato gli africani e gli indigeni, e allo stesso tempo mentre si dichiara molto patriota, molto nazionalista, c’è questo Wagner in fondo che non c’entra una cippa. Quindi è tutta un’idiozia che, che fortuitamente ha molto a che fare con questa domanda che mio collega aveva fatto giorni fa. Però alla fine ci risiamo. 

 

[Patrizia] Spaventoso, perché tutto quello che riguarda il bello, cioè proprio il bello come ideale, come estetica, comporta inevitabilmente che ci sia ricorso anche all’opposto. Quindi…

 

[Leticia] Sì.

 

[Patrizia] Quello che non è bello diventa brutto, quella che è brutto si può distruggere, e questo è una cosa veramente terribile!

 

[Leticia] Sì.

 

[Patrizia] Cioè mentre qui, per esempio, noi stiamo cercando di leggere con altri occhi, sforzarci a leggere con altri occhi un tipo di cultura che non è la nostra, proprio per andare incontro alla funzione naturale di certi oggetti, penso proprio a quello che citavi tu, dell’arte africana, quindi opere che provengono per esempio da musei che sono quelli dedicati all’arte coloniale, oppure all’arte africana, stiamo cercando di restituire quel valore culturale, simbolico, religioso, per cui gli oggetti avevano al di là dell’estetica…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] Mi sembra che il discorso che stia facendo il presidente del Brasile è l’opposto…

 

[Leticia] A parte che lui ha solo idioti nel suo governo, cominciando da lui stesso, che è un imbecille. E’ già stato cacciato via, penso, dopo la manifestazione dell’ambasciata tedesca a Brasilia, perché giustamente non puoi far passare una cosa del genere, no? Ci sono stati, ci sono state manifestazioni diverse contro questa cosa incredibile e quindi è stato dimesso, ma sicuramente entrerà qualcuno ancora peggio al posto suo perché questo è quello che sta succedendo da un anno ormai, purtroppo.

 

[Patrizia] Speriamo di no, dai!

 

[Leticia] E’ una cosa tremenda. Ma sempre parlando di governi pessimi, ti pongo quest’ultima domanda, sempre di mio collega: parliamo di questo scomodo dell’arte, no. Perché c’è un tipo di arte che infastidisce così tanto certi governi o certi, certe correnti di pensiero politico? Perché c’è questa… quest’odio apparentemente gratuito, sappiamo che non è gratuito, ma perché c’è quest’odio contro certi modi di fare l’arte, di considerare arte quello che ti piace e non arte quello che non ti piace? E ci sono nei musei che tu conosci o quelli dove lavori di più, insomma, dove conosci gente che ci lavora, quelli con cui hai più contato, no, c’è qualche opera in particolare che ti piace che all’epoca quando è stata fatta o quando è stata messa in mostra abbia causato qualche polemica e la gente ne ha parlato parecchio?

 

[Patrizia]Sì, dipende poi dalle polemiche, adesso ti faccio un esempio famoso per quanto riguarda l’Italia. Quando la direttrice della Galleria Nazionale d’Arte Moderna di Roma, Palma Bucarelli, acquistò le opere di Burri…

 

[Leticia] Ah sì…

 

[Patrizia] Ci furono proprio delle critiche anche da parte del governo, perché venivano spesi dei soldi pubblici…

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] …in quel caso, visto che era un museo nazionale, per acquistare delle opere d’arte che non erano belle. Che non venivano considerate belle o immagina nel caso di Manzoni, il famoso… Scatoletta con la merda d’artista…

 

[Leticia] Sì sì!

 

[Patrizia] Perché conteneva insomma escrementi e che per altro non si sapeva neanche…

 

[Leticia] Esatto, esattamente, il mistero fa parte della cosa…

 

[Patrizia] In quel caso sì, per quanto riguarda opere politicamente, diciamo, pericolose, non ho grandi esempi per quanto riguarda l’Italia. Possono essere pericolosi gli artisti.

 

[Leticia] Uhum.

 

[Patrizia] E allora magari ti faccio l’esempio in Cina di Ai Wei Wei…

 

[Leticia] Sì sì… Che ci piace tanto, abbiamo visto una mostra a Belo Horizonte l’anno scorso… C’è stato un evento di podcast in quest’altro stato… Io abito in uno stato del sud del Brasile adesso, anche se sono di Rio, questo collega mio in un altro stato ma sempre del sud, e noi eravamo andati in questo stato per un evento dei podcast, e tanto bene abbiamo chiappato l’ultimo giorni della mostra di Wei Wei in un centro culturale che per fortuna stava proprio a due passi da dov’era l’esempio, quindi anche se l’abbiamo visto di fretta, l’abbiamo visto. E sono cose fantastiche, e ci sono, uno capisce perché tutta la polemica e perché lui è stato arrestato, insomma.

 

[Patrizia] Esatto. Esatto. Lui come attivista per i diritti umani, naturalmente viene censurato, è stato in prigione, no, sai, che poi per tanti anni non ha potuto riavere il passaporto…

 

[Leticia] Sì.

 

[Patrizia] Eh, e quindi in quel caso è più legato alla sua figura che non a… che non altro. Però ci sono per esempio delle letture di storie che sono definite controverse all’interno dei musei, che per esempio adesso stanno interessando molto gli Stati Uniti.

 

[Leticia] Hm.

 

[Patrizia] E riguardano per esempio alcuni musei in cui sono esposti dei ritratti di persone che sono legate al periodo in cui c’era ancora la schiavitù.

 

[Leticia] Ah sì.

 

[Patrizia] Eh allora lì si dice, ecco, però, si è fatto il ritratto di questa donna elegante, con questi abiti, ma lei poteva vivere così perchè aveva gli schiavi…

 

[Leticia] Solo…

 

[Patrizia] E quindi ci sono delle didascalie particolari che cercano di spiegare questi aspetti. E lo stesso è avvenuto anche in Olanda, con delle esposizioni accanto magari a vasellame prezioso, di catene…

 

[Leticia] Aaaah ok…

 

[Patrizia] …degli schiavi dentro la stessa teca, per fare vedere che c’era qualcuno che si poteva permettere quello però veniva servito dagli schiavi.

 

[Leticia] Ho capito.

 

[Patrizia] O in America, adesso ci sono degli oggetti che fanno riferimento per esempio al Ku Klux Klan, e magari dentro la cullina del bambino, poi bianco, ecco, sta proprio la classica tunica col cappuccio KKK, per fare vedere come la popolazione, in quel caso afroamericana, ha subito negli anni 60 questo… questo affronto.

 

[Leticia] Eh, cominci a entrare in un discorso di etica abbastanza complesso, no? Perché tu che fai, fai finta che queste cose non sono mai esistite, oppure cancelli completamente un artista perché ha partecipato a questo o quell’altro, insomma, non è, non è, non sono scelte semplici, no, mi rendo conto…

 

[Patrizia]No, non sono scelte semplici anche perché in alcuni casi noi sappiamo, tanti artisti allora sono stati accusati… Gauguin, hanno detto, a quel punto, che era pedofilo…

 

[Leticia] Uhum. Sì sì.

 

[Patrizia] Cioè, non consideri più la sua arte perché forse lo era, le prove in quel caso non ce le abbiamo… Veramente è molto difficile parlare di questi temi, però sono temi di cui è necessario adesso parlare, perché i musei sono sempre più implicati anche socialmente, non solo sotto il profilo estetico, ma sono dei luoghi che devono aprire delle discussioni. Devono portare le comunità a riflettere sui problemi contemporanei, a interrogarsi e semmai a fare sentire anche la loro voce.

 

[Leticia] Sì sì, è vero, sono discussioni che bisogna averle, no, soprattutto nei tempi che corrono, forse non abbiamo fatto queste discussioni a tempo dovuto, e quindi adesso ci torna tutto, tutto sulle capocce, e siamo messi un po’ male, magari se queste discussioni fossero un pochino più frequenti nel passato, forse non saremmo dove siamo adesso, ma non si può prevedere, quindi ecco, facciamo quello che possiamo.

 

[Patrizia] Sai adesso all’Hermitage di Amsterdam è in corso una mostra molto bella sui ritratti del secolo d’oro dell’Olanda. E ci sono tutti questi personaggi, naturalmente, con gli abiti da persone che appartengono a un certo ceto, e sono tutti bianchi. Allora è stata fatta proprio un’azione di attivismo per riscoprire anche le persone di colore che in quel periodo avevano la possibilità economica per farsi realizzare dei ritratti. Ma che non sono ritratte. Quindi alcuni uomini di colore hanno posato con quegli abiti e sono stati ritratti per andare a ricostruire le storie di queste persone che poi erano state…

 

[Leticia] Fantastico!

 

[Patrizia] E è molto interessante perché cominciamo a vedere che forse non era tutto così come noi ce lo siamo immaginati o come ce l’hanno trasmesso, la storia non è bianca o nera, ci sono tante altre sfumature che è necessario fare conoscere perché le nostre società sono sempre più, almeno io ti parlo dell’Europa, multietniche, dobbiamo conviverci e non pensare che sia un fenomeno solo attuale, ma c’è sempre stato.

 

[Leticia] L’essere umano si è spostato sempre, no?

 

[Patrizia] Esatto, dobbiamo imparare che siamo figli di queste migrazioni, e che quindi è necessario vederle un po’ con altri occhi più aperti. 

 

[Leticia] Bene.

 

[Patrizia] Questo può aiutare, insomma, proprio per includere questi nuovi cittadini anche all’interno della vita culturale, serve anche a noi, insomma.

 

[Leticia] Sì sì. Perfetto. Ah, son contenta, ho imparato un sacco di cose, adesso trascrivo tutto, traduco tutto… Ascolta, io ti ringrazio tantissimo, so che è stato un casino…

 

[Patrizia] Ma figurati!

 

[Leticia] E’ tutto colpa della Tim. Vogliamo prenderci un caffè?

 

[Patrizia] Volentieri!

 

[Leticia] Io sarò in Umbria, in Italia, fino al 5 febbraio, poi me ne torno in Brasile e torno qua solo a luglio…

 

Leia na íntegra a transcrição do nosso episódio sobre Brexit com Chris Bickerton, da Universidade de Cambridge (EM PORTUGUÊS)

Tempo de leitura: 11 minutos

Para acessar a transcrição original em inglês clique aqui

 

Leticia Dáquer: OK. Então, olá, prazer em te conhecer, posso te chamar de Chris? 

 

Chris Bickerton: Sim, Chris tá bom.

 

Leticia: OK. Normalmente a gente começa pedindo aos nossos convidados que se apresentem aos nossos ouvintes, então se você puder dizer quem você é, onde você tá e por que nós te convidamos…

 

Chris: Bom, meu nome é Chris Bickerton, estou baseado na Universidade de Cambridge, eu ensino e trabalho e pesquiso principalmente política europeia contemporânea… E venho seguindo, acho que assim como todo mundo que tem interesse na política britânica, o processo do Brexit, ao longo dos últimos 3 anos, e eu tenho mais interesse na resposta da esquerda à integração europeia e na posição da esquerda britânica sobre o Brexit.

 

Leticia: Olha, então você é exatamente o que a gente precisava hoje.

 

Chris: Que bom.

 

Leticia: Graças a deus, graças aos céus pela Marta! Ok, então, queríamos saber, e isso vai ser curto porque ainda temos que transcrever e traduzir isso, como eu te disse, então… Depois de ver um vídeo, uma entrevista com o Galloway, e ele tava mencionando a necessidade de… de se deslocar mais pra esquerda ainda, porque o que consideramos esquerda hoje não tá funcionando. Tá muito afastada dos trabalhadores, do povo, não se comunica, não… Não consegue se colocar no lugar, ela se tornou… Ele fala de uma esquerda burguesa, que não consegue se colocar no lugar das pessoas e entender pelo que elas estão passando. Então, segundo ele, nós precisamos ir mais pra esquerda ainda. Você acha isso também? Você concorda com ele?

 

Chris:  Ah, eu acho que provavelmente é um pouco mais complicado, eu acho que… O Labour Party fez duas coisas nos últimos anos, e essas coisas estão indo em direções opostas. Então sociologicamente o partido definitivamente vem sendo dominado por eleitores bem jovens, que vivem em centros urbanos, sabe, em cidades grandes, principalmente em Londres, e em algumas das cidades universitárias do sul… Acho que um tipo de grupo de classe média, intelectual, bem jovem de eleitores, mas especialmente de membros. Mas ideologicamente o partido foi muito pra esquerda, desde que o Corbyn se tornou o líder o LP deixou pra trás muito do que nós chamávamos de New Labour, e ficou muito mais comprometido com o socialismo, pelo menos na língua dos líderes do partido, e o manifesto que eles apresentaram nas últimas… nas eleições do mês passado foi um manifesto de esquerda bem radical, empenhado com a transformação socialista. Então eu acho que o problema com o LP não é ter se tornado um partido burguês como o Galloway diz, o problema é, se você quiser ser mais específico, é que você tem esse movimento contraditório entre esse salto ideológico pra esquerda e o movimento sociológico na direção do centro.

 

Leticia: Hmmm OK. Por que você acha que isso… que a esquerda foi dominada por esse grupo de intelectuais e tal, o que aconteceu? Por que ela não tá dominada por trabalhadores e por sindicatos do jeito que deveria, talvez, de acordo com o que a gente imagina? Quando a gente pensa na esquerda, pensamos em trabalhadores, né, e o que aconteceu? Por que agora é essa espécie de elite intelectual que tá controlando as coisas?

 

Chris: Sim, eu acho que é interessante que provavelmente tem vários motivos diferentes. O LP no Reino Unido não abandonou as suas relações formais com os sindicatos. Os sindicatos, especialmente alguns como o Unite, têm um papel muito importante na gestão do partido, e ainda existe uma dependência econômica do partido com relação aos sindicatos e às contribuições que eles fazem. Então eu acho que o que eu disse sobre a sua transformação sociológica deve ser combinado com o fato de que, sabe, as origens deles como um partido formado por sindicalistas, por trabalhadores, auto-organizados e auto-representados, elas ainda sobrevivem nessas relações que o partido   tem com os sindicatos. Mas, como nós sabemos, e certamente no caso do Reino Unido, o papel que os sindicatos têm na estruturação da vida social é muito diferente do que já foi um dia, e o efeito do governo conservador nos anos 80 sobre os sindicatos foi muito intenso, então eu acho que os sindicatos existem como uma espécie de grupo de interesse bem organizado, mas não têm o mesmo tipo de autoridade sobre a sociedade como um todo, algo que acontecia com as classes trabalhadores britânicas. Então você tem esse, esse papel dos sindicatos. De resto, eu acho que provavelmente é uma mistura de coisas, sendo que algumas têm a ver com o fato de que quando o LP se transformou nesse partido de centro, nesse Blairismo dos anos 90 representando uma terceira via, o Blair tocava o partido e ele frequentemente brigava com o partido. Os ativistas frequentemente estavam mais à esquerda ideologicamente do que a liderança do partido. Então o que o Blair tentou fazer foi cortar, por assim dizer, a parte mais ativista dos membros do LP, e tornou mais fácil se filiar ao partido, era possível entrar pro LP e não fazer praticamente nada, como quando a gente faz com a Anistia Internacional, você paga a sua contribuição mensal e pronto. Era muito diferente antigamente, quando pra ser membro de um partido você participava de reuniões toda semana e fazia parte da organização do partido em nível local, de comitês e coisas assim. Então ele transformou o partido dessa forma, como uma maneira de se livrar do LP e de falar muito mais diretamente com os eleitores. O que vem acontecendo desde o Corbyn é que muitas pessoas se filiaram ao partido e a eleição do líder foi aberta pra todos os membros, em vez de somente pros membros dos Partidos Parlamentares, só os MPs, e a natureza dessa filiação é, eu acho, muito diferente. É muito mais tipo… ativistas e muito mais envolvidos. Então eu acho que tem um tipo de geração de pessoas que não representam necessariamente a sociedade como um todo, a sociedade é muito mais diversa e muito… Mas mesmo assim é um grupo organizado, quer dizer… Grupos como o Momentum, uma espécie de organização nacional dentro do LP, uma geração de, sabe, ativistas que conseguiram realmente tomar conta do LP e através da liderança conseguiram criar esse partido muito mais radical. Mas a identidade social desses ativistas é a que eu descrevi pra você. É gente millennial, muito baseada em Londres, com muita educação formal, com muito interesse em ideias, e… em conectar ideias e políticas, e eles não têm nenhuma relação direta, até onde eu sei, com outros elementos e estruturas da sociedade britânica. E o erro do LP, eu acho, foi que ao longo do tempo ele se tornou uma espécie de bolha, sociologicamente e ideologicamente. E quando você testa essa bolha lá fora, nas eleições gerais, você percebe que era só uma bolha mesmo.

 

Leticia: Sim. Isso é exatamente o que a gente viu no primeiro plebiscito, né? Que Londres teve um resultado completamente diferente sobre o Brexit quando comparada com o resto do país. E aconteceu de novo, né? No segundo plebiscito (eleições gerais). Ninguém aprendeu nada? Por que nada mudou entre os dois eventos, o que aconteceu? Porque as pessoas talvez esperassem um resultado diferente, já que a gente meio que entendeu o que tinha acontecido da primeira vez, e agora aconteceu novamente. É algo do tipo “ah é, quer sair, então sai pra ver o que é bom pra tosse”, ou algo mais deu errado ainda mais do que antes? O que você acha que aconteceu?

 

Chris: Quando você fala do primeiro e do segundo plebiscito, o que você quer dizer exatamente?

 

Leticia: Porque no primeiro plebiscito o resultado foi um choque, ninguém tava esperando…

 

Chris: Em 2016?

 

Leticia: Sim! Porque houve uma diferença muito grande entre Londres e o resto do país, e ninguém tava esperando aquilo, porque não parecia… não parecia lógico que alguém pensasse sobre isso e chegasse à conclusão de que realmente seria ótimo sair da UE, né? E aí aconteceu de novo, e agora temos o Boris Johnson e temos todas essas coisas que ninguém entende de onde vieram. Então eu… Pelo que eu ouvi aqui na Itália, e no Brasil também, algumas pessoas tavam comentando assim, tipo, “o que houve???”, porque a gente achava que tinha entendido o que tinha acontecido na primeira vez então talvez algo tivesse que ter sido feito pra mudar as coisas e ter um resultado diferente nas eleições. Mas aí, Boris Johnson! O que houve? 

 

Chris: Eu acho… Acho que é uma lição a ser aprendida sobre ter um pouco de… cuidado sobre a maneira que a gente usa pra se informar, onde a gente se informa… Porque é possível, como eu disse, que as pessoas estejam funcionando mesmo em uma espécie de bolha. Acho que isso tem a ver talvez com uma… uma interpretação errada do voto do Brexit original. Em 2016, quando as pessoas votaram pra sair da UE, a reação de muita gente favorável a permanecer foi “ah, as pessoas foram enganadas por esses slogans mentirosos”, “as pessoas não sabiam direito sobre o que estavam votando”, “elas estavam erradas”, e aí depois de 3 anos ficaria mais evidente que, sabe, tudo isso tinha sido um erro e as pessoas iam notar e votar de outra forma. E eu acho que a gente sabe desde o começo que essa é uma leitura muito perigosa a ser feita sobre os motivos pelos quais as pessoas votam. Acho que as pessoas votaram em grande parte porque realmente queriam sair da UE, e não foi porque eles entenderam errado, essa era mesmo a visão deles sobre a UE. Aí você chega em 2019, no final de 2019, e muita gente que tinha passado por anos desses debates parlamentares e negociações e um monte de votações que foram rejeitadas… E o que elas viram foi essa incapacidade do Parlamento de simplesmente seguir o resultado do plebiscito, e aí um partido disse, olha, a gente vai fazer o Brexit e ponto final, era esse o slogan deles. E se o que te interessa é sair da UE, então você vai votar no partido que vai tirar você da UE. E se a nossa análise é a de que as pessoas estavam erradas quando votaram antes e que agora certamente vão perceber que cometeram um erro, então a gente nunca vai entender a dinâmica da coisa. E certamente durante boa parte da campanha… Foi só no finzinho, eu acho, que os ativistas e alguns líderes do LP perceberam que eles tinham subestimado a vontade de muitos eleitores no norte da Inglaterra, que tinham votado pelo Brexit, de votar no Partido Conservador pra conseguir o Brexit. E de abandonar o LP, no qual eles vinham votando há muitos, muitos anos. Foi só no finzinho que eles começaram a perceber que talvez esses eleitores não iam votar neles. E não votaram mesmo. E o LP perdeu de lavada. Então eu acho que parte do problema é o fato de que eles subestimaram a disposição das pessoas em votar em qualquer partido que simplesmente prometia dar o que eles queriam, que era tirar o Reino Unido da UE.

 

Leticia: Você acha que os sindicatos vão se fortalecer depois disso, como uma reação a essa perda de conexão com os trabalhadores (que levou à vitória dos conservadores)?

 

Chris: Os sindicatos de categoria?

 

Leticia: Isso.

 

Chris: Não sei, eu acho que… Quer dizer, de certa forma eu acho que a resposta dos sindicatos pode ser que eles tenham que mudar o seu jeito de organizar e tentar e se reconectar com muitos eleitores, mas o tipo de mudanças que estão acontecendo em todo o movimento dos trabalhadores tem a ver, em parte, com políticas de derrotas do passado, certamente, especialmente as derrotas pra Margareth Thatcher, mas também tem a ver com a estrutura da sociedade britânica, que tá mudando, e com a dificuldade que os sindicatos têm de se organizar quando a sociedade não é mais reconhecível como uma sociedade industrial, onde você tem um esquema de classes muito claro. Esse novo tipo de sociedade, muito mais desorganizada, acho que é um problema com o qual o movimento sindical sempre teve dificuldade. E tem alguns, tem algumas tentativas de meio que recrutar trabalhadores que são, sei lá, flexíveis, ou trabalhadores em posições precárias, sim, os sindicatos estão sempre tentando se adaptar a essas coisas. Mas não tenho certeza, acho que a minha impressão é que pelo menos desde as eleições gerais não há nenhuma evidência de que os sindicatos ou o LP estejam realmente tentando mudar radicalmente o jeito deles fazerem as coisas. Acho que, pelo menos os candidatos parecem estar dizendo que, sim, precisamos repensar e nos adaptar, mas o lance de que o LP foi capturado por uma parte específica da sociedade e tá lutando pra conseguir falar com o resto da sociedade, eu acho que essa ficha ainda não caiu, pra ser sincero.

 

Leticia: Sim, nós vemos a mesma coisa acontecendo em outros países também, né. A esquerda tá meio que desconectada por causa dessa mudança nas sociedades como um todo, e são outros quinhentos no Brasil, porque nós não… Quer dizer, temos indústria, mas ainda temos muitos empregos precários, e muita gente que não estudou, e não temos um histórico longo de sindicatos e tal… É outra história. Mas de qualquer forma, vou fazer mais uma pergunta só e depois vou te liberar: e os zilhões de empregos que vão desaparecer com o Brexit, que é o que estamos ouvindo há muito tempo já, você acha que isso vai acontecer mesmo ou é algum tipo de terrorismo midiático pra fazer com que as pessoas mudem de ideia ou que tenham medo? Porque eu pessoalmente tenho muitos amigos que moram em Londres e muitos deles têm amigos que foram embora porque não têm certeza do que vai acontecer agora, especialmente com os vistos, mas com os empregos também. Porque as coisas tão mudando muito rápido e eles têm medo de não conseguirem mais ficar na Inglaterra, então estão indo pra outros países. E eles, os meus amigos dizem que isso vem acontecendo o tempo todo. Mas essas pessoas estão sendo substituídas por trabalhadores britânicos ou é só empresas fechando e empregos sumindo? Você acha que isso vai acontecer mesmo? Tá rolando nesse nível mesmo, das pessoas terem que ficar assustadas?

 

Chris: Hm, o maior impacto sobre as empresas, eu acho, e sobre a economia como um todo, sempre tem a ver com a incerteza. Então, de um ponto de vista mais geral, a economia do Reino Unido é razoavelmente robusta, é bem grandinha, tem muitos setores de ponta em nível mundial, e também é muito adaptável, por causa da flexibilidade desse mercado de trabalho. O que certamente tornou as coisas difíceis nos últimos anos é que têm havido muitos, muitos investimentos que foram colocados em stand-by, não necessariamente eliminados pra sempre, mas certamente colocados em stand-by, porque ninguém sabe como vão ficar as relações entre o Reino Unido e o seu maior bloco de comércio, que é o Mercado Comum Europeu. Esse tipo de incerteza não vai, eu acho, terminar no fim de janeiro de 2020, que é quando o Reino Unido vai sair da UE, porque tem um acordo de comércio que ainda tem que ser negociado com a UE. Pode ser que o acordo seja negociado rapidamente, ou não, mas eu acho que depois que houver uma certa quantidade de certeza sobre o tipo de relação que o Reino Unido vai ter com a UE, qualquer que seja essa certeza, qualquer que seja a forma que ela tomar, em parte porque… O medo, eu acho, é que haja um colapso total nas relações e o Reino Unido caia, mas isso foi evitado porque agora temos um rascunho de acordo, então pode ser que os medos apareçam de novo no fim do ano sobre o que vai acontecer se o Reino Unido não tiver um acordo antes de 2020 acabar. Mas mesmo assim, deixando isso de lado, mesmo se o acordo não for, sei lá, algo que as pessoas tenham idealizado, dependendo do setor onde elas trabalham, depois que você tem uma estrutura que dê certeza de um acordo, aí você começa a planejar pro futuro. Como eu disse, a economia do Reino Unido, bem, temos um mercado interno bem grande, mas também temos muitos setores competitivos, que eu acho que vão ser capazes de se adaptar. Em termos de migração, eu acho que é um pouco mais complicado. Acho que o impacto provavelmente vai ser ser mais sentido na composição da migração, e não no nível absoluto de migração propriamente dita. O Reino Unido tem um mercado de trabalho aberto e requer níveis muito altos de mão-de-obra de imigrantes pra se manter. É impossível conceber, da noite pro dia, que esses empregos hoje de imigrantes sejam substituídos por britânicos, porque eles simplesmente não existem. Ao longo do tempo, eu espero que as empresas britânicas comecem a investir mais em treinamento dos seus próprios funcionários, que é algo que elas sempre… Muitas delas conseguem evitar investir em qualquer tipo de treinamento, porque eles podem simplesmente ir contratar outra pessoa mais qualificada. E esse é um dos grandes problemas do mercado de trabalho aberto, eu acho, porque do ponto de vista do empregador, não do funcionário, mas do empregador, esse mercado é ótimo, porque você não precisa investir nos seus funcionários, basta contratar outra pessoa melhor, então os trabalhadores não têm poder de barganha. E desde 2016 a gente vem observando que os empregadores vêm investindo mais em treinamento e também em outros aspectos da tecnologia e da automação, simplesmente porque estão sendo forçados a fazer isso, a investir de maneiras que eles não precisavam fazer antes, porque eles podiam contar com mão-de-obra relativamente barata. Então eu acho que isso pode vir a mudar, e seria muito positivo, mas em termos de migração, acho mais provável que haja um tipo de… um efeito, que vai ser menos trabalhadores europeus vivendo no Reino Unido. Mas mais trabalhadores de fora da UE vão vir, então trabalhadores da América Latina, do subcontinente indiano, eles viriam e trabalhariam no Reino Unido simplesmente porque seriam tão competitivos quanto alguém vindo da UE, e então a composição da população de migrantes no Reino Unido pode se tornar um pouco menos europeia e mais global. Acho que é um efeito possível.

 

Leticia: Beleza. MUITO OBRIGADA pelo seu tempo, vou parar de gravar agora. Depois eu mando o link, quando o episódio sair, pra você ver como ficou.

 

Chris: Excelente.

 

Leticia: Obrigada MESMO, viu? O papo foi ótimo.

 

Chris: Prazer foi meu, foi ótimo conversar com você.

 

Leticia: Obrigada, ciao, tchau.

 

Chris: Tchau.  

 

Leia na íntegra a transcrição do nosso episódio sobre Brexit com Chris Bickerton, da Universidade de Cambridge (EM INGLÊS)

Tempo de leitura: 12 minutos

Para acessar a versão traduzida clique aqui

 

Leticia Dáquer: OK. So, hi, nice to meet you, should I call you Chris?

 

Chris Bickerton: Yes, Chris is fine, yeah.

 

Leticia: OK. We usually start by asking our guests to introduce themselves to our listeners, so if you could just say who you are, where you are, and why we’ve invited you..

 

Chris: So my name is Chris Bickerton, I’m based at the University of Cambridge, I teach and work and research mainly on contemporary European politics, uhn… and I’ve been following, I suppose, like everybody who’s interested in politics in the UK, the Brexit process, for the last 3 years, and I’m particularly interested in the response of the left, I suppose, to European integration and the position of the British left on Brexit.

 

OK, so you are exactly what we needed today.

 

Chris: Good.

 

Leticia: Thank God, thank goodness for Marta! OK, so, we would like to know, this is gonna be short because we still need to transcribe and translate this, like I told you, so, we… After watching a video, an interview with Galloway, and he was mentioning the need to go… to move… shift further to the left, because what we consider left today is not working. It’s too far away from workers, from people, it doesn’t communicate, it doesn’t… it can’t relate, it’s become… He talks about a bourgeoise left, which doesn’t really relate to what people are actually going through. So we need, according to him, a shift further to the left. Do you think that’s the case? Do you agree with him?

 

Chris: Ah, I think it’s probably a bit more complicated, I think that… The British Labour Party has done two things over the last few years, and they’ve been going in opposite directions. So, sociologically the party has definitely become dominated by quite young voters, based in urban centres, you know, based in big cities, in London, particularly, and some of the southern university towns… I suppose a kind of middle-class, intellectual, you know, quite young group of voters, but also especially the membership. Ideologically, though, the party has gone very much to the left, since Corbyn became leader, the Labour Party has really given up a lot of what we used to call “New Labour”, and has become much more committed to socialism, at least in the language of the party leaders, and the manifesto which they presented in the last… in the elections last month, was a pretty radical left-wing manifesto, committing itself to socialist transformation. So I think the problem with the LP is not that it’s become a bourgeois party the way that Galloway says, ahm, the problem is, if you wanna be more specific, is that you have this contradictory movement between its ideological lurch to the left and its sociological movement towards the centre.

 

Leticia: Hmmm OK. Why do you think that this… That the left has been dominated by this group of more intellectuals and so on, what’s happened? Why is it not dominated by workers and unions the way it’s… supposed to be, maybe, in people’s minds? When we think of the left, we think of workers, right, and what happened? Why is this a kind of intellectual elite now, that’s running things?

 

Chris: Yeah, it’s interesting, I think, there are probably lots of different reasons. The LP in the UK hasn’t given up its formal relationship to the unions. The unions, especially some of the unions, such as Unite, play a very important role in running the party, and the financial dependence of the party on the unions and the contributions the unions make still exists. So I suppose what I said about its kinda sociological transformation should be combined with the fact that, you know, its origins as a party set up by trade unionists, by workers, self-organising and self-representing, that still, I suppose, survives in this relationship they have to the unions. However, as we know, certainly in the case of the UK, the role that the unions play in structuring social life is very different from what it once was, and the effect of the Tory government in the 1980’s, on the British trade unions was very severe, and so unions I think exist as I suppose is sort of well-organised interest group, but they don’t have the same sort of command over society as a whole, something the British working classes, they used to. So you have this, the role that the unions play. For the rest, I think it’s probably a mix of different things, some of which has to do with the fact that when the LP transformed itself into this centrist party, this third-way Blairism of the 1990’s, Blair was running this party, which he was often fighting with. The activists were often ideologically much more to the left than the leadership of the party. And so what Blair tried to do was to try and cut out, if you like, the more sort of activist part of the LP membership, and made it much easier for members to join, it was possible to join the LP and not really do very much, almost like you would like, sort of, I don’t know, Amnesty International and pay your monthly contributions, it was very different from what it meant to be a party member, where you’d go to meetings weekly and were involved in organising the local party, committees and things. So he transformed the membership in that way, as a way of freeing himself of the LP and appealing much more directly to voters. What’s happened since Corbyn is that many people have joined the party and the election of the leader was opened up to ordinary members, rather than just of the members of the Parliamentary Parties, just MPs, and the nature of that membership I think has… is very different. It is much more sort of… activists and much more involved. And so I think there’s a kind of generation of people who are not necessarily representative of society as a whole, which is much more diverse and much… but nevertheless it’s quite an organised group, I mean… Groups like Momentum, which is a sort of national organisation in the LP, a generation of, you know, activists that have managed to really take hold of the LP and through the leadership have managed to create this much more radical party. However, the social sort of identity of these activists is what I described to you, you know. It’s kind of millennial, very London-based, very well educated, and very interested in, you know, ideas and sort of… connecting ideas with policies, and they have really no direct relationship, as far as I can tell, to other elements and structures in British society. And the failure, I think, of the LP was really that over time it became a kind of bubble, sociologically and ideologically. And when you test the bubble out in the general election, you realise that it’s just a bubble.

 

Leticia: Yeah. This is exactly what we saw in the first referendum, right? That London had a totally different result regarding the Brexit thing when you compared it to the rest of the country. And it happened again, right? In the second referendum. Nobody learned anything? Why didn’t things change between the two, what happened? Because maybe people expected a different outcome because we kind of understood what had happened the first time, and then it happened again. Is it something like ok, ‘so they wanna leave, just let them and they’ll see what’s good for them’, or something else failed even more than it had before. What do you think happened?

 

Chris: So when you say, when you talk about the first and the second referendums what do you mean exactly?

 

Leticia: Ah, because the first time it happened it was quite a shock, nobody was expecting it…

 

Chris: You mean the one in 2016?

 

Leticia: Yes! Because we saw a big difference between London and the rest of the country, and nobody was expecting that, because it didn’t seem… feasible to anyone that people would think about it and actually come to the conclusion that it would be a good idea to leave the EU, right? And then it happened again, and now we have Boris Johnson and we have all this stuff that nobody understands where it came from. So I… From what I’ve heard around here in Italy, some people were commenting on this, and in Brazil too, people are like “what happened?” Because we thought that we had understood what had happened the first time so maybe something was supposed to have been done to change it and to have a different outcome this time. And then, boom, so what happened?

 

Chris: I think, uhm… I suppose it’s a lesson in having to be a little bit… wary about the way you inform yourself, where you get information from… Because it’s possible, as I said, that people really operate in a kind of bubble. I think some of it has to do with sort of… misinterpretation, I think, of the original Brexit vote. So back in 2016 when people voted to leave the European Union, the reaction by many people who were very favourable to the European Union was that people had been misled, you know, they had been misled by these slogans, which were really just lies, and people were confused about what they were voting for, they were mistaken, and after three years it becomes more evident that, you know, that it was all a mistake, and therefore people will realised it and will vote differently. And I think we know from the very beginning that was a very dangerous reading of why people vote. I think people voted in large part because they decided that they did want to leave the European Union, and it was not really because they were mistaken, it was really about their views about the EU. Now if you fast forward to 2019, to the end of 2019, you had a lot of people who had gone through these years of, you know, parliamentary debates and negotiations and lots of votes that were rejected… and what they saw as this inability of Parliament to simply deliver the result of the referendum, and you had one party that said, look, we will get Brexit done, was their slogan. And if what you care about is leaving the EU, then you vote for the party that will take you out of the EU. And if your analysis is that people were just mistaken and now they certainly would realise that they made a mistake, then you’re never gonna understand the dynamics. And certainly throughout much of the campaign, it was only at the very end, I think, that the LP sorta of activists and some of the LP leaders realised that they had really underestimated the willingness of a lot of voters in the north of England, who’d voted for Brexit, to vote for the Conservative Party in order to get Brexit. And to abandon the LP that they may have voted for many, many years. It was only at the very end that they started to realise that maybe these voters are not gonna vote for us. And they didn’t. And the Party lost, you know, spectacularly. So I think part of it was really the fact that they underestimated people’s willingness to vote for any party that simply delivers what they wanted to happen, which was for the UK to leave the EU.

 

Leticia: Do you envision unions becoming stronger after this, as a reaction to this loss of connection with actual workers?

 

Chris: Trade unions, do you mean?

 

Leticia: Yes.

 

Chris: I don’t know, I think uhm… I mean, in some ways I suppose the response of unions might be that they need to change the way that they organise and try and reconnect, I suppose, with lots of voters, but the kind of shifts that are taking place across the labour movement as a whole are partly to do with the politics of past defeats, certainly, especially the defeats of them to Margareth Thatcher, but they’re also to do with the changing structure of British society and the difficulty that unions have, I think, to organise when society is no longer recognisable as an industrial society, when you have a clear arrangement of classes. This new sort of much more disorganised form of society I think is one that the union movement has always struggled with. And there’s some, I suppose, there’s some attempts to sorta recruit workers that are, you know, flexible workers, or workers that are, you know, in a much more precarious position, yes, unions are always trying to adapt to that. But I’m not sure, I think my impression is that at least since the general election, there isn’t any evidence that the unions or the LP is really trying to radically change the way they’re doing things. I think they, at least the candidates seem to be saying is that yes, we need to sorta rethink and adapt, but a real sort of recognition that the LP is in some way, I suppose, captured by a particular part of society and struggles to speak to much of the rest of society, I don’t know if that last bit is coming through, to be honest.

 

Leticia: Yeah, we see the same thing happening in other countries as well, right? The left is kind of disconnected because of this change in societies as a whole, and it’s a different story in Brazil, because we’re not… so far on, I mean, we have industries and so on, but we still have a lot of precarious jobs and a lot of people who haven’t studied much and we don’t have a long story of unions, of trade unions, and so on, so… It’s a different picture. But in any case, just one last question and then I’ll let you go, what about all these millions of jobs that are going to disappear after Brexit, which is what we have been hearing for a long time now – do you think this is actually going to happen or is this some kind of media terrorism to make people change their minds somehow, or be scared of it? Cause I personally have a lot of friends living in London and a lot of them have friends that have left because they’re not sure what’s gonna happen now, especially with their visas, but even with their jobs themselves. Because things are changing so fast, and they were afraid that they would not be allowed to be in England anymore, and so they just decided to move to other countries. And they, my friends say this is happening all the time. But are these people being replaced by people from the UK or is it just companies closing, shutting down and, you know, jobs disappearing? Is this really going to happen, do you think? Is it really happening to the point that people should be scared?

 

Chris: I mean, the principal sort of … impact on business, I think, and on the economy as a whole, is always to do with uncertainty. So, in the grand scheme of things, the UK economy is reasonably robust, quite large economy, that has, you know, quite a few sort of world-leading, you know, sectors, and is also very adaptable, because of the flexibility of this labour market. What’s made certainly things difficult over the last few years, what’s affected and vested sentiment, there’s been a lot of, sort of, a lot of investments that have been put on hold, not necessarily, you know, taken away forever, but certainly put on hold, has just been that nobody knows what the new relationship will be to the UK’s biggest trading block, which is the European Union single market. Now that sort of uncertainty won’t, I think, come to an end at the end of January 2020, when the UK leaves the EU, because there’s a trade agreement that needs to be negotiated with the EU. It may be that actually the agreement is negotiated quickly, or maybe less quickly, but I think once there’s a fair amount of certainty about the kind of relationship the UK will have to the EU, whatever that certainty, whatever form that takes, partly because… The fear, I think, is that there’s just a sort of a complete collapse in relations and the UK crashes out, in so far as that’s been avoided, because we now have a framework for an agreement, it may be that fears come up again at the end of the year, about what is gonna happen if the UK doesn’t have an agreement by the end of 2020. But nevertheless, if we put that to one side, even if the agreement is not one that, you know, people would ideally have wanted, depending on whichever sector they’re working in, once you get a framework for certainty, then you begin to plan for the future. Like I said, the UK has a generally, it’s quite a large internal market of its own, but it also has quite a few competitive sectors, which I think will be able to adapt. In terms of migration, I think it’s a bit more complicated. I think the impact I think is likely to be felt on the composition of migration, rather than the absolute level of migration. The UK has an open labour market and it requires very high levels of migrant labour to sustain itself. It’s impossible, I think, to really conceive, overnight, migrant labour would be substituted for British workers, they just simply don’t exist. Over time, I would hope that British companies would start to invest more in training their own employees, which they always… many of them managed to avoid investing in any sort of training, ‘cause they can always hire someone else. And that’s one of the great failures, I think, of an open labour market, is that for an employer’s perspective, not from the worker’s perspective, from an employer’s perspective it’s great, because you don’t have to invest in your own employees ‘cause they have no bargaining power, because you can just employ someone else. And we’ve seen already since 2016 that there’s been more investment by employers in training and also in some aspects of technology and automation, simply because they’re being forced, actually, to invest in ways that they didn’t have to before, ‘cause they could just rely on relatively cheap labour. So I think that’s something that may change, and that’d be very positive, but in terms of migration, it’s more likely I think that if there’s any sort of… there’s an effect, it’s gonna be that less EU workers will be based in the UK. But more workers from non-EU countries would come in, so workers from Latin America, workers from the Indian subcontinent, they would come and work in the UK simply because they would be as competitive as somebody coming from the EU, and so the composition of the UK’s migrant population could be a little bit less European and a bit more global, I think that’s a possible effect.

 

Leticia: OK. Alright, thank you VERY MUCH for your time and I’ll stop recording now. I’ll send you the link when we’ve published the episode just so you can see what it looks like.

 

Chris: Excellent.

 

Leticia: Thanks A LOT, ok? This was really nice.

 

Chris: My pleasure, good talking to you.

 

Leticia: Thanks, ciao, bye-bye.

 

Chris: Bye-bye.

 

olha o fim do mundo aí, gente!

Tempo de leitura: 3 minutos

 

À primeira vista, “Ideias para adiar o fim do mundo” pode parecer um título meio pretensioso pra um livrinho tão pequeno. Porque ele é pitico mesmo, de dimensões e de número de páginas – 72, com muitas páginas em branco no meio, ou seja, o conteúdo é curto.

Mas é uma delicinha de ler, e no fim das contas o título faz muito sentido. Ailton Krenak é um dos maiores pensadores indígenas brasileiros e esse livrinho na verdade é uma palestra que ele deu no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Também há textos transcritos de uma outra palestra e de uma entrevista, ambas em Lisboa. Ler esse livro é como ouvi-lo falar, o que é sempre muito gostoso, mesmo com o choque de realidade.

No nosso episódio sobre o fim da carne falamos sobre o nosso distanciamento das origens do que comemos, e de como essa desconexão da origem de tudo, na real, e não só da comida, é um problemaço. Esse pressuposto de que as coisas aparecem magicamente na prateleira do supermercado, sem entender a cadeia de produção, os mecanismos perversos por trás de tudo o que consumimos, trouxe a gente pro ponto no qual nos encontramos hoje, nesse momento da história do planeta em que a presença humana é mais nefasta e potencialmente devastadora do que nunca. Estamos pertinho da borda do precipício e continuamos achando que tá tudo bem, continuamos no piloto automático, sem prestar atenção no que acontece nos bastidores da vida capitalista.

Se é certo que o desenvolvimento de tecnologias eficazes nos permite viajar de um lugar para outro, que as comodidades tornaram fácil a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por uma perda de sentido dos nossos deslocamentos.

Né? A gente definitivamente precisa parar pra pensar sobre essas coisas. E quando você pára (esse acento caiu ou ainda tem? Gosto dele; vou deixar) pra pensar, que é o que esse livrinho te força a fazer, A Grande Ficha (TM Laerte) cai.

O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder.

Ou seja, todas as agruras do ser humano podem ser resumidas em “ninguém quer perder privilégios”. O que faz sentido, obviamente; abrir mão de coisas legais é sempre doloroso, assim como pedir desculpas, admitir um erro, mudar de opinião. Mas é exatamente disso tudo que estamos precisando, ou não conseguiremos adiar o fim do mundo. É preciso dar uma guinada radical no jeito em que fazemos meio que tudo, a mudança precisa ser estrutural, mas nada vai mudar enquanto não aprendermos a fazer essas coisas chatas e dolorosas – sendo que todas elas começam com a gente pensando no que está fazendo. Pensar é o que o capitalismo não quer que a gente faça, de maneira alguma.

E nossas crianças, desde a mais tenra idade, são ensinadas a serem clientes. Não tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis, babando.

Outro dia, na reunião de pais na escola da minha filha, uma mãe estava dizendo que “é muito fácil educar o filho dos outros, né”. Quase respondi, mas fiquei quieta. O lance é que educar não é difícil. É cansativo, coisa muito diferente. O mesmo vale pra ser um bom cidadão – não é difícil, mas é cansativo se policiar o tempo todo, principalmente quando a maioria das pessoas ao seu redor funciona na modalidade deambulando e defecando. Educar uma criança direito requer tempo, paciência e sim, aquela palavra tão esvaziada, empatia. Ser um cidadão consciente requer as mesmas coisas. É preciso pensar, refletir, se questionar, e nada disso é indolor – por isso é tão fácil pro capitalismo nos impedir de fazer essas coisas. É muito confortável pra gente simplesmente se deixar levar por um sistema que não nos incentiva a fazer coisas dolorosas e cansativas.

O lance é que não tá dando certo, né. Se por um lado o ser humano é naturalmente desesperado e já houve inúmeras ocasiões históricas em que parecia que o mundo estava pra acabar, dessa vez os números, os dados, estão comprovando que a coisa é muito séria. Eu tenho medo, de verdade, de pensar em que tipo de mundo minha filha vai herdar, porque eu não sei como ele vai ser. Não sei o que vai restar se a gente não se mexer AGORA.

Sim, sim, Sabrina nos ensinou que não são nossos canudos de inox e copos de silicone e hábitos de reciclagem que vão adiar o fim do mundo. Mas a necessária mudança estrutural tem que começar de algum lugar, tem que ser exigida por nós, e só seremos capazes de exigi-la se fizermos essas reflexões dolorosas. Então fica aí o recado do Krenak. Bora pensar.

Isso aqui a Globo não mostra – campos de concentração nos EUA

Tempo de leitura: 6 minutos
Oi, amiguinhos, já que a grande mídia brasileira só sabe falar de famosos e esqueceu como se faz jornalismo a gente vem aqui trazer procês uma história foda acontecida essa noite. Segue o fio que vai bem além da notícia!
O camarada da foto aqui é Will Van Spronsen, de 69 anos. Ele era montador de estruturas (leia-se carpinteiro), cantor folk e anarquista.
Detalhe no “era” na frase anterior: ele foi morto essa noite pela polícia em Tacoma, Washington, EUA.
Foto de um homem branco, careca, usando óculos escuros de armação retangular, barba e bigode grisalhos, blusa azul-marinho e um lenço azul-marinho com estampas brancas pequenas enrolado no pescoço. Ele está com a boca meio aberta, falando ao microfone. Está de semi-perfil. Atrás dele, um fundo com listras verticais, alternadas: rosa escuro e rosa mais escuro ainda.
SEGUNDO A POLÍCIA, ele invadiu o terreno do centro de detenção noroeste do ICE (US Immigration and Customs Enforcement) armado e portando um molotov. Lá ele tentou incendiar carros estacionados e e um tanque de propano; numa troca de tiros com policiais foi baleado e morto.

Aqui sempre vale ressaltar que essa é a versão da polícia e que a gente não tem a menor vontade de aceitá-la como verdade num primeiro momento.

 

Palavra de oficial juramentado valer mais que qualquer outra é o meu ovo esquerdo!

Duvidamos que ele de fato tenha feito isso?
Claro que não. Reprovamos a sua atitude?
Longe disso!Vamos ver qual a treta do ICE pra entender o que faria esse jovem senhor entrar em um dia de fúria. 

****** ALERTA DE GATILHO *****
******Daqui pra frente é bom ter estômago*****

Os Centros de Detenção do ICE são nomes gourmet pra campos de concentração. Lembra das histórias dos nazistas? Os EUA não estão fazendo muito diferente com os imigrantes que cruzaram suas fronteiras fugindo das crises sociais, econômicas e humanitárias da América Central.
Talvez a comparação dessas duas fotos dê a dimensão do rolê. Tem crianças sendo separadas das mães, tem gente morrendo sob custódia do governo. Mas são latinos, então foda-se, né.
Não vou nem me dar o trabalho de falar aqui sobre a política da merda do muro daquele filho da puta laranja. Não deixem cair no esquecimento os salvadorenhos Óscar Martinez e sua filhinha Valeria.
Mas acelerando a história. De uns tempos pra cá a mídia tem sido mais crítica com essa política de fronteiras fechadas, alguns por uma questão humanitária, alguns pelo absurdo da coisa e outros porque é uma ótima forma de bater em Trump – afinal, tem eleição ano que vem.
Talvez a gota d’água tenha sido o artigo feito dias atrás pela @propublica, no qual foi exporsto um grupo no FB criado por e para agentes de patrulha da fronteira. No grupo esses servidores públicos desfilavam todo o seu repertório de misoginia, racismo e extremismo nacionalista.
Logo mais quem entrou na brincadeira foi o @theintercept americano, expondo prints e algumas pessoas que eram figurinhas carimbadas do mesmo grupo. O bagulho era nojento e ia de piadas escatológicas até montagem da candidata @AOC (Alexandria Ocasio-Cortez) chupando o Trump (mais sobre isso nos nossos dois últimos episódios).

Esse é o post feito pelos colegas do @ggreenwald (Gleen Greennwald, do Intercept) lá na gringolândia

theintercept.com/2019/07/05/bor…

E não demorou muito pra bomba também explodir no colo da chefa da porra toda.

Depois desses escândalos a galera começou a ter umas ideias, sabe…
O mote era sempre esse: “Eles não conseguem parar todos nós”. Os fóruns se agitavam com pessoas empolgadas com a possibilidade de fazer um escarcéu e soltar milhares de pessoas. Infelizmente isso não havia passado do planejamento (até esse final de semana).
Tudo leva a crer que Will Van Sproensen incendiou alguns veículos que eram usados na detenção e remoção de pessoas e depois pretendia de alguma forma tentar libertá-los das garras desses agentes filhos da puta
Deu ruim, como todos sabem, mas até onde é conhecido esse é o primeiro caso de um cidadão americano morto o tentar libertar pessoas de um campo de concentração [dentro dos EUA].

A matéria do G1 diz: “No ano passado, este mesmo homem tinha sido condenado por obstruir a ação de um policial depois de uma briga durante um protesto em frente ao mesmo centro de detenção”.

Não é bem o que disseram as pessoas que presenciaram essa ação do ano passado.

Segundo os grupos de WA: “Others remember him from the protests outside the NWDC last summer where he was accused of lunging at a cop and wrapping his arms around the officer’s neck and shoulders, as the officer was trying to arrest a 17-year-old protester. “
“The very next day when he was released from jail he came right back to the encampment outside the center to support the other protesters.”
It’s doubtless that the cops and the media will attempt to paint him as some sort of monster, but in reality he was a comrade who fought for many years for what he believed in and this morning he was killed doing what he loved; fighting for a better world.”
Esses depoimentos, assim como a frase lá 245 tweets atrás, dizem a mesma coisa: não negamos, mas não achamos errado.
Mas se a gente não nega, qual o problema em tomar a versão policial como verdade?
Boa pergunta. Que tal então a gente usar o recurso tecnológico e olhar as câmeras?
Pois é… CURIOSAMENTE ainda não houve nenhuma informação oficial sobre as imagens de câmeras de torso dos quatro policiais envolvidos no tiroteio que matou Spronsen, mesmo que a legislação do estado de Washington diga que todos usam câmeras.
Bem, fica a questão pra se pensar aí, prefiro assim do que dar respostas prontas. No mais, tirem o resto do dia pra pensar o que vai acontecer. Será que temos um novo mártir? Como o governo reagirá? E a extrema direita? Dias tenebrosos vêm aí.

(A porra do Tuinto tá me sacaneando e dizendo que eu atingi o limite de uma thread. O limite é meu e eu que decido quando acabou)

Segue aqui uma reflexão de Spronsen de 2011:

View image on Twitter

Eis aqui o manifesto escrito por Spronsen antes do ataque. Confesso que meus olhos marejaram:

View image on TwitterView image on TwitterView image on Twitter

a base do trabalho de base

Tempo de leitura: 4 minutos

 

Houve (não paguem o mico que os dois jumentos, o Conje e o Weintraub, pagaram recentemente falando “houveram”, “haviam” etc. Em tempo: não são jumentos porque não sabem usar o verbo haver corretamente, e sim porque, sendo um, TEORICAMENTE, um juiz, que TEORICAMENTE passou numa prova dificílima, e o outro um ministro da educação, esse tipo de erro é imperdoável, e também porque já deram N provas da sua jumentice) duas coisas no meu dia ontem que me deixaram pensativa, estilo Dimitra Vulcana.

Lá pra hora do almoço, depois da academia, passei na lojinha onde compro minhas sementinhas pra pseudopanqueca do café da manhã. Tava chovendo – vem chovendo todos os dias desde segunda – e o dono, que já meio que conheço porque passo lá mais ou menos uma vez por semana, tava sentado vendo televisão atrás do balcão. Perguntei se a chuva tava atrapalhando o movimento; ele respondeu que sim, mas que também tinha receio de rolar alguma confusão mais tarde, por causa da manifestação #30MpelaEducação. Falei que ia, lógico; jamais perco a chance de engrenar numa conversa desse tipo. Deu-se o seguinte diálogo:

Cara: Pois é, minha filha também vai… Ela estuda Letras na UFPR mas eu tô achando ela muito radical.

Eu (usando minha técnica de fazer uma pergunta em vez de dar uma resposta pronta): Defina “radical”.

Cara: Por exemplo, ela foi a uma manifestação um dia e voltou com um olho roxo. Disse que caiu da bicicleta, mas eu acho que apanhou da polícia.

Eu: Mas se ela apanhou da polícia, me parece que radical foi a polícia que bateu numa FUCKING ESTUDANTE, não?

Cara: …

Eu: Imagino que ela deva estar preocupada com o futuro dela na faculdade, né.

Cara: Sim, ela tinha conseguido uma bolsa de pesquisa, mas foi cortada.

Eu: Pois é, temos o único governo do sistema solar que quer resolver os problemas da educação CORTANDO FUNDOS PRA EDUCAÇÃO.

Cara: …

 

Saí de lá tentando entender o limite da falta de compreensão de mundo de quem pensa dessa forma. Como é possível alguém chamar de radical a própria filha que APANHOU da polícia por estar protestando pelos direitos QUE ELA TEM SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO FEDERAL? Como é possível chegar nesse ponto extremo de incompreensão, de falta de lógica, de ausência de bom senso?

Mais tarde, ouvindo o Fora de Prumo sobre o ataque às universidades, me peguei concordando com a participante (só reconheço a voz do Gabriel ainda, sorry, zente) quando ela diz que não é só uma questão de simplificar o discurso. Frequentemente nos encontramos na situação de explicar conceitos básicos pra gente que nunca estudou direito, que tem dificuldade de interpretação não só de texto, mas também de fala, que não entende o conceito de longo prazo, de efeito cascata, de consequências indiretas. Fiquei pensando nisso o dia inteiro ontem. Lembrei de um livro que li quando fiz a matéria de sociologia na faculdade de Comunicação Internacional na Itália (não terminei o curso, mas fiz várias matérias bem maneiras), chamado Orality and Literacy, de Walter J. Ong. Lembro que quando fui fazer a prova (oral, porque lá é tudo assim) contei uma história do meu sogro, que estudou pouquíssimo e tem muita dificuldade em entender conceitos um pouquinho mais abstratos (e é disso que fala o livro). O professor, que era da minha idade, riu e disse que tinha tido uma conversa semelhante recentemente, quando foi papear com um cara que criava porcos. O prof perguntou quanto vivia um porco, e o fazendeiro respondeu, sei lá, 6 meses – a idade em que o porco está pronto pro abate. Jamais passou pela cabeça dele que se não for abatido, o porco pode viver muito mais que isso, porque pra ele porco serve somente pra comer, não existe porco além disso.

Segundo o livro, que recomendo vivamente, uma característica da vida sem a escrita (que obviamente depende da leitura) ocupando um papel importante é a dificuldade de entender conceitos abstratos.

Planejamento requer pensamento abstrato.

Compreender o conceito de longo prazo requer pensamento abstrato.

Entender consequências, diretas e indiretas, requer pensamento abstrato.

Quem está preocupado, justamente, em botar comida na mesa HOJE, AGORA, não tem nem matéria-prima e nem motivação pra pensar a longo prazo. A instabilidade da vida nos torna excessivamente pragmáticos – e estou dizendo isso enquanto pessoa excessivamente pragmática, embora de um outro jeito, digamos assim. Quando você nunca sabe o que vai acontecer amanhã – vão congelar a sua poupança? Vão aumentar em 10 anos o tempo que você vai levar pra se aposentar? Vão cortar o SUS? Vão cortar a merenda da escola do seu filho? – não faz o menor sentido se preocupar com o amanhã. Quando o amanhã chegar, a gente encara.

Essa volta toda pra chegar no que o pessoal do Fora de Prumo comentou. O problema não é só uma questão de simplificar a linguagem. Usar de uma linguagem simples pra explicar um conceito básico que a pessoa simplesmente não é capaz de compreender porque lhe falta motivação, matéria-prima, uma fundação de conhecimento, não vai ajudar a fazer o conceito entrar na cabeça do interlocutor. Simplesmente não vai.

O resultado a gente viu nessas últimas eleições.

Tenho respostas? Sorry, não tenho. Mas essas são questões que já vinham flutuando, amorfas, na minha cabeça há um tempo. Ontem os acontecimentos do dia me fizeram organizar um pouco mais essas ideias e quis compartilhar aqui. O que a esquerda chama de trabalho de base na verdade é algo de BEM mais complexo e difícil, a meu ver. Eu não sei nem por onde começar.

O que vocês acham?

em boa companhia

Tempo de leitura: 2 minutos

 

Ao que parece, 2019 vai ser o ano do podc… Não, péra.

Pra gente esse tá sendo o ano da leitura. Estamos tentando participar o máximo que podemos do desafio de leitura de autoras mulheres que as meninas do As Desqualificadas estão fazendo, e eu pessoalmente venho fazendo resenhas dos livros que estou lendo, que façam ou não parte do desafio, como maneira de me estimular a ler mais. Netflix e redes sociais sugam a gente; quando a gente olha já passamos uma semana inteira sem ler nada.

Not today, Satan! Esse ano estamos atacados, duas máquinas de ler devorando um monte de gêneros diferentes. Por isso veio muito a calhar a parceria que fizemos com a Companhia das Letras.

(Por falar em Companhia das Letras, ouçam o podcast deles, que a gente já ouvia muito antes dessa parceria rolar. As entrevistas são sempre muito boas.)

Eles tavam atrás de produtores de conteúdo pra falar dos livros deles; tivemos sorte de entrar no grupo dos parceiros pra esse projeto e todo mês recebemos um e-mail com um catálogo do qual podemos escolher um livro, sobre o qual depois falamos no podcast. O livro de fevereiro eu escolhi junto com o Thiago e o episódio que fala dele, ou melhor, que vai partir do livro pra expandir o assunto central da história, vai ser gravado antes do final do mês, com convidados que cês não vão acreditar, cês não tão entendendo. O livro de março está sendo votado na Pistolândia, o grupo dos nossos catárticos no Telegram, enquanto digito esse post.

(Falando em catárticos, estamos muito precisados de mais apoio, principalmente depois do assalto desse fim de semana. Thiago precisa de um celular novo e de uma escrivaninha pra poder editar de casa, em vez de ficar no trabalho até onze da noite pra aproveitar os móveis ergonômicos da empresa.)

O legal é que os títulos disponíveis são sempre muito variados e temos que nos virar pra encaixá-los no nosso formato, no nosso estilo. É um ótimo exercício de criatividade e um desafio pra gente (leia-se “sarna pra se coçar”, mas a gente gosta). É também a oportunidade de fazer algo diferente, pois se por um lado ideias pra pauta não nos faltam, por outro é bom ter um ponto inicial concreto a partir do qual podemos ir pra várias direções diferentes na hora do debate, já que o tema central do livro pode ser explorado de ângulos variados que muitas vezes não teríamos levado em consideração se não fosse o livro.

Nem gravamos o primeiro ainda e já estamos mega animados 😀

Então fica aí a mensagem: leiam mais, ajudem a gente no Catarse, divulguem pros amigos, sigam a gente no Twitter e no Instagram e fiquem de olho no feed, porque vem coisa aí que cês não tão esperando não 😉

qual é o seu feminismo?

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Eu moro na internet, vocês sabem. Estou em vários grupos diferentes, alguns só de mulheres. São safe places pra nós, principalmente pras mais sensíveis de nós – não me incluo nessa categoria, mas sempre me sinto honrada de ser convidada pra participar deles.

Em um desses grupos passamos um bom tempo semana passada nos indignando com ômis fazendo omices em outro grupo do qual todas participamos, e onde somos minoria de gênero. Nada de altamente ofensivo, mas aquelas coisinhas de sempre: piadinhas de duplo sentido, menosprezo pelas nossas dúvidas e perplexidades, manterrupting, mansplaining, ômi ignorando solenemente as nossas contribuições. Passamos alguns dias indignadas e reclamando deles no nosso grupo. Até que umas três ou quatro delas, todas mulheres que admiro muito e cuja trajetória acompanho há tempos, vieram dizer que estavam cansadas do clima pesado que tava rolando no grupo e perguntar se não era o caso de dar uma acalmada e tentar chamar os caras no pvt, dialogar, explicar, lançar mão de comunicação não-violenta.

Não é uma estratégia na qual estou disposta a insistir.

Quem me conhece tá careca de saber que eu sou impaciente pra cacete, mas talvez vocês não saibam que a única coisa que eu adoro mais do que me irritar é explicar, ensinar. Eu já respirei fundo inúmeras vezes pra explicar o óbvio pra quem está láaaa no comecinho da desconstrução.

E vou dizer uma coisa:

CANSEI.

Sabe, essa virou mais uma função que jogam nos nossos ombros: explicar, ensinar. Ser babá intelectual de homem-menino que nem a responsabilidade de se educar quer assumir. Eu não quero mais isso. A única pessoa por cuja educação eu sou diretamente responsável é a minha filha. Estamos em 2018; a desculpa “desinformação e desconhecimento” não cola mais pra justificar machismo, racismo, homofobia e escrotidão generalizada.

Entendam: não estou de maneira alguma dizendo como você, mulher, deve se comportar, obviamente, mas eu, EU, Leticia Dáquer, JAMAIS serei aquela que sai do grupo porque os machos são escrotos. Jamais. Esperem sentados, porque não vai acontecer. Esse não é o meu feminismo. Eu sou aquela que vai começar questionando de leve, e depois vai distribuir voadoras nucleares, cadeiradas na gengiva, traulitadas na fuça, em quem insistir no comportamento imbecil. Eu não tenho mais saco pra discutir o óbvio com homem cretino. Não tenho mais paciência nem energia pra ensinar macho a não ser escroto. Não quero mais esse fardo. NÃO SOU OBRIGADA.

Pensem em quantas coisas a gente (nós, mulheres) não poderia estar debatendo, descobrindo, discutindo, aprendendo, ensinando, se não tivesse que perder tempo rebatendo argumentos idiotas e nos defendendo de ataques machistas. Quanta coisa mais produtiva poderíamos estar fazendo! Mas não, estamos aqui gastando saliva explicando pra gente escrota que ser escroto é ruim. Na boa, não. Não vou ser eu a encarnar mais esse papel. Tô fora. São pouquíssimos os homens que merecem esse esforço. Se você conhece algum, vai na fé, eu também já conheci e fui na fé e não me arrependo (inserir o gif da galinha rodando na discoteca com os dizeres I REGRET NOTHING). Mas a imensa maioria simplesmente não quer saber. A imensa maioria é comentarista de portal, e com comentarista de portal não existe CNV suficiente na Via Láctea. A gente fica perdendo tempo e energia com esses cretinos e deixando de fazer outras coisas mais produtivas, mais maneiras, mais enriquecedoras.

Vou citar aqui o livro que estou lendo, que foi a minha dica cultural do último episódio (que por sinal ficou tchutchuco e se você não ouviu ainda, tá perdendo):

Minha tradução livre: O tipo de compaixão que é útil para homens e meninos que estão tentando escapar de um mundo de violência, misoginia e constipação emocional não é a compaixão de um padre que perdoa os pecados, mas a de um médico que olha para um idiota que esperou demais antes de procurar ajuda para uma ferida purulenta e diz, com firmeza e precisão: sinto muito, mas vai doer.

Não existe maneira indolor de sair do machismo. Não vai ser saindo de grupos povoados de homens escrotos, nem chamando no pvt pra uma conversa longa e cansativa que não vai dar em nada e que só ele vai ler – se é que vai ler, nem fingindo que não é com a gente, que as coisas vão mudar. É isso o que eles querem: que a gente recue, deixe de ocupar espaços, evite o confronto. Existe esse feminismo de bastidores também, que faz esse trabalho de formiguinha, e admiro quem tem esse tipo de paciência, mas não é o meu.

Eu acho que tem que expor. Tem que jogar na cara. Tá sendo escroto no grupo? Mostra ao grupo o quão escroto ele tá sendo. Faz ele passar vergonha com os amiguinhos. Não importa se os amiguinhos o apoiarem, num exemplo de broderagem idiota; COM CERTEZA alguma moita no grupo (todo grupo tem moita) vai ler e vai pensar sobre o assunto, se bobear vai rolar até a proverbial botada de mão na cabeça, a reboladinha e o exame de consciência. Depois de mil mulheres reclamando da mesma coisa, de repente – de repente, talvez, quem sabe – eles entendam que trata-se de um problema real, e não de mimimi de feminazi.

Eu tô amando esse livro. Não sou uma estudiosa do feminismo, mas muitas coisas que ela diz eu já li antes; não há grandes insights até agora (ainda estou na metade). Só que, ao contrário de outras autoras pacatas que eu já li, ela tá putaça, e eu não consigo tirar a razão dela. Eu não entendo por que diabos não estamos todas tão putaças a ponto de parar o mundo inteiro. Qualquer jornal de qualquer país do mundo conta histórias de arrepiar os cabelos envolvendo mulheres se fodendo, porque vocês sabem, Sócrates já dizia, mulher só se fode. É todo dia, o tempo todo, no mundo todo. Por que diabos não tacamos fogo em tudo ainda? Não sei. Acho que nos falta raiva, de verdade.

NÃO VAI SER COM PALAVRINHAS DE AMOR E FLORES NO CABELO QUE VAMOS MUDAR O MUNDO. Infelizmente não vai, sinto muito. Concordo plenamente com a Laurie Penny, autora do livro acima: vai ter que espremer o furúnculo pra sair o carnegão, vai doer pra cacete, vai todo mundo ver estrelas de dor. Mas ficar passando pomadinha homeopática e dizendo que vai passar não vai resolver o problema.

E como a nossa descrição já diz, acreditamos que há pontes que precisam ser queimadas, e não construídas. “Ain mas é a minha opinião” – não. Ser escroto não é opinião. Interromper mulheres o tempo todo não é opinião. Menosprezar o sofrimento das mulheres não é opinião. Chamar a sua ex de maluca quando o idiota da relação foi você não é uma opinião.

O Ivan do Anticast comentou em um programa que ele só foi ter uma vaga ideia do que realmente uma mulher experimenta quando anda sozinha na rua quando a mulher dele, na época namorada ainda, disse “então faz assim, eu vou andando sozinha na frente e você vai me seguindo a uma certa distância, só observando”. Ele ficou horrorizado com o tanto de comentários que ela ouviu de homem que acha que chamar mulher de gostosa na rua super vai fazer ela se apaixonar por ele e tirar a calcinha na hora. Doeu assistir àquilo (sim, é crase)? Doeu. Ficou incomodadíssimo. Ela já tinha explicado a ele várias vezes, e ele não tinha entendido. Precisou ver com os próprios olhos e sentir o desconforto, o incômodo de assistir à cena pra começar a mudar de ideia. E isso porque o Ivan é gente boa. Se com homem gente boa só a gente falar não adianta, por que vocês acham que vai funcionar com o macho escroto?

Bora espremer o carnegão então. Sem anestesia.

P.S.: Muitos beijos pra mulherada do Vários Assuntos Ovariados e pra Julie do Bora Marcar?

 

#ativismonaweb

Tempo de leitura: 9 minutos

 

Um dos muitos problemas recorrentes fora da minha bolha da podosfera esquerdopata gayzista marxista miçangueira é a dificuldade de conversar seriamente sobre temas que os coxinhas classificam sob o termo guarda-chuva “mimimi”. Um desses temas é a cultura do estupro. Já tentei introduzir o assunto muitas vezes no grupo dos médicos, por exemplo, mas um deles, um ser execrável de quem tenho vergonha de ter sido muito amiga por muitos anos, rebate com os clássicos não-argumentos da direita quando se toca nesse tópico. Ele é o clássico macho escroto que ficou pra trás quando o mundo andou: era aquele politicamente incorreto que todo mundo achava engraçado, a maior parte das pessoas entendeu que ele não tem mais graça, foi largado lindamente pela mulher e ainda levou um divórcio-relâmpago na fuça, e desde então foi só ladeira abaixo. Hoje é aquele homem-criança ridículo com senso de humor estilo Trapalhões, que baba quase que literalmente quando qualquer mulher passa ao lado dele e chama de feminazi qualquer uma que tenha dignidade e não dê trela pra sua figura patética. Como eu não tenho paciência pra discutir com macho escroto intelectualmente desonesto, acabo largando de mão.

Mas a gente PRECISA falar sobre cultura do estupro. O termo não é novo e nem brasileiro; foi cunhado pelas feministas da segunda onda nos EUA, o que já demonstra uma certa universalidade do patriarcado, onipresente quando se trata da nossa espécie.

O mundo é machista. Como já dizia Confúcio, mulher só se fode. Sempre estivemos na berlinda, sempre sofremos caladas, sempre fomos consideradas seres inferiores, objetos a serem possuídos, bibelôs/trophy wives, úteros ambulantes, a lista é longa e muito, muito triste. Nunca fomos ouvidas. Nossos anseios, nossas dificuldades, nossos desejos nunca foram levados a sério – nunca. Somos interrompidas O TEMPO TODO – outro dia mesmo estava assistindo à live da votação daquele abomínio do Escola Sem Partido e as deputadas mulheres eram interrompidas muito mais do que os homens. Quem não se lembra da entrevista da Manuela D’Ávila no Roda Viva, em que ela foi interrompida 12.394 vezes?

Mulheres dificilmente são criticadas (ou elogiadas) pelo que dizem ou fazem; as ofensas inevitavelmente caem pro nível pessoal, e SEMPRE acabam em sexismo. Até o vocabulário usado pra homens e mulheres é radicalmente diferente: mulher é vaca, piranha, cachorra, cadela, vadia, baranga, mal comida. Homem é garanhão, pegador, comedor. Não venham me dizer que nunca repararam nisso, pois ficarei decepcionada.

Não acertamos nunca: se não quisermos filhos, somos egoístas. Se quisermos filhos e deixarmos de trabalhar pra ficar com eles, somos preguiçosas. Se quisermos filhos e formos trabalhar fora, somos acusadas de negligenciar os filhos (me cobrem mais sobre esse assunto no futuro, por favor). Se quisermos um filho só, é triste porque filho único, né, ninguém merece; se quisermos muitos filhos, somos loucas, quem vai tomar conta, como vamos pagar as contas etc etc. Se dedicamos tempo pra ir pra academia, somos chamadas de superficiais, alá, se trabalhasse mais não teria tempo pra malhar. Se formos sedentárias, alá, toda largada, sem um pingo de vaidade. Se nos arrumamos muito, somos fúteis; se não nos arrumamos, somos molambas. Botem a mão na cabecinha e pensem em quantos homens vocês conhecem que estão sujeitos a essas mesmas críticas da mesma maneira.

Nunca somos levadas a sério: mulher bonita não é levada a sério porque se é bonita, é burra; mulher feia não é levada a sério porque deve ser mal comida e portanto rancorosa e fala as coisas por raiva e não de maneira racional.

Essa ausência de voz, essa dificuldade imensa em nos fazermos escutar, nos deixa numa posição extremamente vulnerável. Um número imenso de mulheres que sofrem abuso e violência de todo tipo – sexual, psicológico, verbal, financeiro – nem se dá ao trabalho de denunciar o agressor. Sabem que não acreditarão nelas, sabem que vão perguntar que roupa estavam usando quando aconteceu, sabem que a culpa, no final das contas, vai ser dada à vítima. Há MUITOS relatos na internet de mulheres contando como foi a tentativa de BO em delegacias, inclusive em delegacias da mulher. Contando como foi terrível ter que entrar em detalhes, ter que aguentar os olhares que as culpabilizavam pelo ocorrido, ter que responder a perguntas cretinas, ter que quase que pedir desculpas por terem-se deixado estuprar. O resultado é que o número de casos de feminicídio é, compreensivelmente, subnotificado. Vejam bem, não é só no Brasil – como já estamos carecas de saber, o mundo inteiro é machista.

Não é só no Brasil, mas aqui o bicho pega de maneira bem escancarada. Nossos números são absolutamente escandalosos, e o Grandíssimo Saco de Merda recém-eleito certamente não vai ajudar a melhorá-los. Quando um desgraçado machista lidera o seu país, você se sente autorizado a ser machista também. A tendência é piorar.

Esse meu ex-amigo desprezível é daqueles que acham que o termo feminicídio é desnecessário porque já existe homicídio, que contempla qualquer ser humano vítima de assassinato (o interessante é que ninguém contesta a existência do termo latrocínio, que é matar pra roubar – a motivação é diferente, logo o termo é diferente). Você que tá lendo isso aqui provavelmente entende o motivo da necessidade de um termo específico pro assassinato de mulheres, mas pro caso de não entender, ou de ter que explicar pra alguém, vamos lá: enquanto que sim, é verdade que morrem assassinados mais homens do que mulheres, também é verdade que homens que matam outros homens o fazem por mil outros motivos – roubo, tráfico de drogas, brigas idiotas em bar – que não o simples fato do outro ser um homem. Mulheres mortas pelas mãos de homens morrem por serem mulheres – e portanto por serem consideradas objetos descartáveis, seres cuja vida não tem valor, não-pessoas que servem para serem violentadas, exploradas, e depois eliminadas (ou trocadas por outras mais jovens, como nosso atual presidente e como o Grandíssimo Saco de Merda ilustram perfeitamente). Quando uma mulher é morta pela sua condição de ser mulher – o ex-namorado que não aceita o fim do relacionamento, o marido que não aceita uma nova gravidez, o pai que não aceita que a filha saia à noite com os amigos – isso requer uma nomenclatura diferente. Feminicídio, portanto. Vejam bem: o ex-namorado não aceita o fim do relacionamento porque ele, homem, não pode ser descartado por ela, mulher; afinal de contas, quem manda é ele. O marido que não aceita uma nova gravidez está primeiramente tirando o dele da reta, como se ela tivesse engravidado sozinha; além disso só quem tem útero engravida, logo a “desculpa” “matei porque ela engravidou” só funciona pra mulheres (e outras pessoas com útero, mas vocês entenderam). O pai que mata a filha porque ela saía de minissaia com os amigos à noite se justifica dizendo que isso não é comportamento de mulher séria – se fosse o filho homem esse tipo de comportamento não seria um problema, ou seja, ela só morreu porque era mulher.

Se vocês acham que isso é frescura, me digam quantos casos conhecem de pais que mataram seus próprios filhos homens pois esses engravidaram a namorada ou porque querem sair à noite com os amigos ou porque usam short curto demais. E não, não estou falando de pais que matam filhos gays; a homofobia tem uma ligação muito estreita com o machismo porque o maior defeito do homem gay é ser visto como “mulherzinha”, e ser mulherzinha é errado e feio. Ser mulher é visto como uma coisa ruim, ponto.

Mulheres apanham de seus companheiros rotineiramente e muitas não têm condições financeiras e/ou psicológicas pra sair de um relacionamento abusivo. É fácil pra gente olhar de fora e se perguntar “mas por que ela ainda tá com esse cara?”, convenientemente esquecendo que se ela não tem como se bancar sozinha, não tem como sair de casa; se ela tem filhos, isso complica imensamente uma fuga; se ela sabe que vai ser perseguida e assassinada, ela não vai fugir. Eu e você que estamos lendo somos, provavelmente, brancos, estudados, com família relativamente estável. Temos pra onde fugir. E mesmo assim quantas de nós mulheres brancas de classe média não desistimos de sair de  relacionamentos abusivos ou simplesmente ruins porque é TÃO complicado e doloroso e logisticamente difícil sair deles que nos parece menos terrível permanecer numa situação desagradável, porém conhecida?

Cultura do estupro é isso tudo. Objetificar mulheres faz parte da cultura do estupro, pois um ser humano tratado como objeto, desumanizado, é mais facilmente oprimido e eliminado. Culpabilizar a vítima faz parte da cultura do estupro, pois livra de responsabilidade quem realmente cometeu o crime, o que significa que provavelmente vai cometer de novo. Desprezar o sofrimento alheio faz parte da cultura do estupro – a partir do momento em que você deixa claro que acha frescura se incomodar com pequenos atos diários de machismo, está limpando a sua barra pra continuar cometendo esses atos, afinal de contas a culpa é de quem se ofende por qualquer coisa. Aquela broderagem maneira, sabe, ver o colega mostrando foto da amante pelada na cama que ele tirou escondido e não repreendê-lo, não tomar o lado da colega de trabalho que foi ofendida pessoalmente por outro colega usando termos machistas, dar penas leves pra quem cometeu crimes hediondos contra mulheres (leia-se passar pano pra macho) contribui pra cultura do estupro.

Sabe o que mais faz parte da cultura do estupro? Esses nossos pequenos machismos cotidianos, o uso de termos machistas no nosso vocabulário corrente, falar coisas aparentemente inocentes como “olha só o Robertinho, 1 aninho e já gosta de mulher, vai ser um garanhão”, “essa Renatinha vai dar trabalho, hein, é bonita demais”, a hipersexualização de crianças (e uma ramificação disso é a tara por mulheres totalmente depiladas, vamo combinar).

O fato de termos que criar leis específicas pra proteger mulheres não é mais do que um reflexo dessa cultura que normaliza o assédio e a violência. Há uns meses estive com a Ana Cardoso num evento da Defensoria Pública do Paraná em que foi criado um projeto pra proteger mulheres vítimas de abuso, e a Maria da Penha contou a sua história, que é sempre muito dolorosa de ouvir. A lei com o nome dela é admirada em todo o mundo, mas o fato de que tenha sido preciso criar uma lei desse tipo é incrivelmente triste. Foi preciso criar uma lei que torna crime ejacular em público (leia-se ejacular em cima de mulheres no ônibus, uma coisa que acontece com uma frequência BIZARRA no Brasil). Os vagões rosa (CHER DO CÉU, COMO EU ODEIO ESSA MANIA IDIOTA DE SEM-PRE USAR ROSA PRA REPRESENTAR MULHERES. Em tempo: “rosa” usado como adjetivo não vai pro plural, tá? Então é “vagões rosa” mesmo, assim como seria “vagões cinza” e “vagões laranja”, porque esses adjetivos são derivados de substantivos. Obrigada, de nada) no metrô do Rio e em outras cidades no mundo inteiro são um exemplo. Em vez de ensinar os homens a não encoxarem as mulheres no transporte público, cria-se um vagão só pra elas, coitadas. E pensar que ainda criticamos os muçulmanos por todas as atitudes que tomam pra “proteger” as mulheres, pois os pobres homens de merda não conseguem se controlar, são regidos pelos seus pênis, ó vida, ó céus.

 

Não somos tão diferentes deles não, na real. Homens não querem perder seus privilégios – leia-se não querem perder o direito de assediar mulheres – e por isso no fim das contas quem tem que esperar o vagão rosa (porque se sofrer assédio em outro vagão certamente irão perguntar MAS POR QUE VOCÊ NÃO ESTAVA NO VAGÃO ROSA? SE ESTIVESSE NO VAGÃO ROSA ISSO NÃO TERIA ACONTECIDOZZZZZZZZZZZ), tem que cobrir a cabeça, tem que usar vestido até o pé, somos nós mulheres.

Espero estar deixando claro que o fenômeno é mundial, embora no Brasil as coisas sejam particularmente ruins. Dar nome aos bois e usar a terminologia correta – feminicídio, estupro, abuso – ajuda. Parar de interromper mulheres ajuda. Educar seu filho homem não pra ser pegador, mas pra respeitar todo mundo, ajuda. FALAR SOBRE GÊNERO NA ESCOLA AJUDA, mas nem isso teremos, com o governo do Grandíssimo Saco de Merda vetando qualquer tipo de conversa útil nas escolas.

Pra chegar ao macro, precisamos partir do micro. Pra conseguir grandes mudanças na sociedade, é preciso que a gente mude também. É importante prestar mais atenção ao que dizemos, a como nos comportamos – principalmente se você, leitor, for homem. Não seja o macho escroto. Não interrompa quando uma mulher estiver falando. Não explique a uma mulher uma coisa que ela sabe melhor que você. Não use termos como “aquela vaca”, “aquela piranha”. Não deixe de denunciar o amigo que fez revenge porn. Não seja esse macho escroto.

Micro também significa ativismo online. Por isso gravamos um episódio com a Aline Hack do podcast Olhares, falando sobre justiça reprodutiva. O episódio saiu antes da campanha #ativismonaweb começar e vocês já devem ter ouvido, mas isso não faz a menor diferença, porque esse assunto é atual sempre e deveria ser discutido todo fucking dia. Segundo o site oficial da Câmara, “A campanha, realizada em escala mundial de 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, a 10 de dezembro, data em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, também tem o objetivo de propor medidas de prevenção e combate à violência, além de ampliar os espaços de debate com a sociedade.” Não é mimimi de feminazi brasileira. É uma campanha mundial, porque o problema da violência contra as mulheres é mundial. No Brasil a campanha começa dia 20 pra pegar a onda do Dia da Consciência Negra, hoje, 20 de novembro. Nossa campanha aqui é mais longa porque no Brasil as mulheres negras sofrem muito mais violência do que as brancas.

Pra participar da campanha, usem seus canais de comunicação pra discutir o assunto e usem as hashtags da campanha nas mídias sociais. Quando forem divulgar esse texto e o nosso episódio de justiça reprodutiva (e eu sei que vocês vão divulgar, porque vocês são gente boa), usem as hashtags da campanha.

Leiam mulheres. Ouçam mulheres. ESCUTEM O QUE TEMOS A DIZER. Nós precisamos ser ouvidas, ser levadas em consideração. Não existe outro caminho pra acabar com a cultura do estupro e com a violência contra as mulheres.

Castração química não resolve, armar mulheres não resolve, nem penas mais pesadas resolvem, pois sabemos que nada disso detém quem realmente quer agredir, e num país normal o objetivo principal nem deveria ser prender estupradores, na boa, né. O objetivo principal deveria ser que HOMENS PARASSEM DE ESTUPRAR, ponto final.

Beijo.