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Extra: Museu Nacional #01

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O maior acervo da América Latina pega fogo. Enquanto um prefeito cretino fala imbecilidades condizentes com a outra metade da sua vida dupla e um presidente safado finge que lamenta muito, a gente que é mais normalzinho chora pela perda irreparável desse museu. Mas por que mesmo o Museu Nacional era importante? Falamos com Nathalie Vlcek, especialista em línguas indígenas, e Adriana Ornellas, bibliotecária.

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Guia de sobrevivência ao almoço de domingo – Parte 3: “A nova forma de governar”

Tempo de leitura: 4 minutos

Estrutura e Gestão

REDUÇÃO DE ESTRUTURAS MINISTERIAIS
ATUALMENTE TEMOS 29 MINISTÉRIOS

23 Ministérios;
2 Secretarias com status de Ministério;
4 Órgãos com status de Ministério;
Fonte:www2.planalto.gov.br/presidencia/ministros

O PAÍS FUNCIONARÁ MELHOR COM MENOS MINISTÉRIOS
Um número elevado de ministérios é ineficiente, não atendendo os legítimos interesses da Nação. O quadro atual deve ser visto como o resultado da forma perniciosa e corrupta de se fazer política nas últimas décadas, caracterizada pelo loteamento do Estado, o popular “toma lá-dá-cá”.

Mas olha só quem aprendeu a dar fontes sobre as informações que divulga! Uma pena isso só acontecer quando é conveniente e óbvio.  Nesse trecho a única coisa digna de nota é a expressão “toma lá-dá-cá” (porque diabos eles escrevem desse jeito, cacete??).

Qualquer um que já tenha acompanhado as entrevistas de Bolsonaro em sabatinas ou debates já se deparou com essa expressão, é um termo que ele usa com muita frequência e está associado à troca de favores entre políticos e partidos e também como uma crítica à partilha de cargos em ministérios e secretarias a fim de compor uma base menos turbulenta. Curiosamente, pesquisando aqui eu não achei nenhuma crítica do então deputado Bolsonaro à nomeação para o IBGE de Paulo Rabello de Castro do seu partido à época, o PSC. Pouco mais de um ano depois Rabello foi nomeado presidente do BNDES sob aplausos das associações empresariais (leia-se FIESP e demais amigos do Pato) pois viram nele uma pessoa que acabaria com a política da gestão anterior que foi, segundo eles  de “baixa liberação de recursos e do rigor fiscal da equipe econômica”, ou seja, nas entrelinhas o patronato brasileiro queria uma pessoa mais mão aberta com os recursos públicos federais, que exigisse menos garantias e não fosse tão fiscalmente criteriosa (Estado mínimo pra quem mesmo?).

Se alguém achar uma linha de citação deBolsonaro criticando essas atitudes, me mande, pois eu realmente não vi em lugar nenhum.

ORÇAMENTO BASE ZERO

Com o fim do aparelhamento dos ministérios, inverteremos a lógica tradicional do processo de gastos públicos. Cada gestor, diante de suas metas, terá que justificar suas demandas por recursos públicos.
Os recursos financeiros, materiais e de pessoal, serão disponibilizados e haverá o acompanhamento do desempenho de sua gestão.
O montante gasto no passado não justificará os recursos demandados no presente ou no futuro. Não haverá mais dinheiro carimbado para pessoa, grupo político ou entidade com interesses especiais.
Prioridades e metas passam a ser a base do Orçamento Geral da União, para gastar o dinheiro do POVO obtido pelos impostos.

Isso aqui me parece no mínimo delirante, parece que eu estou ouvindo alguém que está ardendo em febre e não consegue concatenar suas ideias. Talvez seja a parte mais vaga do plano até agora: metas para ministérios? Qual vai ser a meta do ministério da cultura? O número de pessoas que leram Machado de Assis? Que visitaram museus? Isso não faz o menor sentido.

Falar sobre não haver “dinheiro carimbado” também é complicado; parece que os 27 anos como deputado não ajudaram Bolsonaro a entender como funciona a administração pública, mesmo depois de ter participado de 26 aprovações de orçamento.

Será que isso aqui é dinheiro carimbado?

A imagem acima foi retirada da última Lei orçamentária aprovada, caso alguém queira mais detalhes está disponível aqui

MAIS BRASIL, MENOS BRASÍLIA

Brasília não pode ser o objetivo final de um governo. Quase 99% da população vive nos outros 5.570 municípios do Brasil.
Os ministros passam a ser executivos em suas respectivas áreas, com a missão de coordenar esforços de governadores, prefeitos e seus secretários para o atingimento de metas claras.
Nas últimas décadas, o Governo Federal concentrou a arrecadação de tributos, criando burocracia e ineficiência para controlar os entes federados. Queremos uma Federação de verdade. Os recursos devem estar próximos das pessoas: serão liberados automaticamente e sem intermediários para os prefeitos e governadores. As obras e serviços públicos serão mais baratos e com maior controle social.

UM GOVERNO QUE CONFIA NOS BRASILEIROS!
Chega de carimbos, autorizações e burocracias. A complexidade burocrática alimenta a corrupção. Faremos um Governo que confiará no cidadão, simplificando e quebrando a lógica que a esquerda nos impôs de desconfiar das pessoas corretas e trabalhadoras. Não continuaremos a tratar a exceção como regra, o que prejudica a maioria dos seguidores da lei.
O GOVERNO VAI CONFIAR NOS INDIVIDUOS!
O GOVERNO RECUARÁ, PARA QUE OS CIDADÃOS POSSAM AVANÇAR!

Neste trecho, Bolsonaro (ou seja lá quem escreveu isso pra ele, futuramente teremos razões pra duvidar que ele sequer leu esse documento) induz o leitor ao erro de associar automaticamente os controles à burocracia. O auge desse trecho é a frase “Faremos um Governo que confiará no cidadão, simplificando e quebrando a lógica que a esquerda nos impôs de desconfiar das pessoas corretas e trabalhadoras. Não continuaremos a tratar a exceção como regra, o que prejudica a maioria dos seguidores da lei”. Seguidores da lei assim como o Paulo Guedes, que ganhou uma nota preta com uma fraude na bolsa de valores?

Essa liberalização pregada por Bolsonaro nada mais é do que o enfraquecimento dos instituições de fiscalização e controle. Se já há corrupção com todos os mecanismos de hoje, o que será de nós sem eles? Claro que teremos mais corrupção, será terra de ninguém! O próximo passo seria vir a público e dizer ‘ain, tem muita corrupção no setor público, acho melhor a gente privativar…’. Bem-vindos ao tenebroso mundo do Estado mínimo.

E a tendência é piorar…

 

Esse texto é parte de uma série. Não deixe de ver os nossos outros textos sobre o tema:

Introdução
Parte 1: “O Brasil livre”
Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília
Parte 3: Estrutura e gestão
Parte 4: Linhas de ação
Parte 5: Mentiras da esquerda
Parte 6: Defesa nacional
Parte 7:  Saúde
Parte 8: Educação (EM BREVE)
Parte 9: Inovação, ciência e tecnologia (EM BREVE)
Parte 10: Economia (EM BREVE)
Parte 11: Economia 2 (EM BREVE)
Parte 12: Economia 3 (EM BREVE)
Parte 13: Economia 4 (EM BREVE)
Parte 14: Economia 5 (EM BREVE)
Parte 15: Agricultura e Infraestrutura (EM BREVE)
Parte 16: Energia, petróleo e gás (EM BREVE)
Parte 17: Tranportes, portos e aviação (EM BREVE)
Parte 18: O novo Itamaraty (EM BREVE)

Pistolando #007 – Votos brancos, nulos e outras tretas eleitorais

Tempo de leitura: 3 minutos

 

O Moro te mandou um zap pedindo pra votar nulo? O que acontece se todo mundo votar em branco? Quais são as regras da propaganda eleitoral? Como é esse negócio de sistema proporcional? Se eu votei no Fulano, por que diabos quem ganhou foi o Beltrano? O que é esse negócio de distritão? Esclarecemos vários babados eleitorais com Alexandre Basílio, entendedor dos paranauês todos.

 

Ficha técnica

Hosts: Thiago Corrêa e Leticia Dáquer

Convidado: Alexandre Basílio

Edição: Thiago Corrêa

Capa: Leticia Dáquer

Data da gravação: 27/08/2018

Data da publicação: 12/09/2018

Músicas:

  • Declamação de Jessier Quirino – Comício de beco estreito
  • Rita Lee e Roberto Carvalho – Vote em mim
  • Silvio Brito – Caso de Emergência
  • Os Paralamas do Sucesso – 300 Picaretas
  • Vinícius – Ano de Eleição (música autoral disponível no YouTube)
  • Beth Carvalho – Onde está a honestidade? (Versão de música de Noel Rosa)

 

Links relacionados ao episódio

RESOLUÇÃO TSE Nº 23.551, DE 18 DE DEZEMBRO DE 2017

Dono da Havan desafia lei eleitoral para promover Bolsonaro no Facebook (El País, 21/08/2018)

Art. 224 do Código Eleitoral – Lei 4737/65

Quem são os brasileiros que formam o terço da população que pretende votar nulo para presidente (BBC Brasil, 08/02/2018)

Maioria dos votos nulos anula eleição e impõe novo pleito com outros candidatos? Não é verdade! (G1, 22/02/2018)

Voto nulo e branco: entenda a diferença (HuffPost Brasil, 25/06/2018)

O índice de votos brancos e nulos nas pesquisas. E o cenário de indefinição (Nexo, 21/05/2018)

Livro: Ensaio sobre a Lucidez (José Saramago)

Nem mesmo a Jordânia suportou os problemas do Distritão (Alexandre Basílio – Justificando, na Carta Capital, 14/08/2017)

Quais os efeitos do sistema proporcional de votos nas eleições brasileiras (Nexo, 05/04/2017)

O paradoxo da proporcionalidade e o efeito Tiririca (Alexandre Basílio – Os Eleitorialistas, 02/08/2016)

Propaganda eleitoral na internet (vídeo com Alexandre Basílio, 31/10/2017)

 

O Bom, o Mau e o Feio

O Bom:

Leticia:

Thiago:

 

O Mau:

Leticia:

Thiago:

 

O Feio:

Leticia:

Thiago:

 

Jabás

Alexandre Basílio

Facebook: https://www.facebook.com/abcoura

Instagram: https://www.instagram.com/abcoura/

 

Leticia Dáquer

Twitter: @pacamanca

Blog: www.pacamanca.com

 

Thiago Corrêa

Twitter: @thiago_czz

 

A Balada do Pistoleiro

Alexandre Basílio

Livro: O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você (Eli Pariser)

NÃO PUBLIQUE NADA SOBRE ELEIÇÕES NO DIA DAS ELEIÇÕES SE O SEU PERFIL FOR PÚBLICO! As multas são pesadíssimas

 

Leticia Dáquer

Série de vídeos da Jout Jout sobre política

Série de fantasy: Belgariad (5 livros), de David Eddings

 

Thiago Corrêa

Texto da Svetlana Aleksiévitch: quando as flores pegaram fogo (Revista Piauí, edição de Agosto)


#MULHERESPODCASTERS

Mulheres Podcasters é uma ação de iniciativa do Programa Ponto G, desenvolvida para divulgar o trabalho de mulheres na mídia podcast e mostrar para todo ouvinte que sempre existiram mulheres na comunidade de podcasts Brasil.

O Pistolando apoia essa iniciativa.

Apoie você também: compartilhe este programa com a hashtag #mulherespodcasters e nos ajude a promover a igualdade de gênero dentro da podosfera.

 

Links do Pistolando

www.pistolando.com

contato@pistolando.com

Twitter: @PistolandoPod

Instagram: @PistolandoPod

 

pequenos machismos, grandes vitórias

Tempo de leitura: 5 minutos

Vamos falar hoje de pequenos machismos terrivelmente entranhados na nossa sociedade, que muitas vezes passam batido e a gente nem nota.

Há algumas semanas um dos meus amigos médicos publicou esse meme no grupo de WhatsApp da faculdade:

Deixei quieto um tempo pra ver se alguém dizia alguma coisa. Alguns riram; a maioria nem respondeu. Depois de um tempinho fui no grupo das meninas mais chegadas e perguntei: quantos homens vocês conhecem que gastam mais que as suas mulheres? Só uma respondeu que isso era maluquice, pois sabe-se que mulheres gastam mais. As outras concordaram que seus maridos gastam mais – e eu me incluo nesse grupo. Não só porque ganho muito menos do que o meu marido, mas porque não tenho paixão por compras idiotas que nem ele (fora alguns muitos Funko Pops, não costumo comprar coisas inúteis e caras).

Como eu vi que ninguém notou o quão machista e idiota é esse meme, deixei o assunto morrer, apesar da vontade ter sido de apontar por que ele é machista. Esse tipo de piada cretina parte do pressuposto que mulheres são fúteis e interesseiras, gastando o dinheiro do marido, o pobre coitado que rala e bota comida na mesa, obrigado a dar dinheiro pra cobrir despesas como manicure, depilação, coleções infinitas de sapatos e bolsas e outros custos tipicamente femininos.

O que eu queria ter dito era isso:

1) Se é verdade que muitas mulheres são sustentadas pelos maridos, também é verdade que:

a) Em muitíssimos casos isso se dá por falta de incentivo a subir na carreira tanto quanto os homens;

b) Em muitíssimos casos isso se dá porque o ambiente no trabalho é tão machista que impede que mulheres avancem na carreira;

c) Frequentemente mulheres abandonam suas carreiras pra ficar com os filhos, pois todo mundo sabe que cuidar de filho é coisa só de mulher;

d) Frequentemente mulheres abandonam suas carreiras pra seguir o marido, que se muda por causa do emprego. Eu conheço uma dentista que parou de trabalhar porque o marido se muda periodicamente a trabalho e pra ela é impossível montar um consultório e formar clientela fixa sabendo que dali a dois anos vai se mudar novamente;

d) MULHERES GANHAM MENOS QUE HOMENS COM CAPACIDADES SEMELHANTES;

e) O mundo espera que as mulheres sejam sustentadas por seus maridos e muitas delas jamais se questionam sobre isso, jamais pensam em ter sua independência financeira. Certamente não somos educadas desde pequenas pra sermos independentes em termos econômicos.

 

2) Mesmo se fosse verdade que toda mulher gasta rios de dinheiro com manicure, cabelos, maquiagem, sapatos, bolsas, depilação, POR QUE DIABOS ISSO ACONTECE? Cês acham mesmo que a gente acorda um dia e decide depilar a virilha assim do nada? Acham mesmo que a gente nasceu amando tirar cutícula? Acham mesmo que desde pequenas sonhamos com peitos de silicone? Ou será, SERÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, que tem um tiquinho de pressão social aí, hmmmmm?

Você que acha que eu estou exagerando, que esse autocuidado é uma coisa típica de mulher, uma coisa natural, uma coisa genética, uma coisa com a qual nascemos: quantas vezes você já criticou o aspecto físico de outra mulher? Quantas vezes você falou ou pensou que feminista não raspa o sovaco? Quantas vezes você não pensou “nossa, que desleixada” quando viu uma mulher com as unhas sem fazer, com as raízes dos cabelos sem pintar, com buço, sem maquiagem, com uma roupa menos arrumada? Bote a mãozinha na consciência e admita pra você mesma que você faz isso todo dia. Eu faço isso todo dia – a diferença é que parei de falar em voz alta, e meu objetivo é parar totalmente de pensar essas coisas. Talvez consiga um dia, mas não garanto; esse condicionamento mental é foda de superar.

Enfim, tudo isso eu queria ter dito, mas não disse porque estava com preguiça de discutir o óbvio.

Hoje em um subgrupo da faculdade (grupo de zap é igual gremlin, se você molhar, ele vira vários outros) alguém postou tuítes do Mr Catra, que não irei reproduzir aqui por preguiça mesmo. Eram vários, um pacote de tuítes, e a maioria tinha conteúdo machista. Bem machista mesmo, escroto, sabe. Eu estava almoçando quando a mensagem chegou; revirei os olhos e voltei ao meu filé de frango na chapa. Qual não foi a minha surpresa quando uma das meninas, anestesista, disse:

“Só achei engraçada a x e a y. As outras são tão machistas que agridem. Desculpa, mas nem consegui achar graça”

Engasguei com a couve de tanta emoção. Logo depois uma das outras meninas, radiologista, deu um reply com o emoji de mulher com a mão levantada, tipo “idem”. Fiz o mesmo. Fui seguida por um dos meninos, proctologista, que disse “também achei. Achei rude e grosseiro”.

MEU

ZEUS

DO

CÉU

Levei a conversa ao grupo das meninas, onde agradeci à anestesista por ter feito a observação, pois estou cansada de ser a única chata do rolé (no Rio é rolé; sorry not sorry). Seguiu-se uma breve mas linda conversa sobre o que é machismo e o que não é, sobre o que é engraçado e o que não é.

A conclusão foi, obviamente, que o humor Trapalhões, que caçoa de mulheres, negros, gordos e gays, tem que ser deixado lá nos anos 80, dos quais jamais deveria ter saído. Uma coisa só é engraçada quando ninguém se ofende. E que o fato de VOCÊ não se ofender com x ou y (eu sou uma que dificilmente me ofendo, por exemplo) não significa que a coisa não é ofensiva pra um outro grupo inteiro de pessoas. Colocar-se no lugar dos outros é um exercício difícil mas que deveríamos fazer sempre. Se alguém tá dizendo que tá sendo ofendido pela piada, pare e pense. É provável que esteja mesmo e que você não tenha pensado sobre isso porque não é o seu calo que está sendo pisado.

NÃO É MIMIMI. NÃO É O MUNDO FICANDO CHATO. É o mundo aprendendo a reclamar quando alguém escroto ri de algo ofensivo pra outras pessoas. Ou seja, é grande a probabilidade que você seja só uma pessoa horrível mesmo que até agora não entendeu que certas piadas são ofensivas e não devem mais ser reproduzidas. 2018, zente. Já deu, né?

Em caso de dúvida, pergunte a alguém que pertence à minoria que está sendo sacaneada. Siga os ensinamentos de Buda: NÃO SEJA CUZÃO.

Um beijo especial pras meninas – Hallynne, Djésmin, Pinho, Sassá – e pro Queiroz. Que mais e mais fichas caiam, todos os dias.

Pistolando Extra – Brasileirinhos Apátridas

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E quando você já achava que sabia tudo sobre Apatridia eis que surge no horizonte um caso brasileiro.

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Guia de sobrevivência ao almoço de domingo – Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília”

Tempo de leitura: 6 minutos

E aí, curtiu a primeira parte? Então simbora seguir a análise dessa bela obra (no sentido informal da palavra) de Bolsonaro.

“A NOVA FORMA DE GOVERNAR! MAIS BRASIL, MENOS BRASÍLIA”

2019 SERÁ O ANO DA MUDANÇA
NOSSA VITÓRIA SERÁ CONTRA A SERVIDÃO!
Faremos os ajustes necessários para garantir crescimento com inflação baixa e geração de empregos.
Enfrentaremos os grupos de interesses escusos que quase destruíram o país.
Após 30 anos em que a esquerda corrompeu a democracia e estagnou a economia, faremos uma aliança da ordem com o progresso: um governo Liberal Democrata.
Segurança, Saúde e Educação são nossas prioridades. Tolerância ZERO com o crime, com a corrupção e com os privilégios.

Aqui volta uma jogada bastante malandra que é fingir que declarou guerra a um inimigo mas deixar esse oponente simplesmente sem nome. Afinal, quem são os “grupos de interesses escusos” que Bolsonaro pretende enfrentar? A Odebrecht? A Coca-Cola? O PCC? A associação de moradores do meu bairro? Fica a seu critério aí; imagine um inimigo e concorde comigo.

Talvez o ex-militar esteja tão confiante nas habilidades econômicas de seus ajudantes nessa campanha que esteja ficando desleixado até com as mais simples das operações matemáticas. Só isso explica o candidato dizer que a esquerda vem “corrompendo a democracia” há 30 anos. Eu tive que apelar para a Wikipedia pra descobrir quem eram os manda-chuvas da época: em 1988 o presidente era José Sarney, o presidente da Câmara era Ulysses Guimarães e no Senado quem presidia era Humberto Lucena, os três partidários do PMDB (nenhuma surpresa aqui). A gente nem precisa analisar a biografia dos 3 pra chegar à conclusão que o governo não era um antro de esquerdistas. Depois deles ainda vieram Collor, Itamar, FHC… Digamos que nenhum deles estamparia camisas com a cara do Che Guevara.

Mas então de onde diabos Bolsonaro tirou essa conta de 30 anos?

Sabe outra coisa que também é de 1988? A nossa Constituição, que restabeleceu plenamente o governo civil. Significa? Vou deixar pra você o julgamento.

“TUDO SERÁ FEITO DENTRO DA LEI”

NOSSA CONSTITUIÇÃO PRECISA SER RESPEITADA!
Mesmo imperfeita, Nossa Constituição foi feita por representantes eleitos pelo povo.
Ela é a LEI MÁXIMA E SOBERANA DA NAÇÃO BRASILEIRA.
Lamentavelmente, Nossa Constituição foi rasgada nos últimos anos, inclusive por muitos que deveriam defendê-la.
Nosso conjunto de Leis será o mapa e a BÚSSOLA serão os princípios liberais democratas para navegarmos no caminho da prosperidade. Enfrentaremos o viés totalitário do Foro de São Paulo, que desde 1990 tem enfraquecido nossas instituições democráticas.

Quem rasgou a Constituição? Quando? Em que ocasião? Será que em algum momento Bolsonaro vai parar com essa palhaçada de ficar dando indiretinha?

Ah, o Foro de SP… Demorou, mas enfim começou a maluquice, vamos lá. Pra começar, é bem curioso o jeito como setores da direita tratam o FSP como se fosse uma seita secreta comparável ao Opus Dei e não como se fosse uma confederação com site próprio, e um papel bem claro e definido: “O Foro de São Paulo reúne partidos progressistas, nacionalistas, socialistas e comunistas. Há basicamente dois pontos em comum entre estes partidos: lutar pela integração regional e combater o neoliberalismo”, como afirma sem pestanejar Valter Pomar em entrevista. Mas se tudo é tão às claras assim, então qual é a comoção? Simples, o lance é gerar um espantalho. Fica fácil bater em uma organização que apesar de aberta é pouco conhecida e que não faz o mínimo esforço de se admitir de esquerda.

“DESAFIOS URGENTES”

CONTRA a criminalidade, corrupção e aparelhamento do Estado para estancar os estragos e iniciar o processo de recuperação do país, da economia e da Democracia.
• Mais de 62 mil homicídios por ano.
• Mais de UM MILHÃO de brasileiros foram assassinados desde a 1ª reunião do Foro de São Paulo.
• Epidemia de crack, introduzido no Brasil pelas filiais das FARC.
• Corrupção generalizada e ameaças às instituições que a estão combatendo.
• Infraestrutura insuficiente e deteriorada.
• Educação e saúde à beira do colapso.
• 13 milhões de desempregados, oficialmente.
• Desrespeito às leis, à vida, à propriedade privada e à Constituição Brasileira!

Vamos por partes: A primeira frase só diz o óbvio, ou alguém aí é a favor da corrupção? A segunda frase só mostra um dado. Não dá pra dizer nada a partir dela. É na terceira que a coisa fica divertida; ela é o que costumamos chamar de Correlação Espúria  e tem até um site só disso em inglês. A grande maluquice dele é traçar uma relação entre dois dados que não têm nada a ver um com o outro. Aqui vai um vídeo bem simples e educativo sobre essas correlações.

Bem, explicado esse ponto, cabe mais um esclarecimento sobre o texto acima, que mostra que tão importante quanto O QUE está sendo dito é também COMO e ONDE isso está acontecendo. A quarta frase fala sobre o crack ter sido “introduzido no Brasil pelas filiais das FARC”. Bem, essa frase é complicada, porque a afirmação ainda não é um consenso entre os especialistas. Tudo leva a crer que facções criminosas brasileiras tenham estreitado relações com as FARC que, com a sua produção COLOSSAL de cocaína, abasteceu o mercado brasileiro. O problema não está na frase; onde está então?

O problema está em onde esta frase foi colocada, logo abaixo da frase sobre o Foro de São Paulo. Quando paramos de analisar frase a frase e passamos a ver o todo, a impressão que o texto dá é que a introdução do crack foi uma consequência direta da reunião das esquerdas. Além de ser mais um exemplo de correlação espúria, também beira a sacanagem.

No mais, nada a comentar. Deixemos a defesa da propriedade privada para discutirmos mais além.

“UM BRASIL EM ROTA FISCAL EXPLOSIVA!”

LIBERALISMO ECONÔMICO
As economias de mercado são historicamente o maior instrumento de geração de renda, emprego, prosperidade e inclusão social. Graças ao Liberalismo, bilhões de pessoas estão sendo salvas da miséria em todo o mundo.
Mesmo assim, o Brasil NUNCA adotou em sua História Republicana os princípios liberais. Ideias obscuras, como o dirigismo, resultaram em inflação, recessão, desemprego e corrupção.
O Liberalismo reduz a inflação, baixa os juros, eleva a confiança e os investimentos, gera crescimento, emprego e oportunidades.
Corruptos e populistas nos legaram um déficit primário elevado, uma situação fiscal explosiva, com baixo crescimento e elevado desemprego. Precisamos atingir um superávit primário já em 2020.
Nossa estratégia será adotar as mesmas ações que funcionam nos países com crescimento, emprego, baixa inflação, renda para os trabalhadores e oportunidades para todos.

O liberalismo está salvando bilhões de vidas, curiosamente quase todas no hemisfério norte. E isso tem um preço alto, que é a maximização de lucros e consequente exploração da massa trabalhadora até o limite e quiçá, além dele. Estou exagerando? Não me parece exagero quando uma fábrica tem 200 tentativas de suicídio por ano e ao invés de dar condições de trabalho aos seus trabalhadores opta por instalar redes de proteção e fazer um termo em que tira a responsabilidade da empresa em caso de suicídio.

Sobre os outros pontos citados, eu deixo a palavra com o excelente professor Daniel Souza, que entende mais de economia do que eu entenderei na minha vida inteira.

“O PROBLEMA É O LEGADO DO PT DE INEFICIÊNCIA E CORRUPÇÃO”

Está previsto pelo atual governo que para 2019 o Brasil terá déficit primário de R$ 139 bilhões, que tentaremos reduzir rapidamente. Temos o objetivo de equilibrar as contas públicas no menor prazo possível, buscando um superávit primário que estabilize a relação dívida / PIB. O desafio inicial também será organizar e desaparelhar as estruturas federais, O déficit nominal de 2019, que inclui os juros da dívida, é previsto em R$ 489,3 bilhões (6,5% do PIB). O valor das renúncias tributárias é de R$ 303,5 bilhões (19% da arrecadação). O déficit dos regimes de Previdência Social está previsto em R$ 288,3 bilhões.

Aqui constam apenas dados, nao há muito o que comentar. Só vou deixar uma coisinha aqui: GOVERNO NÃO TEM QUE DAR LUCRO.

“O BRASIL É MAIOR QUE NOSSOS PROBLEMAS”

Apesar do momento difícil, é importante não esquecer que SOMOS MUITO MAIS
FORTES que todos esses problemas.
O Brasil passará por uma rápida transformação cultural, onde a impunidade, a corrupção, o crime, a “vantagem”, a esperteza, deixarão de ser aceitos como parte de nossa identidade nacional, POIS NÃO MAIS ENCONTRARÃO GUARIDA
NO GOVERNO.
Importante mencionar novamente: As leis e, em destaque, Nossa Constituição serão
nossos instrumentos! Ninguém será perseguido, todos terão seus direitos respeitados.
Todavia, investigações não serão mais atrapalhadas ou barradas.
A Justiça poderá seguir seu rumo sem interferências políticas e isso deverá acelerar as
punições aos culpados

Outro slide bem sem sal pra comentar. Aqui Bolsonaro promete que em 4 anos acontecerá uma revolução cultural em que várias coisas dadas como intrínsecas ao dia-a-dia do brasileiro vão deixar de existir. Quer um spoiler? Não vai acontecer. 21 anos de ditadura militar não acabaram com nada disso, pelo contrário: reforçaram que a farda tinha força para executar coisas que até então não eram possíveis, ou seja, a “vantagem” vestiu um uniforme.

Esse capítulo foi meio xoxo de verificar. Esperamos que as coisas melhorem na parte 3.

 

Esse texto é parte de uma série. Não deixe de ver os nossos outros textos sobre o tema:

Introdução
Parte 1: “O Brasil livre”
Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília”
Parte 3: Estrutura e gestão
Parte 4: Linhas de ação
Parte 5: Mentiras da esquerda
Parte 6: Defesa nacional
Parte 7:  Saúde
Parte 8: Educação (EM BREVE)
Parte 9: Inovação, ciência e tecnologia (EM BREVE)
Parte 10: Economia (EM BREVE)
Parte 11: Economia 2 (EM BREVE)
Parte 12: Economia 3 (EM BREVE)
Parte 13: Economia 4 (EM BREVE)
Parte 14: Economia 5 (EM BREVE)
Parte 15: Agricultura e Infraestrutura (EM BREVE)
Parte 16: Energia, petróleo e gás (EM BREVE)
Parte 17: Tranportes, portos e aviação (EM BREVE)
Parte 18: O novo Itamaraty (EM BREVE)

Guia de sobrevivência ao almoço de domingo

Tempo de leitura: 2 minutos

Longe de mim defender Ciro Gomes; o cara é tão problemático que uma fala dele rendeu o nosso episódio número 2 sobre racismo, mas tem horas que a gente tem que concordar. Quando Ciro criticou o que chamou de “esquerda intelectual” dizendo que estavam “voando para os problemas do Brasil”, ele tinha um ponto. Veja bem, eu não disse que ele tinha razão, disse que ele tinha um ponto.

De fato parece haver algum descolamento entre algumas pautas e a grande base de sustentação do povo brasileiro, e isso fica muito evidente pra mim principalmente nos discursos anti-Bolsonaro. O enfrentamento de certas pautas dele se dá de uma forma que não fica exatamente clara pro eleitor mais alienado, praquele cara que não tava acompanhando o notíciário com atenção nos últimos tempos e só agora passa a tentar entender o que tá pegando, afinal falta pouco tempo para as eleições.

Que tal uma ajudinha?

Pensando nisso eu pretendo trazer aqui algumas explicações da forma mais didática possível mas sem acabar no tom professoral. Tentar explanar de um jeito simples cada ponto da plataforma do dito cujo respeitando a intelectualidade de você que lê este texto. Não vou te tratar como criança e vou tentar evitar empregar aquele monte de termo que simplesmente não está no dia-a-dia do trabalhador. Sejamos simples e diretos.

Se você é uma daquelas pessoas que já têm uma boa bagagem mas simplesmente travam quando precisam discutir com um eleitor do Bolsonaro em potencial e assim acaba não conseguindo convencê-lo de não fazer essa burrada, então considere esse documento como um pequeno guia de consulta rápida. Deixe nos favoritos do seu celular; a chance de você precisar dele no próximo almoço de domingo em família é bem alta. Procurei separar entre os temas justamente para facilitar a consulta.

Para que ninguém possa dizer que estamos sendo desonestos, todas as frases do plano de governo de Bolsonaro estarão transcritas na íntegra. Nesta pequena série (separada pra não assustar com o tamanho do texto) vou tentar deixar isso mais claro. Esse é um documento que inicialmente reflete única e exclusivamente a minha visão. Espero que gostem.

Parte 1: “O Brasil livre”
Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília”
Parte 3: “Estrutura e gestão”
Parte 4: “Linhas de ação”
Parte 5: “Mentiras da esquerda”
Parte 6: Defesa nacional
Parte 7:  Saúde
Parte 8: Educação (EM BREVE)
Parte 9: Inovação, ciência e tecnologia (EMBREVE)
Parte 10: Economia (EM BREVE)
Parte 11: Economia 2 (EM BREVE)
Parte 12: Economia 3 (EM BREVE)
Parte 13: Economia 4 (EM BREVE)
Parte 14: Economia 5 (EM BREVE)
Parte 15: Agricultura e Infraestrutura (EM BREVE)
Parte 16: Energia, petróleo e gás (EM BREVE)
Parte 17: Tranportes, portos e aviação (EM BREVE)
Parte 18: “O novo Itamaraty” (EM BREVE)

 

Guia de sobrevivência ao almoço de domingo – Parte 1: “O Brasil livre”

Tempo de leitura: 7 minutos

Lá vamos nós começar essa jornada pelos argumentos mais malucos do ano. Tudo o que estiver em cinza é um citação direta ao programa de Bolsonaro; as exclamações e os textos em letra maiúscula são de responsabilidade dele.

“O BRASIL LIVRE”

Propomos um governo decente, diferente de tudo aquilo
que nos jogou em uma crise ética, moral e fiscal. Um
governo sem toma lá-dá-cá, sem acordos espúrios. Um
governo formado por pessoas que tenham compromisso
com o Brasil e com os brasileiros. Que atenda aos
anseios dos cidadãos e trabalhe pelo que realmente faz a
diferença na vida de todos.
Um governo que defenda e resgate o bem mais precioso
de qualquer cidadão: a Liberdade. Um governo que
devolva o país aos seus verdadeiros donos: os
brasileiros.

 

Aqui logo no início já temos um bom material pra trabalhar, repare:

Quando Bolsonaro joga essas frases dessa forma não há NADA sendo dito. “Ué, como assim nada sendo dito? Ele está dizendo que vai romper com o que temos hoje”.

Pois é, esse é o problema. A frase foi construída de uma forma que você lê nela o que você quiser. Um antipetista lê a parte que diz “governo sem toma lá-dá-cá, sem acordos espúrios” e pensa logo no governo Dilma. Eu leio a mesma frase e penso logo em Temer e seus comparsas. Como pode isso se a frase é a mesma?

Essa é a jogada: ele não se declarou inimigo de nenhum dos dois, quem fez a associação foi você. Não passa de um truque, a jogada é mandar no início uma frase impossível de ser contra e assim fazer o leitor baixar a guarda. Depois você vem com a parte que importa, e essa é que é a perigosa.

“VALORES E COMPROMISSOS”

O FRUTO DA VIDA É SAGRADO!
• Este é um país de todos nós, brasileiros natos ou de coração. Um Brasil de diversas opiniões, cores e orientações.
• As pessoas devem ter liberdade de fazer suas escolhas e viver com os frutos dessas escolhas, desde que não interfiram em aspectos essenciais da vida do próximo.
• Os frutos materiais dessas escolhas, quando gerados de forma honesta em uma economia de livre iniciativa, têm nome: PROPRIEDADE PRIVADA! Seu celular, seu relógio, sua poupança, sua casa, sua moto, seu carro, sua terra são os frutos de seu trabalho e de suas escolhas! São sagrados e não podem ser roubados, invadidos ou expropriados!
• Os frutos de nossas escolhas afetivas têm nome: FAMÍLIA! Seja ela como for, é sagrada e o Estado não deve interferir em nossas vidas.

Vamos começar analisando textualmente (e com isso eu já nem quero discutir a escolha de tratar pautas como frases soltas pontuadas). Falar sobre o “fruto da vida” remete a uma posição contra a legalização do aborto; mais uma vez Jair opta por dizer as coisas nas entrelinhas. Ele parece ter um problema em assumir textualmente as posições que defende abertamente quando está com um microfone na mão. A nossa posição sobre o aborto você pode conferir neste ótimo texto da Leticia. Ah, você notou que no ponto onde ele fala de toda a diversidade brasileira ele “acidentalmente” não cita que temos várias religiões? Curioso, não? Acho que eu não preciso dizer a razão disso, né?

A terceira e a quinta frase têm composições curiosas que valem a pena conferir juntas. Uma fala sobre a liberdade do indivíduo, a outra sobre a instituição da família, a qual segundo ele o Estado não deveria impor nenhum obstáculo. Ora, uma vez que o Estado não deve ser um empecilho à família e o indivíduo deve ter total liberdade, por que o casamento entre pessoas do mesmo sexo causa tanto incômodo ao candidato? Foi ele mesmo que escreveu “seja como ela for“. Se ele está disposto a não criar caso contra o casamento gay, lésbico, famílias não-monogâmicas e toda a sorte de diversidade que a total liberdade individual gera, então estamos juntos, mas claro que sabemos que não é o caso. Será que ele leu o próprio programa?

“LIBERDADE E FRATERNIDADE!”

• Quebrado o atual ciclo, com o Brasil livre do crime, da corrupção e de ideologias perversas, haverá estabilidade, riqueza e oportunidades para todos tentarem buscar a felicidade da forma que acharem melhor.
• Liberdade para as pessoas, individualmente, poderem fazer suas escolhas afetivas,
políticas, econômicas ou espirituais.
• Devemos ser fraternos! Ter compaixão com o próximo. Precisamos construir uma sociedade que estenda a mão aos que caírem. Escolhas erradas ou tropeços fazem parte da vida. Ajudar o próximo a se levantar nos diferencia como humanos.
• Mais importante: uma Nação fraterna e humana, com menos excluídos, é mais forte. Há menos espaço para populistas e suas mentiras. O Brasil precisa se libertar dos corruptos. O povo brasileiro precisa ser livre de VERDADE!

OK, eu tô começando a ficar incomodado. Estamos no terceiro slide e é a terceira vez que temos a palavra “liberdade”, o que é bem duvidoso quando se é o único postulante ao cargo que defende abertamente o regime que acabou com a liberdade de expressão com o AI-5. O cara tem a cara de pau de colocar no programa de governo dele que o que nos torna humanos é a virtude de ajudar quem fez escolhas erradas, mas ele próprio quer tratar bandidos a bala, desacreditando assim qualquer meio que uma pessoa possa ter de se reabilitar depois de ter cometido algum crime. Hipocrisia pouca é bobagem. Se é essa solidariedade que nos torna humanos, o que esse pensamento o torna?

Nenhuma outra parte do texto é digna de nota. O resto é só informação tirada do rabo e um caminhão de moral cristã (não que seja um defeito, mas eu esperava mais do que isso de quem pretende governar um país).

DIREITOS E DEVERES

• A forma de mudarmos o Brasil será através da defesa das leis e da obediência à Constituição, Assim, NOVAMENTE, ressaltamos que faremos tudo na forma da Lei!
• Qualquer forma de diferenciação entre os brasileiros não será admitida.
• Todo cidadão terá seus direitos preservados.
• Todo cidadão, para gozar de seus plenos direitos, deve obedecer às leis e cumprir com seus deveres (não matar, não roubar, não participar de falso testemunho, não sonegar impostos, etc.).
• Qualquer pessoa no território nacional, mesmo não sendo cidadã brasileira , tem direitos inalienáveis como ser humano, assim como tem o dever de obedecer as leis do Brasil.

Esse aqui vai ser rápido de analisar. Você leu o texto? Tem alguma coisa ali que é novidade? “Todo cidadão terá os seus direitos preservados”. Porra, isso é o mínimo que eu espero! Esse slide é totalmente irrelevante.

“IMPRENSA LIVRE E INDEPENDENTE

• Somos defensores da Liberdade de opinião, informação, imprensa, internet, política e religiosa!
• Liberdade das pessoas e de suas famílias em poder escolher os rumos da vida na contínua busca da felicidade!
• Somos contra qualquer regulação ou controle social da mídia.
• A Liberdade é o caminho da prosperidade. Não permitiremos que o Brasil prossiga no caminho da servidão.
• Nosso povo deve ser livre para pensar, se informar, opinar, escrever e escolher seu futuro.

Lá vem mais uma contradição do candidato. A mesma pessoa que é contra qualquer regulação da mídia é a que mais pede a remoção de páginas na internet. E aí? Devemos acreditar no Bolsonaro dos slides ou no das ações? Papel aceita tudo.

Será que alguém pode me explicar o motivo da segunda frase? Tem algum candidato que é contra as famílias que buscam felicidade? Gente, essa frase totalmente genérica é bem legal pra você colocar no rodapé daquela foto de pôr-do-sol no Instagram, MAS ISSO AQUI É UM PROGRAMA DE GOVERNO!

A NOSSA BANDEIRA É VERDE-AMARELA

• Nos últimos 30 anos o marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo,
se uniu às oligarquias corruptas para minar os valores da Nação e da família
brasileira.
• Queremos um Brasil com todas as cores: verde, amarelo, azul e branco.
PRECISAMOS NOS LIBERTAR!
VAMOS NOS LIBERTAR!

Essa daqui é a que mais me tirou do sério e é por isso que finalizamos a parte 1 por aqui. O tal “marxismo cultural” é uma teoria da conspiração requentada a partir de um tal de “bolchevismo cultural” que fazia relativo sucesso na Itália da década de 30. Lembra o que rolava na Itália dessa época? Isso mesmo, um tal de Fascismo.

Claro que você não precisa acreditar em mim, e é por isso que esse que é um tema muito sério precisa de melhores referências, então eu deixo aqui um techo traduzido de um excelente texto de Jason Wilson no jornal inglês The Guardian, que está longe de ser comunista:

A teoria do marxismo cultural também é claramente antissemita, baseando-se na idéia dos judeus como uma quinta coluna sabotando a civilização ocidental de dentro, uma visão racista que tem uma história mais longa do que o marxismo. Como os Protocolos dos Sábios de Sião, a teoria foi fabricada propositalmente, para uma finalidade especial: a instituição e a perpetuação da guerra cultural. Podemos até nomear um autor para essa loucura: William S Lind, um polemista da direita americana, que procurou colocar o ativismo de direita em um novo patamar quando a Guerra Fria chegou ao fim.

Caso você tenha meia horinha sobrando, ouça a ótima análise do tal “marxismo cultural” feita pelo Carapanã para o Podcast Viracasacas.

Nesse momento você deve estar pensando “mas se é só uma teoria da conspiração então deixa isso pra lá, não fica dando palco pra isso”. Olha, eu adoraria, meu caro leitor, mas tem gente que realmente acredita nisso, e talvez um dos mais célebres seja esse cara aqui.

Anders Breivik matou 77 pessoas em julho de 2011

A crença no tal marxismo cultural fez com que esse cara armasse 2 explosões e um ataque armado matando 77 pessoas. Em seu julgamento ele fez questão de fazer a saudação nazista e pediu desculpas aos outros extremistas por ter sido pego antes de matar mais gente. Essa alucinação de pessoas extremistas é literalmente mortal. Tudo de que o Brasil não precisa é um candidato a presidente que incentive delírios como esse.

 

Esse texto é parte de uma série. Não deixe de ver os nossos outros textos sobre o tema:

Introdução
Parte 1: “O Brasil livre”
Parte 2: “Mais Brasil, menos Brasília
Parte 3: “Estrutura e gestão”
Parte 4: Linhas de ação
Parte 5: Mentiras da esquerda
Parte 6: Defesa nacional
Parte 7:  Saúde
Parte 8: Educação (EM BREVE)
Parte 9: Inovação, ciência e tecnologia (EM BREVE)
Parte 10: Economia (EM BREVE)
Parte 11: Economia 2 (EM BREVE)
Parte 12: Economia 3 (EM BREVE)
Parte 13: Economia 4 (EM BREVE)
Parte 14: Economia 5 (EM BREVE)
Parte 15: Agricultura e Infraestrutura (EM BREVE)
Parte 16: Energia, petróleo e gás (EM BREVE)
Parte 17: Tranportes, portos e aviação (EM BREVE)
Parte 18: O novo Itamaraty (EM BREVE)

metralhadora de fúria hoje; aguentem.

Tempo de leitura: 6 minutos

Quando minha filha entrou na cozinha hoje pra tomar café, viu minha cara inchada de choro e perguntou se eu tava me sentindo mal. Respondi que sim, porque era um dia muito, muito triste, e expliquei a ela, aos prantos, o que significa perder um museu como o Nacional. Ela me abraçou; tomamos café em silêncio. Ela me perguntou se eu já a tinha levado a esse museu; respondi que não, porque o Rio é uma cidade complicada. Não dá pra simplesmente pensar num lugar e decidir ir – tem a dificuldade de chegar, tem a logística imposta pelo mapa da violência urbana, você precisa se planejar muito, muito bem pra não ser pego no bairro tal em tal hora e não precisar atravessar o túnel tal à noite porque sabe que pode morrer se errar os cálculos. Então nós nunca fomos.

Quando a notícia do incêndio chegou ontem, a Carol tinha acabado de ir pra cama e eu estava sentada na minha poltrona dando a última olhada no Facebook antes de pegar no livro que estou lendo. Alguém postou sobre o incêndio e eu fui procurar no Twitter. Logo depois o Thiago me mandou um áudio totalmente atônito perguntando se eu tinha visto a notícia. Ficamos os dois assim, catatônicos, acompanhando as notícias, até que a raiva chegou e passamos a nos alternar no comando do PistolandoPod, furiosos, vomitando palavrões, consternados e putaços ao mesmo tempo.

Sabemos muito bem que o descaso com a cultura e com a educação não é exclusividade desse governo golpista de merda do caralho. Isso vem desde sempre – a verdade é que o Brasil começou a morrer em 1500, vamos combinar. O que esse vampiro maldito, colocado ali primeiro por um sistema político que impede a governabilidade se não forem feitos pactos com o diabo, e segundo por gente cheia de desonestidade intelectual que sacaneia os petistas pelo sanduíche de mortadela mas foi lá encher o cu de filé mignon pago pela FUCKING FIESP – A FUCKING FIESP, CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOO – fez com o corte de gastos por 20 anos foi oficializar o horror. Um governo – uma série de governos, um povo inteiro – que caga e anda pra educação e pra cultura merece só um meteoro mesmo. Por sinal, um meteorito foi a única peça que resistiu ao incêndio do museu. Acho significativo.

O brasileiro é todo errado. Nossas prioridades são as piores possíveis, nosso senso de coletivo é inexistente, nosso interesse pelo passado como modo de trabalhar o futuro é nulo, nossa capacidade de nos preocuparmos e nos programarmos a longo prazo é nenhuma. E além de tudo isso ainda temos a ameaça da moral e dos bons costumes. A treta do Queer Museum foi uma das tantas que ilustram claramente o retrocesso mental desse país. A simples existência de uma fucking bancada fucking evangélica, uma aberração em qualquer país minimamente normal, é um sinal claro do atraso que nos toma e que ainda é somente a ponta do iceberg. Quem me conhece sabe: se eu fosse funcionária pública e fosse obrigada a REZAR (‘ORAR’ TEU CU) no trabalho, cara, não haveria coquetel molotov que bastasse no bairro pra apaziguar a minha fúria. Só de pensar que no Rio temos o Crivella como prefeito – UM FUCKING PASTOR DA FUCKING IGREJA UNIVERSAL, PORRAAAAAAAAAAAA, O QUE CARALHOS VOCÊS TÊM NA CABEÇA, SEUS MERDAS, PRA ELEGER UM TRASTE DESSES – eu tenho vontade de chorar. A invasão desses energúmenos filhos da puta na nossa política, seu entranhamento na nossa sociedade, são sinais de que ainda tem MUITO espaço pra piorar. Mas o pior nem é a bancada evangélica propriamente dita, pois são só mais um grupo de pessoas escrotas cuidando dos próprios interesses; o problema maior, a meu ver, é a nossa elite de merda, nossa classe média, a mais escrota que já pisou na face da terra, que prefere apoiar esses merdas a votar “em comunista maconheiro”. Você deixou de votar no Freixo pra votar no Crivella? Você é um merda e não tenho a mínima hesitação em afirmar isso. É um merda, ponto. Agora senta aí e chafurda bem chafurdado na merda que você ajudou a piorar.

Observando isso tudo acontecendo, a gente entende que Darcy Ribeiro tinha mesmo razão e tudo isso que tá acontecendo é um projeto. As mentes da nossa classe média foram moldadas desde sempre pra desprezar o que é nosso e louvar o hemisfério norte; os grandíssimos sacos de merda que diziam que as ciclovias do Haddad em São Paulo eram coisa de comunista pagam pau pra Amsterdã; os mesmos grandíssimos sacos de merda que estão usando esse incêndio como justificativa pra pedir a privatização de tudo são os que ficam babando no Louvre, convenientemente ignorando que os maiores museus do mundo são administrados pelos governos. Trata-se de patrimônio nacional, porra, como é possível uma pessoa ser tão filha da puta a ponto de querer vender seus próprios museus??? Suas próprias indústrias de base, sua infraestrutura? Como é possível alguém defender a venda pra estrangeiros de empresas que são necessárias pra você TER ELETRICIDADE EM CASA, BOTAR GASOLINA NO CARRO, TER ÁGUA ENCANADA?

Eu queria saber por que não queimamos Brasília ainda. Eu sei os motivos, mas queria mesmo entender por que não estamos mais revoltados. Também sei os motivos; somos realmente um povo pouco afeito a guerras, e além disso depois de tantos séculos de ignorância voluntariamente incentivada pela elite dominante, não somos capazes de entender a dimensão da importância de um museu, de uma pesquisa científica, de uma filarmônica, de projetos culturais pras periferias. O importante é que a Lei Rouanet não dê dinheiro à obra Os Macaquinhos. O importante é não ter kit gay nas escolas – e não me dêem espaço pra começar a xingar o Bolsomerda e os merdas que nele votam, porque vocês tão carecas de saber minha opinião a respeito. Foda-se que o museu mais importante da América Latina pegou fogo por falta de verba pra ajeitar a fiação elétrica do prédio (ou por alguma causa dolosa que ainda não conhecemos); o importante é fiscalizar o que cada um faz com seus próprios orifícios corporais. Foda-se que perdemos VINTE FUCKING MILHÕES DE ITENS, décadas de pesquisas, espécimes raríssimos, documentos históricos, espécies ainda não identificadas; o importante é fazer operação militar nas favelas, sabendo muito bem que não serve pra nada além de matar negros e pobres – e aqui incluo os militares mortos durante a intervenção e os PMs que morrem no Rio, e no país inteiro, todos os dias. AIN MAS UMA COISA NÃO EXCLUI A OUTRA – nesse caso, exclui sim, porque a hierarquia das nossas prioridades diz muito sobre o que somos e que valores temos. Os valores da classe média brasileira são, não necessariamente nessa ordem: prefiro eu estar na merda mas ter gente mais na merda do que eu a estar não na merda mas na companhia da classe C no avião; farinha pouca, meu pirão primeiro; a família acima de tudo, mas quero poder jogar minha mulher da janela e depois dizer que não me lembro de nada; privatiza tudo, que se der errado eu vou morar em Miami; bicicleta é coisa de comunista, mas ai como eu amo Amsterdã; socialista é tudo filho da puta, mas aqui tá feia a coisa, vou pra Portugal ajudar a criar um novo nicho mercado de apartamentos com dependência de empregada porque não sei viver sem mucama e meu braço cai se eu tiver que limpar a minha própria privada; tem que matar traficante mesmo, mas a culpa não é minha pois eu votei no Aécio. Pra mim, nada resume e ilustra tão perfeitamente a classe média brasileira quanto os adesivos da Dilma de pernas abertas pra colar no carro. Em tempo: se você já usou esse adesivo e não se arrepende, não entende a magnitude disso, você é um merda também.

Sempre que visito museus fora do Brasil fico pensando que se eu morasse lá teria o passe anual e viveria lá dentro. Fiquei pensando nisso hoje, depois do incêndio. Há algumas semanas uma amiga querida, a Ana Cardoso, me chamou pra darmos uma volta no Museu Oscar Niemeyer aqui em Curitiba. Eu não gosto de arte moderna e abomino a arquitetura dele, mas SEMPRE tem alguma mostra interessante pra ver e eu não vou com a frequência com que deveria. Por preguiça mesmo; a Ana vai sempre, mas ela vai a pé, mora pertinho. Eu moro relativamente perto, mas fico com preguiça de ir mais porque nem todo o acervo deles me interessa. Se houvesse um museu de história natural ou de arte nos moldes da National Gallery de Londres aqui eu certamente moraria lá dentro.

Minha mãe sempre encheu a boca pra falar da Quinta da Boa Vista, porque era realmente uma coisa deslumbrante, pra além da importância histórica da estrutura e do museu. Uma área de lazer invejável numa cidade ridiculamente quente, mas com ridiculamente poucas áreas verdes. Eu fui ao museu várias vezes quando pequena, com meu pai, com excursões da escola. Nunca fui depois de adulta. Me arrependo de não ter levado a Carol. Agora nada daquilo existe mais.

Esse texto tá completamente sem sentido, sem fio condutor, sem lógica entre os parágrafos. Não tenho condições emocionais de escrever nada direito. Ontem fui dormir chorando e xingando, minha cabeça tava uma zona, mil coisas ao mesmo tempo, vários textos misturados. Perdoem a minha confusão mental, por favor.

Eu vou trabalhar na biblioteca hoje à tarde. Quarta-feira o ingresso no Niemeyer é grátis; vou pegar a Carol mais cedo na escola e levá-la ao museu.

Leiam a Eliane Brum sobre o assunto. Nunca houve pessoa que escrevesse tão bem sobre qualquer coisa quanto essa mulher.

Pistolando #006 – Apatridia com Maha Mamo e Ana Luisa Demoraes Campos

Tempo de leitura: 2 minutos Nossa nacionalidade faz parte da nossa identidade. Mas e quando não temos uma pátria? Quais são as consequências legais, culturais, pessoais, de uma situação tão pouco usual? Conversamos com Ana Luisa Demoraes Campos (sim, ela mesma) e com Maha Mamo, que juntamente com sua irmã Souad foram as duas primeiras pessoas na história reconhecidas como apátridas pelo governo brasileiro.